Rifaat al-Assad, tio do ditador sírio recentemente deposto Bashar, lavou a sua fortuna de centenas de milhões de euros com investimentos imobiliários na Europa, através de uma consultora financeira sediada na ilha de Guernsey, uma dependência da coroa britânica que serve de paraíso fiscal a vários investidores privados.
Rifaat é conhecido como o “carniceiro de Hama” por ter comandado a violenta repressão de uma rebelião de muçulmanos sunitas, nessa cidade síria, em 1982. A operação, ordenada pelo irmão Hafez al-Assad, à altura presidente da Síria, terá causado, pelo menos, 20 mil mortos.
Dois anos depois, após um golpe de Estado falhado contra o irmão, exilou-se em França. Na Europa, terá começado a desenvolver o seu império imobiliário, avaliado em 800 milhões de euros, que é composto por escritórios, casas de campo, mansões e apartamentos em Londres, Paris e Marbella.
Uma investigação do jornal britânico The Guardian e do Bureau of Investigative Journalism apurou que Rifaat al-Assad foi cliente de uma consultora da ilha de Guernsey, no canal da Mancha, que fazia a gestão do seu património. Em março deste ano, Ginette Louise Blondel, 40 anos, foi multada em 210.000 libras esterlinas (250 mil euros) e proibido durante nove anos de trabalhar como diretora de gestão de serviços financeiros, pelo regulador de Guernsey.
“Se países como o Reino Unido e as dependências da coroa só estiverem preparados para utilizar medidas de regulação como multas e desqualificações, não podem esperar dissuadir a lavagem de dinheiro sujo feita através dos seus sistemas financeiros”, disse Susan Hawley, diretora da ONG Spotligh on Corruption.
Ginette Louise Blondel era uma figura conhecida na indústria financeira de Guernsey, ilha do canal da Mancha onde estão sediadas várias empresas offshore, que gerem um total de 300 mil milhões de dólares (285 mil milhões de euros) em empresas e fundos fiduciários. O país tem 78 quilómetros quadrados de área e uma população de 65 mil habitantes.
Blondel terá sido contratada em 2013 como assistente pessoal de um dos filhos de Rifaat, acabando por se tornar a gestora da fortuna pessoal. Nessa altura, Rifaat já estava a ser investigado na Europa por lavagem de dinheiro. Em 2015, 1 milhão de euros em fundos foram transferidos para a sua conta pessoal, que Blondel terá utilizado para fazer mais de 150 pagamentos a clientes de Rifaat.
Terá continuado a trabalhar para Rifaat al-Assad até 2020, ano em que a justiça francesa o condenou a quatro anos de prisão e congelou ativos seus no valor de 90 milhões de euros, por lavagem de dinheiro. Outros países como o Reino Unido e Espanha também têm ordens para o congelamento das suas propriedades, impossibilitando que sejam vendidas sem a permissão das autoridades nacionais. Em 2019, durante um julgamento contra Rifaat, foi publicamente divulgado que este detinha mais de 500 propriedades congeladas.
Entre as propriedades que possuiu está, por exemplo, o complexo de Witanhurst, no norte de Londres, a segunda maior residência privada na capital inglesa, apenas atrás do Buckingham Palace, que vendeu por 32 milhões de libras (39 milhões de euros), em 2007. Outros ativos imobiliários dignos de nota são La Máquina, uma propriedade avaliada em 60 milhões de euros, que ocupa um terço da vila de Benahavís, em Marbella, Espanha, e uma mansão de sete andares na Avenue Foch, localizada no bairro mais caro de Paris.
“Crimes de Rifaat estão entre as atrocidades mais graves do nosso tempo”
Os procuradores do caso que Rifaat al-Assad enfrenta em Espanha alegam que os fundos que utilizou para comprar propriedades imobiliárias eram uma combinação de 200 milhões de dólares (190 milhões de euros) roubados ao estado sírio e um empréstimo, recebido da Líbia, no valor de 100 milhões de dólares. Alegadamente, os ativos eram detidos por empresas de testas de ferro de Rifaat ou dos seus familiares, entre eles as quatro mulheres e os 16 filhos.
Rifaat e os seus associados são acusados, em Espanha, de lucrar a partir de várias atividades criminosas como “extorsão, ameaça, contrabando, pilhagem de bens arqueológicos, usurpação de imobiliário e tráfico de droga”. O tio de Bashar al-Assad nega as acusações de lavagem de dinheiro de que é alvo em França e Espanha, alegando que a sua fortuna lhe foi dada pela família real saudita.
Rifaat voltou para a Síria em 2021, sendo incerto o seu atual paradeiro. Com 86 anos, não há informação sobre se está entre os elementos da família al-Assad a quem foi concedido asilo em Moscovo, após a queda do regime, no dia 8 de dezembro.
Em março deste ano, foi acusado na Suíça de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. “Os crimes de Rifat al-Assad, particularmente o massacre de Hama em 1982 estão entre as atrocidades mais graves do nosso tempo”, disse Philip Grant, diretor executivo do Trial Internacional, associação que apresentou a queixa contra o octogenário.