Não sabe nada do processo de privatização mas Jaime Santos Silva, presidente do Sindicato dos Quadros da Aviação Comercial (SQAC), deixa, desde já um apelo: “Por favor não deixem correr outra vez estas notícias todas nos media e controlem as contas, vejam o que está a acontecer”. O apelo foi para o Estado de quem diz que sempre controlou as contas.
Jaime Santos Silva, ouvido na comissão parlamentar de inquérito, em mais um dia de maratonas de sindicatos da TAP, criticou a gestão de Christine Ourmières-Widener, dizendo que muito do que se passou ouvia-se nos corredores, mas só teve conhecimento pelos jornais. “A gestão é feita pelo CEO, como fazem ou deixam de fazer está nas mãos deles. Ouve-se muita coisa, mas sem factos e elementos não posso dizer sim ou sopas. Estou de mãos atadas. Ouve-se falar muita coisa”. E diz também que desconhece conversas entre a CEO e o Governo.
Ainda fez uma crítica sobre a obrigatoriedade de terem, na apresentação de contas, de colocar questões em inglês. Os sindicatos “não vão intervir na gestão da CEO. Ela está lá para fazer o seu trabalho”, disse, salientando que houve poucas reuniões com a administração de Christine. Aliás, “se houvesse o diálogo como tínhamos na altura de Fernando Pinto e Antonoaldo Neves era diferente”. E foi aí que contou que na última reunião de apresentação de contas alguns elementos da direção quiseram falar em português, o que não lhes foi permitido. “Tudo em inglês, porque temos aqui outras companhias, alguns dos interessados, que não percebem português”, terá sido pedido. “Percebia que entendia português, mas não havia um esforço da parte dela”. Criticou ainda o facto de primeiro a então CEO fazer uma reunião por internet com todos os trabalhadores para anunciar coisas e só depois é que falava com sindicatos “se achasse oportuno”.
Reuniu com Gonçalo Pires quando esteve com a administração. Tal como com o gabinete dos recursos humanos. Com o novo CEO também já estiveram reunidos, dia 20, numa apresentação a sindicatos. Com a expectativa de as linhas de reivindicações pedidas sejam levadas em consideração.
O representando dos trabalhadores na administração, João Duarte, voltou a não ser poupado por este sindicato. Considera positivo ter um representante na administração, “mas e ficamos pelo mas… falta a essência”. Pressionado para desenvolver o “mas”, Jaime Santos Silva disse: “Não contactei. Não posso fazer grandes comentários. Posso estar errado, mas é um colega que está lá, presente, ouve, mas não tem poder de ação. Mesmo que a palavra dele chegasse à administração com esta senhora… ”
Quanto a Manuel Beja, ex-chairman, “nunca o vi, não conheço”.
Questionado sobre o contacto com ministros, Jaime Santos Silva disse que reuniam com Pedro Nuno Santos quando estava a ser negociado o acordo de emergência e esteve presencialmente com o ex-ministro, “antes da apresentação da senhora Christine”. Com João Galamba, houve uma reunião de apresentação, em março, já referida por vários sindicatos, ao qual expressaram a preocupação com o processo de privatização para dizer que tinham de ter preocupações com os slots e com o hub.
À semelhança dos restantes sindicatos, também o SQAC diz que não teve conhecimento do plano de reestruturação. “O que nos foi apresentado por Pedro Nuno Santos relativo a um plano de recuperação, o qual desconheço totalmente o que está lá escrito e o que pretendem, foi para não sermos sujeitos a um regime de sucedâneo, mas assinarmos acordos de emergência, no qual abdicámos de muitos direitos que davam conforto aos trabalhadores. O resultado estava à vista até dezembro de 2019 pelos resultados obtidos pela companhia, pelo crescimento que estava a ter. A pandemia deu cabo de tudo”.
Não conhecia o plano, mas sim um powerpoint que “só referia cortes”, mas “ninguém conhece plano reestruturação. Foi a palavra passe para um acordo de emergência”. Mas o dinheiro do plano de reestruturação veio tarde, considerou.
E chegaram os cortes de vencimentos, de 25%, agora reduzidos a 20%. Mas o dirigente alerta para o facto de ser um corte de 20% face aos ordenados de 2019. “Os vencimentos pararam no tempo. Aquilo que era suposto haver continuidade parou tudo com acordo emergência”. Em 2017, tinham feito um acordo de empresa que garantia, durante pelo menos cinco anos, atualizações salariais. Aliás, isso mesmo é lembrado pelo dirigente, que recorda que tal passou-se na gestão privada. E sobre o tempo de David Neeleman, declarou: Neeleman “foi uma pessoa que teve visão estratégica. Colocou os [Airbus] Neo e soube aproveitar a proximidade com o continente americano, norte e sul, com aviões mais pequenos, motores mais económicos. Mais não posso dizer”.
Jaime Santos Silva expressou, tal como os outros sindicatos que têm passado pelo inquérito, a falta de trabalhadores da TAP, a falta de mão de obra tendo saído “pessoas com muita qualidade, com muito know how”, algumas das quais foram para outras companhias, e não voltam, a ganhar melhor.
Este sindicato, afeto à UGT, mostrou-se contra a mudança de sede da TAP. “Estamos completamente em desacordo com ela”. O que chama de reduto da TAP, no aeroporto, “tem história”, referenciando o refeitório, a creche, os hangares, o estacionamento. “O que levou a procurar outras instalações? Não faço a mínima. Mas somos contra somos”.
Dizendo que é sua preocupação na privatização os slots e o hub em Lisboa, o dirigente garante que “temos capacidade para ter hub com condições melhores”, mas lamenta o que se passa atualmente no aeroporto. “A Vinci todos os anos tem lucros estrondosos. E todos os invernos há baldes na aerogare a apanhar chuva. Como é que é possível? Na área internacional há uma casa banho para 4000 passageiros. Como é que é possível? Quem trabalha placa como é que é possível não haver casa de banho? Tem de ir à aerogare”, critica. Também realça que alguns problemas da TAP acontecem por falta de pessoal, mas também por fatores externos.