Passados três meses e meio de audiências, Dominique Pelicot e os restantes 50 arguidos do caso das violações de Mazan tiveram a oportunidade de fazer as últimas intervenções em tribunal, antes do veredicto ser anunciado o mais tardar na manhã da próxima sexta-feira.

Violada 100 vezes por 80 homens a mando do marido. O caso de Gisèle Pelicot que está a chocar França

Domique Pelicot, o primeiro a falar, começou “por saudar a coragem” da ex-mulher Gisèle, que drogou durante uma década para a violar e para que fosse violada por dezenas de homens que recrutava através da internet. “Eu peço-lhe e peço ao resto da minha família que, por favor, aceitem as minhas desculpas”, disse Dominique de 72 anos, citado pelo  Le Monde.

“Arrependo-me do que fiz, fazer sofrer [a família] durante quatro anos”, numa referência ao tempo que passou desde que o caso foi revelado à vítima. “Eu peço-lhes perdão”, disse, afirmando sentir uma “vergonha interior”.

“Arranjaram-me alcunhas, mas a minha intenção é ser esquecido”, admitiu Dominique, que foi apelidado, pelos advogados de acusação, de “ogre de Mazan”, a cidade no sul de França na qual o ex-casal vivia, e de “lobo”, pelos advogados dos outros arguidos, que o acusam de levar alguns deles a pensar que Gisèle estava a fingir que dormia, fazendo-os acreditar que a vítima estava de acordo com aquilo que lhe faziam.

“A privação de não poder ver os meus familiares é pior do que a privação de liberdade”, confessou Dominque. Depois, virou-se para os juízes e disse: “Têm o resto da minha vida nas vossas mãos”.

Entre os outros 50 acusados, a maioria disse que não queria proferir quaisquer declarações finais, mas 15 deles aproveitaram a ocasião para pedir desculpa à vítima. “Vou-me arrepender toda a vida das minhas ações”, disse Mathieu D, de 62 anos. “Apresento as minhas desculpas à senhora Pelicot. Eu arrependo-me” disse Romain V. de 63 anos, um dos quatro acusados que terá aceitado seis vezes o convite de Dominique para se deslocar à casa de Mazan para violar Gisèle.

“Qualquer que seja a pena”, Jérôme V. afirma que não vai recorrer da decisão, “por respeito à vítima, para que ela não tenha de reviver” o processo, disse o homem de 46 anos que também faz parte desse grupo de quatro acusados. O Ministério Público Francês terá pedido que Jérôme seja condenado a 15 anos de pena de prisão.

No final das declarações dos arguidos, os juízes do Tribunal de Vaucluse, região no sul de França onde se encontra Mazan, informaram a sala de audiências que se segue a fase de deliberação. O anúncio do veredicto está marcado para as 9h30 locais (10h30 em Lisboa) de quinta-feira, podendo ser remarcado, no máximo, até sexta de manhã.

A acusação pediu pena máxima de 20 anos de prisão para Dominique Pelicot, considerado-o o “chefe da orquestra”. Para os outros 50 arguidos foram pedidas penas entre os 10 e 18 anos pela acusação de violação agravada, menos a um, para quem foram apenas pedidos quatro anos de prisão, por ter agredido a vítima de forma mais superficial.

Na audiência desta segunda-feira, Gisèle Pelicot esteve apenas acompanhada por um do seus advogados. Os seus três filhos não estiveram presentes para ouvir as últimas palavras do pai. Como tem sido habitual, Gisèle, de 72 anos, foi ovacionada quando se levantou para sair da sala de audiências.

Texto editado por Dulce Neto