Pelo menos três pessoas terão morrido esta segunda-feira, durante os protestos contra a tomada de posse dos deputados que decorreu na Assembleia da República de Moçambique. Há relatos de vários feridos, alguns graves, em diferentes regiões do país.
De acordo com Wilker Dias, responsável da Plataforma Eleitoral Decide, pelo menos três pessoas terão sido mortas em Inhassoro. A denúncia foi feita nas redes sociais do ativista, que confirmou ao Observador a notícia.
O jornalista Nádio Jaime Taimo, que também confirma três vítimas, acrescenta mesmo que, após uma das mortes por volta das 4h da manhã (2h em Lisboa), “o chefe das operações” terá perguntado, quando foi informado, qual o partido a que pertencia a vítima.
Não é certo quem serão os responsáveis pelas mortes, mas jornalistas e ativistas locais apontam o dedo à polícia. A ONG Justice Frontil Equitas denuncia que em Ressano Garcia, perto da fronteira com a África do Sul, a estrada para fora do país foi cortada em protesto e um jovem foi atingido a tiro pela polícia. Outros jovens terão sido baleados em Malhampsene (Maputo) e Mavalane, mas não é certo qual o estado de saúde de todos estes baleados.
While some FRELIMO and PODEMOS MPs arrive for the inauguration, some roads in Maputo City and Matola are closed by barricades. pic.twitter.com/CmrbSqnFPT
— Wilker Dias???????? (@wilkerDias13) January 13, 2025
Segundo testemunhos em vários locais do país, há estradas cortadas e barricadas erguidas não só em Ressano Garcia, mas também em vários pontos de Maputo (como o subúrbio de Matola) e Massinga (em Inhambane), local onde Daniel Chapo — que irá tomar posse como Presidente esta quarta-feira — foi governador durante anos. A Nova Rádio Paz também registou dezenas de pessoas nas ruas de Larde, na província de Nampula.
????Earlier today in Massinga, Inhambane, the roads were already blocked with coconut trees. Remember, this is where Daniel Chapo served as governor for nine years. pic.twitter.com/flc2phDUzB
— Justice Frontil Equitas (@justicefrontil) January 13, 2025
Em Milange, na província da Zambézia, a situação está a tornar-se mais aguda. O Centro para o Desenvolvimento e Democracia (CDD), uma ONG moçambicana, denuncia que a Unidade de Intervenção Rápida da polícia moçambicana disparou contra a multidão que se tem manifestado, provocando três feridos graves.
Em vídeos do canal de televisão local Tumbine TV é possível assistir aos manifestantes a erigirem barricadas na estrada N11 e ouvem-se claramente os disparos da polícia para reprimir os protestos.
Os manifestantes, contudo, permanecem irredutíveis. “A Frelimo quer agredir-nos e governar à força”, declarava um dos manifestantes ao mesmo canal momentos antes. “Essa Moçambique estragou-nos, escravizou-nos.” O plano, garantiam vários dos jovens no local, é continuar os protestos até ao dia 15, data da tomada de posse de Daniel Chapo.
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“O que eles querem de nós? É nos matar? Então que nos matem a todos nós”. Tensão nas ruas de Maputo durante a manhã
Da parte da manhã, enquanto a cerimónia na Assembleia da República decorria, as ruas de Maputo foram palco de intensos protestos e retaliação policial.
No mercado do Xiquelene, a polícia realizou vários disparos e lançou gás lacrimogéneo para dispersar manifestantes que, pacificamente, embora com barricadas na estrada, contestavam a tomada de posse. “Todo o mundo aqui saiu com o intuito de vir vender e não fazer manifestação, mas o que acontece é que a polícia da UIR [Unidade de Intervenção Rápida] chegou aqui e começou a disparar. Levou alguns jovens, meteu dentro do carro e começou a bater. A nossa pergunta é: O que nós fizemos hoje?”, questiona Glória Langa, vendedora naquele mercado.
Pouco depois, com alguns populares que tentavam imobilizar as poucas viaturas que circulavam, elementos da UIR, numa viatura blindada, voltavam a fazer vários disparos de gás lacrimogéneo. “Manifestar de forma pacífica. É o que nós estamos a fazer aqui, não há nenhuma barricada, não há nenhuma confusão, mas estamos a ouvir tiros (…) Qual é o mal que nós fizemos?”, acrescenta Glória, retorquindo: “O que eles querem de nós? É nos matar? Então que nos matem a todos nós, para eles poderem governar”.
Enquanto alguns populares apresentam vários invólucros de munições de metralhadora disparadas minutos antes, Carlos Milagre queixa-se de ter sido carregado e agredido pela polícia, embora afirme que estava apenas no passeio do mercado. “Chegaram ali, meteram-me à força no carro, bateram-me a dizer que eu fechei a estrada, enquanto eu lá não estive”, garante, perante a fúria popular contra o blindado da UIR que ia fazendo disparos de gás lacrimogéneo para dispersar pequenos grupos.
A cerca de dois quilómetros do parlamento, a avenida Acordos de Lusaka foi tomada por pneus em chamas, enquanto a polícia tentava, sem sucesso, desmobilizar os manifestantes, que ainda viravam contentores do lixo para travar a circulação automóvel, juntamente com pedras, vidros e paus. “O protesto que estamos a fazer é pelo melhor do nosso país. Já há 50 anos que a Frelimo está a governar e não muda nada”, queixa-se Abdul Carvalho, lamentando que pouco se fale das vítimas destas manifestações, segundo organizações no terreno quase 300 mortos e mais de 600 atingidos a tiro desde 21 de outubro.
“Eu conheço, tenho três pessoas. Uns vizinhos, um dos meus primos já morreu”, afirma, enquanto os pneus em chamas levavam um espesso fumo negro a toda a avenida, apesar da chuva que ia caindo. “Por que estão a matar?”, questionava ainda Abdul, garantindo: “O povo está cansado, é isso que nós queremos mudar”.
“Acredito que isto vai piorar (…) Não é arma que muda um país, é o povo”, diz ainda.
Os protestos nas ruas são uma resposta ao apelo de Venâncio Mondlane para os moçambicanos se manifestarem contra a tomada de posse dos deputados esta segunda-feira. “Temos de dar um sinal de que o povo é que manda e o povo é que está no poder”, afirmou o candidato na sua página de Facebook. Mondlane sublinhou que os protestos devem decorrer “sem violência” e sem pilhagens.