Um comprimido de MDMA nos Países Baixos custa, em média, 19 euros. O preço flutua consoante a oferta na região e, num “mercado emergente” como a América do Sul, chega a surgir uma nova moeda de troca: droga por droga, cocaína por MDMA. De acordo com o novo relatório de análise a este mercado feito pela União Europeia, em colaboração com a Europol, é a partir da Europa que estes comprimidos coloridos ou cristais transparentes entram em circulação no mercado global, com milhões de euros envolvidos anualmente e, agora, outras drogas também.

Ainda são “casos pontuais”, como descreve ao Observador a analista científica da Agência de Drogas da União Europeia (EUDA) Rita Jorge, não sendo possível, neste momento, estabelecer uma correlação com o aumento do consumo de cocaína na Europa como consequência destes negócios. “O mercado de MDMA não incluía a América Latina em 2018 [no último relatório]. Não surgiam muito no radar, mas isso está a mudar”, explica a especialista, que categoriza o Brasil, a Argentina, o Chile e o Paraguai como “mercados emergentes” — “e onde existem mercados emergentes, existem pessoas com vontade de os fornecer”.

A produção de comprimidos (ecstasy) e de cristais de MDMA está concentrada nos Países Baixos. São os grupos de crime organizado neerlandeses que dominam a rede de tráfico e são responsáveis pelo alargamento da sua distribuição para países vizinhos. Com subsidiárias na Alemanha, na Bélgica e em vários outros países, a Europa é responsável pela produção global de 43% do MDMA disponível no mercado. Com a pressão das autoridades a crescer, e com as operações a serem sinalizadas e desmanteladas de uma forma mais frequente, surge a necessidade de procurar alternativas.

“Os laboratórios ilícitos nos Países Baixos e na Bélgica estão frequentemente a ser desmantelados, as autoridades têm já uma grande capacidade de reconhecimento destas unidades de produção, o que acaba por criar alguma pressão nos grupos criminosos”, esclarece Rita Jorge. E, porque as forças de investigação têm um conhecimento cada vez mais detalhado do seu modo funcionamento e organização, estas redes têm expandido (e diversificando) a sua área de atuação, começando a utilizar terrenos rurais e industriais noutros países— onde o aluguer de espaços for mais rentável — para dar continuidade ao negócio.

A especialista relembra que estas organizações criminosas ligadas ao tráfico de droga têm como prioridade “maximizar lucros e minimizar riscos”. E, para isso, começaram a plantar laboratórios de produção ilícita destas drogas em vários pontos na Europa, como em Espanha e na Bulgária, segundo o relatório europeu. Justifica-se a preferência de expansão para território germânico pela proximidade às sedes das organizações nos Países Baixos, e em Espanha é uma questão de acessibilidade financeira. O foco búlgaro, contudo, tem uma motivação ainda mais estratégica.

Entre 2020 e 2022, foram apreendidas cerca de 2,4 toneladas de MDMA em países da UE, liderados por Espanha (545 kg por ano), pelos Países Baixos (380 kg) — os líderes do mercado —, França (352 kg) e Bélgica (258 kg). No mesmo período, a Turquia, individualmente, foi responsável pela apreensão de, aproximadamente, duas toneladas destes produtos. As autoridades europeias não apresentam nenhuma explicação concreta para este fenómeno, mas os dados revelam que a Turquia é um dos maiores consumidores de MDMA no mundo, graças à exportação vinda dos seus vizinhos europeus na Bulgária, responsável por mais de metade do tráfico para solo turco. Admite-se, também, que a Turquia é um ponto de trânsito no caminho até aos centros de consumo asiáticos.

Para a tal rede transatlântica que se começou a formar ao longo dos últimos anos, Portugal pode mesmo ser um interveniente relevante. Existindo a ligação luso-brasileira, os dados revelados no relatório da EUDA demonstram que Portugal “parece ser um ponto de partida para a exportação” para a América do Sul, sendo o décimo país da UE de onde foi expedido mais MDMA para tráfico. Cerca de 90 kg foram apreendidos pelas autoridades portuguesas entre 2019 e 2022, que tinham como destino a exportação para outros pontos do mundo. Rita Jorge acredita que estes pontos não se limitam à América Latina. E, não rejeitando a possibilidade, indica que o tráfico para o Reino Unido ou para Angola são também possibilidades plausíveis.

Ao contrário de Espanha, em Portugal não foi desmantelado qualquer laboratório de produção de MDMA. Num outro relatório da agência europeia, foi verificado um aumento de vestígios de MDMA/ecstasy nas águas residuais de Lisboa, Porto e Almada em 2024, que se considera estar associado a um aumento proporcional do consumo.

Lisboa, Porto e Almada com aumento de vestígios de MDMA/ecstasy nas águas residuais em 2024