Durante várias horas, 13 no total, as autoridades foram seguindo os movimentos do Adriana, uma embarcação pesqueira que levava a bordo cerca de 750 pessoas. Embarcaram na Líbia, com destino à Europa. O navio acabou por naufragar e as estimativas apontam para mais de 600 mortos (104 pessoas foram resgatadas), naquela que foi apelidada de a pior tragédia de sempre do Mediterrâneo. Agora, uma nova investigação, com recurso a tecnologia de ponta, revela que a culpa do naufrágio terá sido da guarda costeira da Grécia. O navio enviado para o local terá tentado rebocar o Adriana, de modo a levá-lo para águas italianas, e isso terá sido fatal.

O Adriana naufragou ao largo da península do Peloponeso (sul da Grécia), durante a noite de 14 de junho, a 47 milhas náuticas (87 quilómetros) de Pilos, mar Jónico. A nova investigação — que inclui o jornal britânico Guardian — recorreu ao depoimento de testemunhas, aos registos da guarda costeira, a imagens satélite, a dados de tráfego marítimo, entre outras fontes, para criar um modelo 3D da embarcação. O resultado? Conclusões que não batem certo com a versão das autoridades gregas.

UE considera naufrágio na Grécia como maior tragédia no Mediterrâneo

A análise tecnológica coube à Forensis, uma agência de pesquisa, que tem sede na Alemanha, fundada pela Forensic Architecture, organização que se dedica a investigar violações de direitos humanos em todo o mundo.

A investigação, escreve o jornal britânico, revela que houve oportunidades de resgate perdidas e ofertas de ajuda que foram ignoradas. Por outro lado, as entrevistas com sobreviventes — que podem ser vistas num vídeo de nove minutos — revelam um cenário que a guarda costeira grega nega: houve uma tentativa de rebocar o Adriana e foi nesse momento que a embarcação virou.

Sobreviventes de naufrágio na Grécia descrevem “clima de terror” a bordo do navio

Além disso, foi criado um mapa interativo que, segundo o Guardian, cria o relato mais completo feito até ao momento desde que o Adriana saiu de África até à altura em que se afunda ao largo da costa da Grécia. Entre as várias evidências reveladas, percebe-se que um navio da guarda costeira que estava nas proximidades nunca foi enviado para ajudar a embarcação sobrelotada de migrantes e que as autoridades gregas recusaram por três vezes — e não duas — a ajuda da Frontex, a Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira.

Outras inconsistências são a direção e a velocidade da traineira.

“A corda estava atada ali.” No vídeo de 9 minutos, vários sobreviventes contam como o navio pesqueiro foi rebocado

Os relatos de alguns dos sobreviventes — foram salvos 47 sírios, 43 egípcios, 12 paquistaneses e 2 palestinianos — apontam na mesma direção: as autoridades gregas disseram aos migrantes que os iriam levar até Itália. Por outro lado, o Adriana virou a sul e ficou parado durante cerca de uma hora, quanto a versão oficial é de que a traineira, por decisão própria, continuou a navegar, seguindo para Oeste.

Outro ponto importante da investigação é o facto de os sobreviventes terem sentido a embarcação ser impulsionada para a frente “como um foguete”, com o motor desligado, o que segundo a Forensic aponta para uma tentativa de reboque. Um outro testemunho relata ter ouvido vários gritos alertando para a corda que estava a ser amarrada à traineira. “Sinto que tentaram empurrar-nos para fora das águas gregas para que a sua responsabilidade acabasse”, afirmou um dos sobreviventes.

Depois do acidente, a imprensa relatou que os migrantes estavam obrigados ao silêncio pelas autoridades gregas e com acesso limitado a comunicações com as famílias e com jornalistas. Na altura, a comissária europeia com a pasta da migração, Ylva Johansson, disse que esta era “a pior tragédia de sempre no Mediterrâneo”, afirmando que, desde o início do ano, havia um aumento de 600% nesta rota de migração ilegal da Líbia até à União Europeia (via Itália).

Grécia obriga migrantes sobreviventes de naufrágio ao silêncio

De acordo com os dados do Projeto Migrantes Desaparecidos da Organização Internacional para as Migrações (OIM), há quase 27 mil migrantes desaparecidos no Mediterrâneo desde 2014.