Os próximos tempos não serão fáceis para Paulo Fonseca. Como habitual, a Comissão de Disciplina da Liga de Futebol Profissional de França (LFP) reuniu-se esta quarta-feira para deliberar sobre os últimos acontecimentos do futebol francês, no que à disciplina diz respeito. Entre eles estava aquele que fez correr muitas tintas nos últimos dias e envolve o treinador português do Lyon. Na última partida da Ligue 1, frente ao Brest, Fonseca não gostou que o árbitro Benoît Millot fosse analisar um potencial penálti para a equipa forasteira, numa altura em que o jogo estava nos descontos e com o resultado em 2-1, e encostou-lhe a cabeça. Acabou expulso, foi instado a comparecer na deliberação desta quarta-feira e vai estar de fora nos próximos nove meses.

“As coisas ficaram complicadas… não o devo fazer”: Paulo Fonseca com vida complicada no Lyon após encostar cabeça a árbitro

“Suspensão firme antes, durante e depois da partida, do acesso ao banco, aos balneários dos árbitros e a todas as funções oficiais, até 30 de novembro de 2025, inclusive. Além disso, até 15 de setembro de 2025 inclusive, esta suspensão será acompanhada antes, durante e depois da partida pela proibição de acesso aos balneários, ao relvado, ao túnel e a todos os corredores que levem às áreas mencionadas. A sanção entra em vigor imediatamente”, partilhou a Comissão de Disciplina em comunicado. O treinador também ficará impedido de aceder aos balneários, corredores e comunicar com os adjuntos nas competições europeia, já que o regime de penalizações da UEFA também foi acionado.

Em comunicado, o Lyon dizer “reconhecer a extrema severidade da sanção sem precedentes e a rapidez incomum do Comité de Disciplina”. “O clube lamenta que o seu treinador não tenha sido julgado apenas pelas suas ações, uma reação emocional, sem nenhuma intenção clara de agredir fisicamente o árbitro. Diante de uma sanção que parece ser ditada por um contexto nocivo que afeta a arbitragem francesa, o Lyon anuncia agora que está a estudar todas as soluções possíveis de recurso. Mais do que nunca, o clube está unido e focado nos seus objetivos desportivos”, frisou o clube francês.

O dia em que completa 52 anos começou com a Comissão de Arbitragem da Federação Francesa de Futebol (FFF) a divulgar o áudio da conversa entre si, Millot e o VAR, através de um vídeo publicado no Youtube. Neste é possível ver uma troca calma de palavras entre os jogadores e o árbitro, que lhes explicou que o lance estava a ser revisto pelo VAR, antes de ser convidado a ver as imagens, junto ao relvado. Nesse momento, o português saiu do banco e partiu na direção ao árbitro, reclamando uma falta a favor da sua equipa no início da jogada, ao mesmo tempo que gritava “vergonha”. Millot mostrou-lhe o amarelo e prosseguiu a analisar o lance.

[No podcast “Somos Todos Malucos“, António Raminhos fala sobre os nossos medos, ansiedades e superações em conversas descomplicadas e divertidas em torno da saúde mental. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts e no Spotify]

O árbitro acabou por manter a decisão de campo — recomeçar o jogo com fora de jogo — e não assinalou qualquer grande penalidade. Quando regressou ao terreno de jogo, Thomas Léonard, o quarto árbitro, disse-lhe: “Vais ter de dar a Paulo Fonseca um segundo amarelo e vermelho”. Millot aceitou de imediato a decisão sem questionar, dirigiu-se ao técnico e expulso-o, seguindo-se depois o encostar de cabeça que levou o VAR a exclamar: “Ui, imagens fortes!”. Para a Direção Técnica de arbitragem, “o árbitro demonstrou uma notável compostura e controlo ao lidar com o comportamento violento do treinador”.

Na terça-feira, Marie Barsacq, ministra francesa do Desporto, pronunciou-se oficialmente sobre o caso e deixou muitas críticas a Paulo Fonseca. “O que Benoît Millot sofreu é intolerável. Fiquei chocada com a atitude de Paulo Fonseca e espero que o Comité de Disciplina faça o seu trabalho”, partilhou. Por sua vez, Philippe Diallo, presidente da FFF, também se juntou às críticas e pediu uma punição exemplar. “É inaceitável. Não devíamos ver isto nos relvados. Temos de defender os árbitros. O castigo deve ser proporcional ao gesto”, exclamou.

Por entre a polémica, Fonseca encontra-se com a equipa do Lyon na Roménia, onde defronta o FCSB esta quinta-feira. O português orientou as habituais sessões de treino dos gones e esteve presente na conferência de imprensa de antevisão à partida, recusando-se a falar sobre o caso, dizendo apenas que “está bem”. José Fonte, atual capitão do Casa Pia, foi um dos nomes que veio a público defender o treinador, elogiando o seu caráter: “Sempre demonstrou ser uma pessoa respeitadora, educada e profissional. Todos aqueles que trabalharam e privaram com ele sabem isso. Foi uma situação anormal e excecional e tenho a certeza que nunca voltará a acontecer”. Darijo Srna, ex-jogador e atual diretor desportivo do Shakhtar Donetsk, também elogiou “um exemplo de profissionalismo”. “Era um treinador de alto nível e uma ótima pessoa, que sempre interagiu de forma positiva com a equipa técnica e os jogadores. Fiquei surpreendido com o que aconteceu, mas o futebol é um jogo emocional. Às vezes as nossas emoções levam a melhor.

Tiago Pinto, diretor geral de futebol que se cruzou com Paulo Fonseca na Roma, expressou que o treinador “é uma pessoa íntegra, educada e muito serena”. “O acontecimento no jogo com o Brest em nada reflete a personalidade do Paulo, tendo este sido um caso isolado. Acredito que um conjunto de vários fatores excecionais tenham levado o Paulo a agir daquela forma. Do que conheço dele, estou seguro de que estará arrependido e se pudesse voltar atrás no tempo, não hesitaria. No futebol, as emoções por vezes levam-nos para situações inesperadas e depois arrependemo-nos, seguramente foi isso que aconteceu. É um ótimo profissional, um grande treinador e uma excelente pessoa”. O ex-internacional português Deco também se aliou ao treinador, que diz ser “um profissional exemplar, dentro e fora de campo”: “Quem o conhece sabe do seu caráter íntegro, da sua paixão pelo futebol e do respeito que tem por todos os intervenientes. Situações de tensão acontecem no futebol, mas isso não apaga a sua trajetória de seriedade e compromisso”.

De recordar que Paulo Fonseca começou a temporada no Milan, mas acabou despedido em dezembro, depois de ter somado 12 vitórias em 24 jogos. Cerca de um mês depois, no último dia de janeiro, o treinador natural do Barreiro anunciou o regresso a França, assinando contrato com o Lyon. Depois da derrota inicial em Marselha (3-2), venceu Reims (casa, 4-0), Montpellier (fora, 4-1) e Brest (casa, 2-1), caindo ainda na receção ao PSG (3-2).

Atualizado às 23h46 com o comunicado do Lyon.