Um navio caça minas alemão e uma fragata de pesquisa naval holandesa já chegaram à costa de Talin, capital da Estónia. Por estes dias são esperados outros navios da NATO — entre eles, mais um caça minas francês —para dar início à Baltic Sentry, uma missão marítima que, nas palavras do secretário-geral Mark Rutte, “aumentará a vigilância no Báltico” e tem o objetivo de “melhorar a dissuasão” no território.
Esta é a resposta da Aliança Atlântica aos três casos, em menos de um ano e meio, de cabos subaquáticos no Mar Báltico que foram danificados por embarcações, havendo a suspeita de que a Rússia estaria por trás. Ainda que a Europa não atribua oficialmente estes casos à Rússia, Rutte admitiu uma “possível sabotagem”. Enquanto a equipa da NATO se agrupa em Talin, a imprensa norte-americana avançou, este domingo, que há um crescente consenso entre os serviços de informação europeus e norte-americanos de que os incidentes afinal não constituem um ataque russo, mas foram o resultado de acidentes.
“O grupo vai crescer no futuro com outras embarcações. No final, seremos à volta de seis ou sete”, disse o comandante Erik Kockx, o líder belga de uma equipa anti-minas que participará na Baltic Sentry. A força naval constituída pela NATO vai reunir várias capacidades dos serviços de informação dos vários estados-membros, nomeadamente ao nível das embarcações, da vigilância — através do ar e do espaço — e equipamento subaquático como sonares, drones e uma nova geração de sensores.
“Vamos ser as câmaras de segurança do Mar Báltico, o que significa que ninguém pode realizar ações contra infraestrutura crítica subaquática sem os termos visto ou sem termos a capacidade de reagir de maneira adequada”, acrescentou. “Qualquer navio que saia de São Petesburgo vai saber que está a ser seguido“, disse Kockx. “E se esse navio tiver a intenção de realizar ações contra a lei, vai pensar duas vezes”, sugeriu.
A última gota para a resposta da NATO foi um incidente no dia de Natal que envolveu o navio petroleiro Eagle S. De acordo com as autoridades finlandesas, o petroleiro arrastou a sua âncora no fundo do mar, ao longo de 100 quilómetros, danificando cinco cabos subaquáticos: o Estlink 2, um cabo de energia, e outros quatro cabos de telecomunicações.
Polícia finlandesa apreende petroleiro suspeito de sabotagem de cabo submarino
Na sequência do incidente, uma equipa das forças especiais da Finlândia embarcou no Eagle S, descendo de helicópteros, para apreender a embarcação. Numa altura em que o inquérito sobre o sucedido ainda está em curso, nove membros da tripulação estão impedidos de sair da Finlândia e, passadas mais de três semanas do incidente, o navio continua detido no porto de Porvoo, a este de Helsínquia. Já foi descoberto que faltava uma âncora ao Eagle S e que esta foi encontrada no fundo do mar, separada da sua corrente.
A teoria da polícia finlandesa é que as embarcações e tripulações que fazem parte da “frota fantasma” da Rússia —navios de todo o mundo que transportam petróleo russo escapando às sanções impostas pelo Ocidente — também são ocasionalmente contratadas para realizar sabotagem de infraestruturas críticas europeias.
As autoridades europeias e finlandesas acreditam que este será um exemplo tipo de uma embarcação de bandeira “cinzenta” — uma embarcação com a bandeira de um país não afetado pelas sanções impostas sobre a venda de petróleo russo, operando a partir de países coniventes com a Rússia. O Eagle S foi construído na China, navega com a bandeira das ilhas Cook, o proprietário está sediado no Dubai e é gerido por uma empresa indiana. Para além disso, o capitão é georgiano e a tripulação composta por georgianos e indianos. O Eagle S estaria alegadamente a fazer a ligação entre o porto russo de Ust-Luga e a Turquia com 35 mil toneladas de petróleo, naquele dia 25 de dezembro.
Caravella, a empresa com sede no Dubai que detém o Eagle S, nega as acusações de uma sabotagem intencional a mando da Rússia. Herman Ljungberg, advogado finlandês a representar a empresa neste caso, disse ao The Guardian que os seus representantes ainda “não receberam qualquer informação sobre as investigações”. Ljungberg é crítico da ação realizada pelas autoridades da Finlândia, acusando-a de violar o direito naval e o código penal finlandês. “Ainda não recebemos quaisquer decisões nem a base jurídica para o embarque [das autoridades da NATO], acontecido há mais de três semanas, que me atrevo a classificar como sequestro“, disse. “As autoridades finlandesas não tinham jurisdição para entrar no navio e conduzir investigações. Ponto final”, conclui.
No domingo, um dia antes de Donald Trump tomar posse como Presidente dos EUA, o The Washington Post avançou informação que vem dar força à teoria de que os vários incidentes com cabos subaquáticos no Mar Báltico foram afinal acidentais.
A investigação realizada sobre o sucedido, que envolveu os serviços de informação dos Estados Unidos da América (EUA) e seis países europeus, não têm encontrado provas da culpa russa, de acordo com várias fontes anónimas consultadas pelo jornal norte-americano. Por outro lado, dizem ter-se deparado com evidência que abona a favor daquilo que têm alegado os navios envolvidos nos incidentes — que a danificação dos cabos foi acidental. Segundo se tem concluído na investigação ainda em curso, os cortes terão sido causados pela inexperiência das tripulações a bordo das embarcações envolvidas, questão que terá sido agravada pelo mau estado dos navios.
Algumas autoridades europeias, nomeadamente finlandeses, continuam a não estar convencidas. Pekka Toveri, representante da Finlândia no Parlamento Europeu e antigo número um dos serviços de informação finlandeses, afirma que estes casos são parte de uma “operação híbrida típica” de Moscovo. “A coisa mais importante numa operação híbrida é a negação”, disse ao The Washington Post. Toveri concede que a Rússia pode não ter “deixado qualquer prova que se aguentaria em tribunal”, mas daí concluir que a danificação dos cabos foi acidental “é uma grande treta”.
Antes deste incidente no Natal passado, outros dois casos, ocorridos no último ano e meio, colocaram a NATO sob alerta. No dia 20 de novembro, o Yi Peng 3, um navio graneleiro chinês foi acusado de arrastar uma âncora sobre dois cabos subaquáticos de fibra ótica: um que ligava a Finlândia à Alemanha e outro entre a Lituânia e a ilha sueca de Gotland. Em outubro de 2023, o Balticconnector, um gasoduto entre a Finlândia e a Estónia, foi igualmente cortado pela âncora de um navio com a bandeira de Hong Kong, o Newnew Polar Bear, que transportava contentores.
Em ambos os casos, o governo chinês anunciou que ia conduzir investigações sobre o ocorrido. No caso mais antigo, envolvendo o gasoduto, as autoridades chinesas concluíram que o Newnew Polar Bear era responsável pela danificação dos cabos, mas afirmou que tinha sido um acidente. No caso mais recente com o Yi Peng 3, o governo comunista rejeitou um pedido de cooperação das autoridades suecas para a investigação e ainda não divulgou quaisquer resultados. Estes episódios ocorridos em pouco mais de um ano, dão substância à hipótese de a China se ter tornado protagonista da guerra híbrida no Báltico.
“Pode-se dizer que acidentes em que a infraestrutura subaquática é danificada são muito frequentes. Contudo, no Mar Báltico, não testemunhámos uma sequência de episódios como esta envolvendo a infraestrutura estratégica mais importante — gasodutos, cabos energéticos e cabos de informação — desde que esta se tornou operacional”, disse Tomas Jermalavičius, líder dos estudos do Centro Internacional de Talin para a Defesa e Segurança.
O episódio com o Estlink 2, no dia de Natal, não levou a cortes de energia, mas vai obrigar a meses de trabalho de reparação. A eletricidade transportada através deste cabo foi compensada por outros fornecedores da rede energética, que nas regiões afetadas ficará frágil durante algum tempo. Esta escalada de tensões acontece numa altura em que três estados membros da Europa daquela área geográfica — Lituânia, Letónia e Estónia — se preparam para diminuir a sua dependência da energia russa. Os três países balcãs, que pertenceram ao antigo bloco soviético, vão desconectar-se da rede energética russa e ligar-se à europeia, através da Polónia, a partir do dia 8 de fevereiro.
Numa reunião em Helsínquia na última terça-feira Mark Rutte descreveu os acontecimentos no Báltico como “possível sabotagem” e lembrou a importância da infraestrutura que a Aliança Atlântica se propõe defender. Segundo o secretário-geral, 1,3 milhões de quilómetros de cabos subaquáticos de energia e de telecomunicações ali presentes são responsáveis por cerca de 9,7 biliões de euros em transações, todos os dias. “Os capitães das embarcações devem compreender que potenciais riscos para a nossa infraestrutura vão ter consequências, incluindo o embarque [das autoridades da NATO], a apreensão e a detenção”, disse.