Ratu Thalisa, uma influencer digital indonésia, foi condenada a dois anos e dez meses de prisão após um comentário sobre Jesus Cristo durante uma transmissão ao vivo no TikTok. Durante o direto, realizado a 2 de outubro de 2024, um espectador sugeriu, em tom irónico, que ela cortasse o cabelo para se parecer mais com um homem. Em resposta ao comentário, a mulher transgénero, que tem 442 mil seguidores no TikTok e mais de 90 mil no Instagram, segurou uma imagem de Jesus Cristo e disse: “Não deves parecer uma mulher. Deverias cortar o cabelo para te pareceres com o teu pai.”

Cinco grupos cristãos apresentaram queixa formal à polícia, levando à detenção da mulher seis dias depois. O tribunal de Medan, na ilha de Sumatra, considerou que as suas declarações podiam prejudicar “a ordem pública” e “a harmonia religiosa” e condenou-a com base na Lei de Informação e Transações Eletrónicas (EIT) do país. Além da pena de prisão, Thalisa foi ainda multada em 100 milhões de rupias indonésias (cerca de 5.600 euros).

A sentença foi proferida na terça-feira, no dia 11 de março. Os procuradores recorreram da decisão, pedindo uma pena superior a quatro anos, enquanto a defesa tem sete dias para apresentar recurso, informa a BBC.

A Amnistia Internacional que denuncia o caso da influencer que terá “insultado” Jesus, refere que pelo menos 560 pessoas foram acusadas sob a lei EIT entre 2019 e 2024 por crimes relacionados com difamação e discurso de ódio. A maioria dos casos de blasfémia na Indonésia envolvem acusações contra pessoas por alegadas ofensas ao Islão. No caso de Ratu Thalisa, uma muçulmana foi condenada por blasfémia contra o cristianismo, algo menos comum no país. Segundo Usman Hamid, diretor executivo da Amnistia Internacional Indonésia, “esta sentença destaca a aplicação cada vez mais arbitrária e repressiva da lei EIT na Indonésia para violar a liberdade de expressão”.

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A lei EIT foi introduzida em 2008 e alterada em 2016 para incluir comentários sobre difamação online. Críticos desta lei alertaram para a sua utilização para reprimir ativistas e opositores do governo, relata Usman Hamid, citado pelo The Independent.

Casos semelhantes já ocorreram na Indonésia, que tem a maior população islâmica do mundo. Em setembro de 2023, uma influencer muçulmana foi condenada a dois anos de prisão após publicar um vídeo, no qual recitava uma oração islâmica antes de comer carne de porco. Em 2017, Basuki Tjahaja Purnama, ex-governador de Jacarta, foi condenado a dois anos de prisão por blasfémia após citar um versículo do Alcorão durante a sua campanha de reeleição.