A luso-francesa que torturou e deixou morrer à fome a filha de 13 anos foi esta sexta-feira condenada a prisão perpétua com um período de segurança de 20 anos. O padrasto de Amandine, Jean-Michel Cros, foi também considerado culpado. Terá de cumprir uma pena de 20 anos de prisão.
A leitura da sentença decorreu esta tarde no Tribunal de Hérault, em Montpellier, França. Os factos remontam a agosto de 2020, quando a jovem morreu com cerca de 28 quilos. No julgamento, que durava há várias semanas, foram exibidas imagens do corpo da vítima que além de uma magreza severa apresentava escoriações e marcas de maus-tratos.
O médico legista que efetuou a autópsia a Amandine disse na quarta-feira que a adolescente tinha estado subnutrida “durante três ou quatro meses” antes da sua morte, tendo morrido por “desnutrição imposta por terceiros”. O dia-dia de maus tratos a que a jovem de 13 anos era sujeita piorou quando, em março de 2020, foi decretado o confinamento obrigatório com o objetivo de conter a pandemia de Covid-19.
A criança terá estado fechada dentro de uma cave, sem acesso a água e comida e era mantida nua para que não pudesse “esconder comida nos bolsos”.
Sandrine Pissarra, que tem oito filhos, admitiu na quinta-feira ser “uma mãe monstruosa“, perante o tribunal em que decorre o julgamento. Antes disso, tinha negado sempre os crimes que lhe eram imputados, justificando o estado de saúde de Amandine com uma anorexia severa.
Em tribunal, a mulher que foi descrita enquanto violenta, manipuladora e mentirosa admitiu que se vingava na filha de apenas 13 anos “porque ela era parecida com o pai“. Um dos progenitores dos seus oito filhos que a teria abandonado.
O Ministério Público francês tinha pedido uma pena de prisão perpétua com 20 anos de segurança para a mãe de Amandine e 18 anos de prisão para o seu padrasto, que compactuou com os maus-tratos e nunca denunciou a situação. O tribunal foi mais longe e acabou por determinar que o padrasto da jovem deve passar os próximos 20 anos privado de liberdade.
Sandrine defendeu os seus atos contra a filha com os maus tratos e subnutrição que também ela terá sifrido em criança
“Não percebi o estado dela”, respondeu Sandrine Pissara ao juiz na audiência desta quinta-feira, quando questionada sobre os factos do caso, afirmando que não sabe o que aconteceu nem como agrediu a filha. “Nunca quis que ela morresse”, garantiu.
A luso-francesa admitiu ainda que estava “errada”, mas quis justificar os seus atos com os seus “próprios traumas de quando era criança“, por ter sido também ela vítima de violência e de subnutrição.
“Éramos três e a minha mãe queixava-se de que não tinha dinheiro suficiente. Eu era espancada. Bofetadas, murros, humilhações. Tinha vergonha de falar sobre isso”, afirmou em tribunal a agressora.
Nos últimos anos, Sandrine Pissarra negou que a filha tivesse sido vítima de maus tratos, mas, nos últimos dias do julgamento, acabou por admitir a violência “entre 2014 e 2020” e “os atos de tortura e de barbárie cometidos entre 17 de março e agosto”.