As bolsas norte-americanas não conseguiram suster a tentativa de recuperação encetada durante a noite, na negociação dos chamados “futuros” de ações, e voltaram a abrir em “terreno” negativo nesta terça-feira – aprofundando as perdas históricas da véspera, que foi a pior sessão bolsista dos últimos dois anos. Exatamente 25 anos após o estouro da chamada “bolha das dotcom“, os investidores estão a mostrar maior aversão ao risco devido aos receios de que as políticas da nova administração Trump não sejam tão “amigas” da bolsa como se acreditava.

Depois de o índice S&P 500 ter caído 2,7% e o tecnológico Nasdaq afundado 4% na segunda-feira, registou-se uma recuperação tímida nos contratos futuros dos índices da bolsa dos EUA – que são negociados na sessão asiática e na manhã europeia e, normalmente, permitem antever como será a abertura da bolsa norte-americana. Porém, cerca de uma hora antes da abertura da bolsa nova-iorquina (13h30 em Lisboa), essa tentativa de recuperação já se tinha esfumado e as bolsas voltaram a abrir no “vermelho”.

Nos primeiros minutos após a abertura, o S&P 500 caía 0,2% e o Nasdaq baixava 0,1% – e uma hora após a abertura, as perdas eram ainda maiores: quase 1% no S&P 500 e 0,7% no Nasdaq. As perdas estenderam-se às bolsas europeias que, sobretudo ao início da tarde, assumiram tendência negativa: o DAX 40 alemão perdia 0,8% pelas 14h30 de Lisboa e português PSI baixava 0,2%.

Embora a magnitude das perdas não seja comparável à da véspera, a recuperação falhada nos índices (após uma sessão tão negativa como foi a de segunda-feira) ilustra o desânimo que se instalou nas bolsas norte-americanas nos últimos dias. “A ideia que existia de que Trump seria um Presidente bom para os mercados acionistas está a ser repensada“, resume Charu Chanana, estratega de investimentos do dinamarquês Saxo Bank, citado pela BBC.

O pessimismo intensificou-se depois de ter sido publicada, no domingo, uma entrevista a Donald Trump (gravada na quinta-feira) onde o Presidente dos EUA recusou descartar o risco de uma recessão na maior economia do mundo. “Detesto ter de fazer previsões sobre essas coisas“, afirmou Trump, salientando que as suas políticas vão significar que vai haver um “período de transição”, deixando implícito que é possível que a economia sinta dificuldades. Mas essas possíveis dificuldades vão valer a pena, reforçou Trump, porque aquilo que a sua administração está a preparar “é tão bom que irá a trazer a riqueza de volta para os EUA”.

“Quem sabe? Tudo o que posso dizer é que vamos arrecadar centenas de milhares de milhões [de dólares] em tarifas e vamos ficar tão ricos que não vamos saber como gastar todo esse dinheiro”, respondeu Trump, quando questionado sobre se o agravamento das taxas aduaneiras com vários parceiros comerciais poderá causar uma recessão nos EUA.

Bolsa dos EUA (índice S&P 500) já dissipou todos os ganhos registados após Trump ter sido reeleito. FONTE: Google Finance

A bolsa dos EUA, medida pelo desempenho do índice S&P 500, já dissipou todos os ganhos registados após a vitória de Trump nas eleições de 5 de novembro. Este índice, o mais importante da bolsa dos EUA, subiu para um fecho nos 5.929 pontos no dia após essa eleição e em meados de fevereiro já tinha atingido os 6.150 pontos. Desde esse máximo, porém, o índice baixou para os atuais 5.590 pontos, o que traduz uma correção de cerca de 10%.

A correção negativa foi ainda mais expressiva no índice tecnológico Nasdaq Composite, que superou os 20.000 pontos várias vezes entre novembro e meados de fevereiro – porém, nesta fase, está a ser negociado abaixo dos 17.500 pontos. É uma perda superior a 13% no espaço de poucas semanas, em comparação com os máximos anuais.

Todas estas variações devem ser vistas à luz do facto de ambos estes índices terem subido mais de 20% tanto em 2023 como, depois, em 2024. No início do ano, os analistas previram mais um ano positivo para as bolsas norte-americanas, acautelando, porém, que as valorizações dos últimos anos deixaram as cotações tão “esticadas” quanto estavam na bolha das dotcom, o que significa que podem estar mais suscetíveis a correções.

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Investidores aumentam perspetiva de cortes de juros pela Fed

Perante os riscos de recessão, os investidores ativos no mercado de futuros de taxas de juro estão a prever que a Reserva Federal (Fed) possa cortar as taxas de juro de forma mais audaz do que se previa até há pouco tempo. Se há poucas semanas as previsões variavam entre previsões de mais um ou dois cortes em todo este ano, nesta fase estes mercados já apontam para uma provável descida de 85 pontos-base nos juros até ao final do ano – ou seja, prevendo-se entre três e quatro reduções da taxa de juro.

O problema é que se a Fed tem no seu mandato o fomento do crescimento económico e do mercado de trabalho, a outra missão do banco central é controlar a inflação – e, aí, as notícias continuam a não ser totalmente tranquilizadoras. No mês passado a leitura da inflação (relativa a janeiro) saiu mais preocupante do que se previa, com um aumento de 0,5% nos preços na comparação em cadeia (relativamente ao mês anterior, ou seja, dezembro). Foi o aumento maior desde agosto de 2023.

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Nesta quarta-feira vão ser divulgados os dados sobre a inflação de fevereiro, com os analistas consultados pela Reuters a apontar para uma inflação mensal de 0,3%. Mas qualquer surpresa que surja, quando for divulgado este valor, poderá complicar ainda mais o cenário nas bolsas.

“No curto prazo, a inflação continua a ser teimosa e as tarifas provavelmente irão gerar ainda mais inflação, tal como as mudanças nas políticas da imigração” anunciadas por Trump, afirma Idanna Appio, gestora de carteiras da First Eagle Investment Management, citada pela Reuters.

Em nota recebida pelo Observador, os analistas do ING dizem, tentando olhar para a frente, que “é difícil prever qual será o ponto mais baixo nesta fase de deterioração do sentimento do mercado nos EUA” – ou seja, os analistas não excluem a hipótese de as bolsas continuarem a cair.

“Os mercados estão a colocar as avaliações elevadas bem como o ambiente macroeconómico, de um modo mais geral, nos EUA”, afirmam os analistas, admitindo que, se as perdas continuarem, os membros da administração Trump poderão ser levados a emitir juízos mais tranquilizadores sobre o desempenho da economia.

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