À porta de dois dos maiores hipermercados de Lisboa estavam, esta terça-feira, os CEO dos respetivos grupos e até um chairman de um deles. É o dia um do IVA zero em alguns bens alimentares, mas a receção também não é para quem vais às compras, mas para o primeiro-ministro que marcou o momento com visitas ao Continente e ao Pingo Doce que acabaram palcos da propagação da mensagem sobre “as soluções” do Governo. Junto à secção do talho e entre latas de conservas, o primeiro-ministro recordou todas as medidas que já tomou para apoiar famílias e admitiu que a sua expectativa é que a inflação ceda, mas que, se assim não for, voltará à mesa das negociações com produtores e distribuidores.

António Costa diz esperar que “ao longos destes seis meses [de IVA zero em alguns produtos] a inflação evolua num sentido em que permita ir retirando incentivos. Se não for assim, teremos de nos sentar outra vez à mesa e ver o que poderemos fazer“. Lá atrás estavam o presidente Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, José António Nogueira de Brito, e mais afastado, longe do enquadramento mediático, estava Pedro Soares dos Santos, chairman da Jerónimo Martins. As várias partes fizeram parte da negociação que esteve na base do IVA zero, naquilo que Costa não se cansa de descrever como “esforço conjunto”.

Nesta altura vai garantindo que o cabaz de 46 categorias de produtos é o que existe, sem falar na necessidade de o vir a alargar. “Neste momento foi os que foram definidos na Assembleia da República”, lembrou. Mas também não garante já que o cabo da inflação alta já foi dobrado, mantendo em aberto a possibilidade de poder ter de vir a voltar a olhar para o que ficou agora acordado, eventualmente alargando a lista que, nas cadeias visitadas pelo primeiro-ministro, abrange entre 4 mil a 6 mil dos produtos nas prateleiras.

Veja a lista de 46 produtos do cabaz alimentar que passam a ter IVA zero a partir desta terça-feira

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“É o que temos de continuar a fazer: continuar a acompanhar a evolução da situação e ir adotando as medidas necessárias e possíveis a cada momento“. Nas declarações aos jornalistas, António Costa era precisamente confrontado com a eventual necessidade de reajustes ao longo do tempo, não fechando completamente essa porta.

Nos corredores dos hipermercados, ambos em Telheiras, o primeiro-ministro foi ouvindo sobretudo a explicação sobre a comunicação dos preços ao consumidor. As novas etiquetas nos produtos abrangidos pela medida surgiram da noite para o dia, com a medida a entrar em vigor à meia-noite, e nelas consta o preço atual e o que seria com o IVA a 6%.

“O desejo é que a etiqueta não mude durante seis meses”, atirou Costa, numa referência à necessidade de não haver um aproveitamento da medida por parte das grandes distribuidoras. Ao seu lado, no Continente, o CEO da Sonae MC, Luís Moutinho, ia garantindo que não. Tal como, no Pingo Doce, a CEO Isabel Pinto também asseguraria transparência nesta matéria. As juras de que a medida do Governo seria repercutida integralmente nos preços dos produtos do cabaz mantêm-se também no dia em que a medida entra em vigor.

“Não há apropriação nenhuma” da medida do Governo, disse ainda Isabel Pinto logo à entrada da loja de Telheiras, separando águas entre aquilo que foi agora legislado e as promoções que, garante, a cadeia já praticava sobre alguns dos produtos em causa.

Costa tenta acantonar oposição no protesto

Numa manhã de dia de semana, a afluência não era intensa e António Costa não se cruzou com mais do que um ou outro cliente espantado com o aparato de microfones, câmaras e seguranças na comitiva que seguia entre os corredores. Nas declarações aos jornalistas, Costa foi elogiando o “esforço conjunto para, com toda a transparência, o cidadão ser informado de qual a redução que resulta da redução do IVA” e apontando ele mesmo para as etiquetas com a explicação dos preços.

Na oposição surgiram críticas à medida, por ser tardia ou curta, mas Costa evitou ir a confronto direto. “É normal a oposição achar que o Governo governa mal e o Governo ter soluções diferentes da oposição”, respondeu para logo depois atirar com a sua linha de separação entre o que é governar e fazer oposição.

“O que verdadeiramente importa aos portugueses é o aumento do custo de vida, os preços da alimentação estarem a subir e procurar encontrar soluções. O que me cumpre fazer é falar com a distribuição, com a produção e adotar as medidas necessárias. Não é fazer declarações políticas. É agir para resolver problemas”, acrescentou numa bicada ao maior partido oposição que tenta acantonar junto do protesto.