Foram esta quinta-feira capturados em Espanha os dois fugitivos de Vale de Judeus que ainda estavam a monte, confirmou a Polícia Judiciária em comunicado. A Polícia Nacional de Espanha também confirmou, no Twitter, o seu envolvimento na detenção dos dois fugitivos.
“Os dois últimos evadidos do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, Rodolfo José Lohrmann, de 59 anos, e Mark Cameron Roscaleer, de 35, foram, hoje, detidos em Alicante, Espanha, pela Polícia Nacional, depois de um persistente e ininterrupto trabalho de recolha e de troca de informação da Polícia Judiciária (PJ) com as autoridades espanholas”, diz o comunicado.
Os dois últimos fugitivos de Vale de Judeus foram detidos esta quinta-feira
“Os dois homens encontravam-se em fuga desde o passado dia 7 de setembro de 2024. Desde essa altura que a Polícia Judiciária vinha recolhendo informações que permitiram localizar os evadidos no sul de Espanha”, acrescenta a nota.
Segundo apurou o Observador, após a fuga da prisão de Vale de Judeus no dia 7 de setembro, os dois fugitivos separaram-se e foram para sítios diferentes, mas foram-se encontrando ao longo dos últimos meses no sul de Espanha.
O britânico Mark Cameron Roscaleer foi detetado pelas autoridades há vários meses, nomeadamente em trânsitos regulares entre Gibraltar — para onde terá ido depois de deixar o território nacional — e o sul de Espanha.
De acordo com a PJ, “o cidadão argentino, Rodolfo José Lohrmann, tem uma extensa carreira criminal, referenciado pelo envolvimento em criminalidade altamente organizada e especialmente violenta, de âmbito internacional, dos quais se sublinham os crimes de associação criminosa, branqueamento, roubo a banco, detenção de arma proibida, falsificação/contrafação de documentos e furto qualificado”.
Segundo a CNN, que cita o Procurador-Geral Adjunto do Ministério Público da Argentina, o país sul-americano vai avançar com o pedido de extradição de Rodolfo Lohrmann. O recluso argentino era um dos mais procurados no seu país natal, onde obteve grande mediatismo após ser acusado de raptar o filho de um ex-ministro. A família aceitou pagar o resgate, mas nunca mais ninguém soube do jovem Christian Schaerer.
Antes de desaparecer durante vários anos, Rodolfo ainda liderou o gangue presumivelmente responsável pelo sequestro e morte da filha de um ex-Presidente paraguaio. Após ser detido na Bulgária, de onde conseguiu fugir, viria a ser apanhado em Portugal, em 2016, por vários roubos à mão armada.
“Investigado pela PJ, cumpria uma pena de prisão de 20 anos, com data da primeira reclusão a 16 de novembro de 2016”, diz a polícia.
????????ÚLTIMA HORA????????DETENIDOS en #Alicante los dos últimos presos que se fugaron de la prisión portuguesa de Vale de Judeus
Rodolfo J. Lohrmann y Mark Cameron han sido localizados gracias a la estrecha cooperación con la @PJudiciaria https://t.co/A8cll8DiIJ
— Policía Nacional (@policia) February 6, 2025
“Já o cidadão britânico, Mark Cameron Roscaleer, está referenciado pela prática de criminalidade especialmente violenta, como roubo com arma de fogo e sequestro”, acrescenta o comunicado. “Investigado pela PJ, cumpria pena de prisão de 9 anos, com início de reclusão a 10 de maio de 2019.”
Em declarações aos jornalistas durante a visita oficial à Chéquia, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse ser uma “boa notícia para a Justiça”: “É uma boa notícia para os portugueses”.
“Acabou de suceder mais rápido do que alguns pensariam. É bom que a Justiça funcione assim”, salientou Marcelo Rebelo de Sousa.
A PJ sublinha ainda que “sobre ambos os evadidos recaíam mandados de detenção internacional emitidos pela autoridade judiciária competente, constando de notícia vermelha na Interpol”.
Anteriormente, já tinham sido capturados os portugueses Fábio Loureiro e Fernando Ferreira, bem como o georgiano Shergili Farjiani. O grupo de cinco reclusos fugiu da prisão de Vale de Judeus em 7 de setembro do ano passado.
A polícia espanhola adiantou, entretanto, que não deve prestar esclarecimentos esta quinta-feira, remetendo para uma conferência de imprensa na manhã de sexta-feira, em Madrid.
Ministra da Justiça destaca “êxito” na recaptura dos fugitivos
A ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, enalteceu já a ação da Polícia Judiciária — em articulação com as autoridades espanholas — na recaptura de Mark Cameron Roscaleer e Rodolfo Lohrmann em Espanha.
“É muito gratificante ver que, cinco meses depois da fuga de cinco reclusos perigosos de Vale de Judeus, todos foram recapturados. Este êxito é uma prova da confiança que os cidadãos devem ter nas nossas polícias”, frisou, numa declaração enviada à comunicação social.
Rita Alarcão Júdice expressou ainda à equipa da PJ e ao diretor da instituição, Luís Neves, o seu “reconhecimento pelo excelente trabalho” em recapturar os cinco fugitivos de Vale de Judeus: “Como Ministra da Justiça nunca perdi a confiança na nossa Polícia Judiciária e nos frutos do esforço de cooperação internacional”.
Do primeiro ao último, como todos foram detidos
Menos de cinco meses depois, a Operação Retorno chegou ao fim. Os alarmes começaram a soar em Portugal na manhã de 7 de setembro de 2024, quando cinco reclusos fugiram da prisão de Vale de Judeus. O alerta rapidamente se estendeu a outros países, com motivos para isso: entre todos os reclusos recapturados, apenas um foi encontrado em Portugal.
Fuga: 7 de setembro
1ª recaptura: Fábio Loureiro – 6 de outubro – Tânger, Marrocos
2ª recaptura: Fernando Ribeiro – 22 de novembro – Montalegre
3ª recaptura: Shergili Farjiani – 10 de dezembro – Pádua, Itália
4ª e 5ª recapturas: Mark Roscaleer e Rodolfo Lohrmann – 6 de fevereiro – Alicante, Espanha
O vasto historial criminoso dos fugitivos levou as autoridades a alertar os portugueses: “quatro dos condenados são perigosos e tudo farão para continuar em liberdade”, disse, na altura, Luís Neves, diretor da Polícia Judiciária.
Depois de os guardas se terem apercebido da fuga, a reação surgiu e a notícia rapidamente chegou à Polícia de Segurança Pública e à Polícia Judiciária – que nessa noite ainda esteve em Vale de Judeus a revistar as celas. Nove horas depois da evasão, foi acionada a cooperação internacional, com os mandados de captura europeus e internacionais a chegarem dias depois.
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Fábio Loureiro foi traído pelo amor
A primeira detenção só chegou um mês depois, quando foi capturado um dos fugitivos mais mediáticos.
Fábio Loureiro – que aos 21 anos já liderava um gangue que atormentava o Algarve – foi atraiçoado pelo amor. As autoridades estavam a monitorizar a namorada de Fábio “Cigano” (como também era conhecido) quando ela saiu de Portugal pela fronteira terrestre com Espanha. Na capital do país vizinho, a mulher apanhou um voo para a maior cidade de Marrocos, Casablanca, de onde seguiu para Tânger, com o objetivo de encontrar o namorado.
Foi na cidade do norte de Marrocos que as autoridades localizaram o fugitivo e, após um pedido de cooperação internacional às autoridades daquele país, Fábio “Cigano” foi detido.
Se, num primeiro momento, o evadido se opôs à extradição, a vontade mudaria alguns dias depois como deu conta a família através de uma nota: “[Fábio Loureiro aceita] de modo irrestrito, ser extraditado o mais rápido que se mostrar viável, para Portugal”.
“Confirma-se que o pedido formal de extradição foi enviado, por via diplomática, na semana passada, tendo a Procuradoria-Geral da República já recebido a confirmação da sua receção por parte das autoridades marroquinas”, adiantou a PGR em resposta enviada à Lusa. No entanto, até hoje, Fábio continua em Marrocos.
A única recaptura em Portugal
Dois meses e meio depois da fuga, a aventura terminou para o contingente português que escapou, com pouco mais do que uma escada, de Vale de Judeus. A 22 de novembro, foi detido Fernando Ribeiro Ferreira – o único recapturado em solo nacional.
Localizado na aldeia de Castanheira de Chã, próxima de Espanha e a mais de 400 km da prisão, o homem de 61 anos ainda terá tentado fugir novamente quando se apercebeu que estava prestes a ser detido pela GNR.
Estava em Montalegre, numa casa praticamente abandonada e propriedade de um espanhol que não era visto no local pelos vizinhos há alguns anos. A Polícia Judiciária, que disse ter conhecimento do paradeiro de Fernando dias antes, descreveu um trabalho “moroso” e com “muito sigilo”.
Quando foi encontrado, o evadido tinha na sua posse duas armas com silenciador, munições, binóculos de visão noturna, um bloqueador de sinal móvel que impede o uso de telemóveis e também walkie-talkies. A PJ acredita que estes equipamentos terão sido usados na fuga.
Três meses depois, a detenção do primeiro estrangeiro
Depois de Tânger e Montalegre, a terceira detenção ocorreu em Pádua. Era na cidade do Norte de Itália que se encontrava Shergili Farjiani quando foi detido pelas autoridades transalpinas, em dezembro do ano passado.
Ao Observador, fonte da Polícia Judiciária disse que, no momento da fuga, tinham praticamente a certeza que o georgiano tinha aproveitado para sair rapidamente de Portugal. “Depois de um persistente, complexo e ininterrupto trabalho de investigação e de recolha de informação”, Farjiani foi detido.
Segundo a CNN, o fugitivo de 40 anos já estaria integrado num grupo criminoso quando foi recapturado, a pouco mais de uma centena de quilómetros das fronteiras com Suíça, Áustria e Eslovénia – o que terá levado a PJ a alertar autoridades italianas e espanholas sobre a presença de Farjiani num destes países.
A Operação Retorno chegou ao fim com a recaptura, em simultâneo, de Mark Roscaleer e Rodolfo Lohrmann, esta quinta-feira, na cidade espanhola de Alicante, em Espanha.