As autoridades, e o próprio Presidente Lula da Silva, já prometeram consequências para os “golpistas” que no domingo invadiram as sedes dos poderes legislativo, executivo e judicial do Brasil. O plano para identificar os atacantes começa agora a desenhar-se e a ser executado, e vai incluir o recurso à geolocalização ou a análise de imagens de videovigilância e de listas de hóspedes em hotéis, por exemplo.
Cerca de 1.200 pessoas já foram detidas, segundo o jornal “O Globo”, um balanço que tem subido consecutivamente ao longo das últimas horas. Mas há que perceber que papel tiveram os detidos, e outros eventuais atacantes que estão em liberdade, nos desacatos que deixaram instituições públicas e património público danificados e, em alguns casos, irreconhecíveis.
Na decisão tomada no âmbito do inquérito a decorrer aos ataques de domingo, o juiz Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou que as empresas de telecomunicações guardem os registos dos telemóveis para a geolocalização dos utilizadores que estiveram na Praça dos Três Poderes. Esse armazenamento terá de acontecer num prazo de 90 dias e permitirá identificar e localizar eventuais manifestantes que tenham participado nos desacatos.
“Determinação às empresas de telecomunicações, em particular as provedoras de serviço móvel pessoal que guardem pelo prazo de noventa dias os registos de conexão suficientes para a definição ou identificação de geolocalização dos usuários que estão nas imediações da Praça dos Três Poderes e do Quartel-General do Distrito Federal para apuração de responsabilidade nas datas dos eventos criminosos”, lê-se na decisão.
O juiz determinou ainda que os hotéis do Distrito Federal entreguem listas com a identificação de hóspedes que chegaram a Brasília a partir de quinta-feira, dia 5, assim como imagens de videovigilância. Na verdade, serão analisadas as imagens de todas as câmaras de segurança do Distrito Federal, que permitirão identificar os manifestantes através de reconhecimento facial.
Os manifestantes pró-Bolsonaro foram transportados em autocarros para Brasília — terão sido mais de 80 — pelo que a investigação vai também procurar saber quem são os seus proprietários e os financiadores. O ministro da Justiça, Flávio Dino, já disse mesmo que essa etapa da investigação está a ser cumprida, com a identificação dos financiadores dos autocarros.
“Já identificamos todos os ônibus [autocarros] que vieram para Brasília e os financiadores dos ônibus. Vamos ter novos pedidos de prisão preventiva”, disse o governante, antes de acrescentar que “quem financia crime, criminoso é”.
A BBC Brasil escreve que as autoridades, incluindo a Polícia Federal, têm essencialmente três focos principais na investigação: a identificação “em massa” dos invasores, a identificação da rede de financiamento dos grupos de manifestantes e o apuramento da eventual conivência de agentes públicos.
As redes sociais serão também terreno fértil da investigação. A polícia vai usar ferramentas de reconhecimento facial, que vão cruzar imagens captadas pelas televisões, imagens de videovigilância e material publicado nas redes sociais com bases de dados biométricos de secretarias de segurança pública estaduais.
O juiz Alexandre de Moraes tinha também exigido que as redes sociais, como Instagram, Facebook, Twitter e Tik Tok, forneçam os dados dos proprietários das páginas “golpistas”, além de pedir para removerem conteúdos que promovam atos antidemocráticos. Mas a CNN Brasil adianta que dos 17 perfis identificados, pelo menos 12 continuavam ativos esta manhã.
As autoridades vão ainda analisar impressões digitais recolhidas nos edifícios atacados. Esse trabalho, assim como da identificação dos danos, já começou, aliás, na noite de domingo, como mostram as imagens que têm sido divulgadas.