Ana Sofia Antunes, deputada do PS e antiga Secretária de Estado da Inclusão, considera que as declarações e os apartes do Chega durante o debate parlamentar de quinta-feira foram um “bater no fundo”.

Em entrevista à SIC Notícias, a socialista critica o comportamento e os comentários da bancada do Chega durante o debate sobre o acesso de estudantes com necessidades educativas especiais no Ensino Superior. “Curioso que a senhora deputada Ana Antunes só consiga intervir em assuntos que envolvem infelizmente a deficiência“, declarou Diva Ribeiro, deputada do Chega, após a intervenção de Ana Sofia Antunes.

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Mas ouviram-se ainda outras palavras, os apartes. Ainda que note que os apartes são “uma coisa que é permanente no parlamento” e admitindo que “sejam salutares, normais na vida política quando são picardias comuns”, este não foi o caso. “Todas as bancadas ouviram”, assegura na entrevista. Enumera os insultos ouvidos: “aberração, devias estar numa esquina ou isto não é uma esquina, drogada”.

Ana Sofia Antunes salienta “que não foi a primeira vez” que isto aconteceu. “Toda a gente sabe que não foi a primeira vez. Toda a gente que está no parlamento diariamente, sejam deputados, trabalhadores, jornalistas que fazem acompanhamento regular da atividade do parlamento.”

A deputada socialista considera que, “durante muito tempo, toda a gente achou que não dar importância era a melhor forma de reduzir este tipo de comportamento por parte destas pessoas à sua verdadeira dimensão”. “Não funcionou e nunca vai funcionar.” Ana Sofia Antunes considera que este comportamento “apenas está a dar força à indignidade, à calúnia, ao mau trato.”

“Ontem tocámos no fundo. Chegámos a um limiar que, na verdade, todos pensámos que nunca iríamos chegar”, lamenta a deputada.

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Mas considera que “não foi o pior que já ouviu”. Em relação ao comentário de Diva Ribeiro, nota que foi a primeira intervenção que fez “em cerca de 11 meses” sobre questões ligadas a deficiência. “Em regra alguém que sai de um cargo governativo e chega ao parlamento tem, por decoro, urbanidade e respeito institucional, o cuidado de não começar a intervir nas matérias que tutelou.” Salienta que tem “procurado ter esse cuidado” e lembra que é “coordenadora na Comissão de Assuntos Europeus”, que “fala sobre segurança, migrantes” — “temas habitualmente pouco caros pelo Chega”.

Ana Sofia Antunes diz que há deputados “que são os permanentes naquela bancada, que são os mestres da ofensa e do insulto”. Garante que “são vários” e cita nomes como “Filipe Melo, Pedro Frazão, que são efetivamente as pessoas que mais frequentemente estão envolvidas nestas questões”. “Mas não são os únicos: Rita Matias”, acrescenta.

A deputada quer deixar claro que, no momento, o que fez “foi rir, porque é tão absurdo”. “Mas de facto não posso, porque aquilo que é feito ali naquele momento não é feito contra mim, é contra um conjunto de pessoas.” Sublinha que o que aconteceu “foi um desrespeito por todas as pessoas que têm algum tipo de deficiência neste país”.

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Em relação ao comportamento do presidente da Assembleia da República, Ana Sofia Antunes considera que “há estilos de liderança na forma de conduzir os trabalhos”. “Durante muito tempo Augusto Santos Silva foi apontado por ter um estilo demasiado interventivo, José Pedro Aguiar Branco tem um estilo diferente. Acho que faz alguma coisa, que faz o que pode.” Mas destaca que “poderia — e deveria—, em determinados momentos, fazer mais”. “Este não agir reiterado e silêncio e se permitir tudo é que faz com que se esteja a assistir este limiar inaceitável.”

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Confrontada com as declarações de Aguiar Branco sobre o facto de serem os “eleitores devem ouvir e julgar o comportamento dos deputados”, Ana Sofia Antunes questiona “onde é que vamos parar?”: “Em que dia é que vamos parar? É quando os deputados do Chega atingem uma pessoa com deficiência? É quando chamam criminosos e bandidos aos migrantes? É quando ofendem as pessoas homossexuais? É quando se referem às pessoas da etnia cigana nos termos em que se referem? Em que dia é que vai ser demais, quando é que vai ser suficiente?”

Fala na reação de André Ventura como um dos dois momentos “infelizes” do dia, criticando a “lógica da vitimização” quando “na verdade está claro nas imagens quem é que foram as vítimas”. “O que vejo é o Chega a iniciar confrontos e insultos. Obviamente há resposta, porque as pessoas não são passivas, não conseguem ficar caladas o tempo todo. Mas reiteradamente isto começa sempre do mesmo lado.”

O segundo momento “infeliz” foi “a mea culpa parcial” de Pedro Pinto, o líder parlamentar do Chega, no final do debate a admitir “alguns excessos” nos apartes do Chega. “Não houve excessos só nos apartes, houve excesso também nas intervenções de microfone ligado — e isso ficou fora das declarações”, atira a deputada socialista.