Uma primeira denúncia em 2022, numa entrevista onde explicou o drama familiar quando percebeu já com 16 anos as razões que levaram a que fosse adotada com apenas dois dias de vida. Uma segunda denúncia em 2023, numa entrevista onde foi começando a falar de situações abusivas de um antigo companheiro. Uma terceira denúncia, desta vez num longo vídeo publicado no Tik Tok onde descreveu de forma pormenorizada vários episódios de abuso sexual que viveu numa relação passada. O arrepiante relato de Ana Peleteiro não deixou nada nem ninguém indiferente, sendo que em nenhuma ocasião a medalhada olímpica espanhola falou no nome da pessoa em causa. Agora, pela primeira vez, Nelson Évora falou sobre o caso.
“No seguimento das notícias que estão a circular e que envolvem o meu nome, manifesto toda a minha empatia pela Ana e por todas as mulheres e homens que passam por este tipo de situação. A pessoa visada nesta história não sou eu. Agradecia, por isso, que não me associassem a esse testemunho sob pena de consequências legais”, escreveu num comunicado partilhado esta terça-feira nas suas redes sociais, já depois de ter sido contactado, pessoalmente ou através da agência que o representa, no seguimento das declarações.
O esclarecimento de Nelson Évora, que teve uma relação com Peleteiro durante alguns anos quando ambos estavam no grupo de trabalho de Iván Pedroso em Espanha, surge também no seguimento de interpretações que foram saindo na imprensa espanhola de uma frase específica da atleta no final do primeiro vídeo feito esta segunda-feira, quando referiu que “não é muito difícil” saber de quem estava a falar.
“Acordava de noite a ter relações sexuais sem consentimento. Mesmo assim, fiquei. Mudou absolutamente tudo em mim. A minha forma de vestir, o cabelo, a forma de ser com a minha família, distanciar-me de muita gente. Mesmo, assim fiquei. Dizia-me que a nossa relação se iria deteriorar se não tivéssemos relações sexuais sempre que ele quisesse e que, no final de contas, quem não comia em casa acabava por comer fora. Se me tivesse sido infiel, não me surpreendia nada. Mesmo assim, fiquei. Ia para a casa dele aos fins de semana, desaparecia e, de repente, não sabia de nada. Ele durante todo o fim de semana dizia-me aqui e ali ‘Bom dia’ e pedia desculpa, dizendo que necessitava o seu espaço, que tinha de confiar nele e deixá-lo fazer as suas coisas porque era normal numa relação. Mesmo, assim fiquei. Voltava com chupões no corpo e diziam-me que eram picadas de bichos ou do colchão. Mesmo assim, fiquei”, partilhou Ana Peleteiro no âmbito de uma trend em Espanha com várias mulheres a partilharem as suas experiências.
“Colocou um ecrã espelhado, que não permitia que visse o telemóvel a não ser que estivesse de frente porque dizia que não parava de olhar para ele cada vez que escrevia. Mesmo assim, fiquei. Tinha amigas novas todos os meses e inventada filmes de que eram amigas de há mil anos. Era mentira, eram amantes. Cada vez que suspeitava que estava a falar com outra miúda, ou que estava a ponto de descobrir uma infidelidade, dizia-me que estava completamente louca, que eram invenções da minha cabeça. Descobri centenas de emails com a sua ex-namorada, onde a deixava louca, dizendo que estava obcecada por ele. Mesmo assim, fiquei. Recebia cartas das suas amantes em casa. Muitas vezes era eu quem as recebia e, por desconfiança, lia-as. Ele dizia que eram fãs loucas, que estavam obcecadas com ele. Mesmo assim, fiquei”, prosseguiu a atleta.
“Se se identificarem com algum destes sinais, por fora, fujam! Nunca vão ser felizes e estão a causar-vos muito dano. Tentei recorrer a terapia porque sair de uma relação com um narcisista é muito complicado, já que reduzem o teu amor próprio a menos 20. Com ajuda e pessoas ao nosso redor que te querem bem e a começar do zero, a viver um amor real, bom e bonito”, concluiu a medalhada olímpica em Tóquio.