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TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Inverno: Número de urgências diminuiu no SNS e tempo de espera caiu 20%. Alguns hospitais de Lisboa, Alentejo e Algarve em contraciclo

Número de urgências totais, falsas urgências e também o tempo de espera baixaram em comparação com o inverno de 2023/2024. Governo faz balanço "positivo", mas admite dificuldades a sul.

Menos episódios de urgência, menos falsas urgências e menos tempo de espera: este é o retrato do SNS no último inverno. No período entre 21 de dezembro de 2024 e 20 de março de 2025, houve menos 45 mil episódios de urgência em comparação com o inverno anterior, a proporção de falsas urgências baixou quatro pontos percentuais (para os 33,8%) e o tempo médio de espera recuou mais de 20%, apesar de alguns momentos críticos na resposta destes serviços hospitalares, em que o tempo de espera chegou às 30 horas.

Ao Observador, a secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, realça que “o inverno correu bem” e que o balanço do governo “é positivo”. “Tivemos resultados melhores do que no ano passado na resposta aos cidadãos”, destaca. No terreno, também os administradores hospitalares sublinham a evolução positiva neste inverno em relação ao anterior.

Os dados, consultados pelo Observador, constam do Portal de Monitorização do SNS. No entanto, a evolução positiva não se estendeu a todo o país: nalguns hospitais da região de Lisboa, e também no Alentejo e no Algarve, o número de episódios de urgência aumentou. E no Algarve aumentou também o tempo de espera nos serviços de urgência.

▲ A Secretária de Estado da Saúde Ana Povo diz que "resultados são melhores" que no inverno de 2023/2024 e destaca redução no tempo de espera nas urgências

Número de urgências baixou, mas Alentejo, Algarve e alguns hospitais de Lisboa tiverem evolução inversa

Ao todo, no último inverno, foram registados um milhão e 467 mil urgências nos hospitais do SNS, menos 45 mil que em 2023/2024, uma diminuição de 3,1%. Mas, enquanto os maiores hospitais das regiões norte e centro acompanharam a tendência geral, a sul a realidade foi outra.

Na análise por regiões, a que registou a maior descida nos episódios de urgência foi a região norte (menos 5,3%), seguida da região centro (com menos 5%) e de Lisboa e Vale do Tejo (onde se registou uma ligeira quebra, de 1,5%). Em sentido inverso, as regiões do Alentejo e do Algarve tiveram mais atendimentos, um aumento na ordem dos 3% em cada uma.

Começando pela região norte, os dois hospitais da cidade do Porto (Santo António e São João) registaram diminuições ligeiras, de 0,6% e 2,5%. Já o Hospital de Braga teve menos 7,3% de urgências que no último inverno. Por outro lado, uma das poucas exceções, em contraciclo, é a Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa (que abarca os hospitais de Penafiel e Amarante), que registou mais 5,4% de episódios de urgência.

Na região centro, a ULS de Coimbra registou uma quebra de 10,5%, uma das maiores — o que significou menos quase sete mil episódios de urgências em relação ao inverno anterior. Já em Leiria, a diminuição foi menor, mas ainda atingiu os 7,3%.

Já na região de Lisboa e Vale do Tejo, a evolução foi mista. A ULS de São José (que abarca os hospitais da zona central da cidade) registou menos cerca de 5 mil episódios de urgência, uma diminuição de 8,3%. No Beatriz Ângelo, a quebra foi ainda mais acentuada: de 12,6%. Também em Vila de Xira (menos 5,7%), Amadora-Sintra (menos 1,9%) e ULS do Oeste (com uma redução de 12,7%) houve menos atendimentos em contexto de urgência. O Garcia de Orta registou uma estabilização.

"Medidas como uma melhor articulação com os Cuidados de Saúde Primários, a criação dos CAC [Centros de Atendimentos Clínicos], o projeto Ligue Antes Salve Vidas podem ter tido um impacto"
Xavier Barreto, presidente da Administração Portuguesa dos Administradores Hospitalares

No entanto, duas das maiores ULS estiveram em contraciclo: na ULS de Santa Maria, o número de urgências subiu 3,7% (para mais de 45 mil) e na ULS de Lisboa Ocidental — que abarca a urgência do São Francisco Xavier — aumentou 6%. O mesmo aconteceu no Hospital de Setúbal (mais 16%). No Alentejo, o mesmo cenário de aumento. No Hospital de Évora, o maior daquela região, registaram-se mais 15,9% de atendimentos, e em Beja mais 1,7%. Nos dois hospitais do Algarve (Portimão e Faro), houve mais 3,1% de urgências no último inverno.

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Governo e gestores hospitalares destacam melhoria na articulação dos hospitais com os centros de saúde

A secretária de Estado da Saúde desvaloriza os números absolutos dos episódios de urgência e prefere destacar a diminuição das designadas falsas urgências, ou seja, dos doentes que recorreram aos serviços de urgência sem que houvesse uma necessidade clínica que o justificasse. “Não me importava de ter 0% [de evolução nos episódios totais], se todas as ULS tivessem tido uma redução das triagens verdes e azuis”, diz Ana Povo. Tal não aconteceu, mas, à semelhança da quebra global no número de urgências, desceu também a proporção global das falsas urgências, ou seja, das situações triadas com pulseiras brancas, azuis ou verdes — e que poderiam ser tratadas em autocuidados ou nos cuidados de saúde primários.

Hospitais de Lisboa limitam acesso às urgências gerais e pediátricas a partir desta quinta-feira

Entre 21 de dezembro e 20 de março, registaram-se 495 mil falsas urgências, menos 75 mil do que no inverno de 2023/2024. Estas situações representam agora 33,8% do total de episódios de urgências, menos do que os 37,8% do inverno anterior e dos 40,6% em 2022/2023. Para a quebra das falsas urgências, diz a secretária de Estado da Saúde, contribuiu também o projeto Ligue Antes Salve Vidas, que arrancou ainda na primavera de 2023 na zona norte, mas que entretanto se estendeu a 27 das 39 ULS do país. “Está relacionado com o papel do Ligue Antes Salve Vidas. A linha retira as falsas urgências dos hospitais, porque permite agendar uma consulta nos Cuidados de Saúde Primários”, destaca Ana Povo.

No terreno, os administradores hospitalares concordam que as medidas tomadas pelo Governo para retirar das urgências os casos não urgentes influenciaram a evolução positiva dos resultados do último inverno. “Medidas como uma melhor articulação com os Cuidados de Saúde Primários, a criação dos CAC [Centros de Atendimentos Clínicos], o projeto Ligue Antes Salve Vidas podem ter tido um impacto e podem estar a contribuir para esta redução”, admite o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, Xavier Barreto.

▲ Em contraciclo com o país, no Algarve episódios de urgência, falsas urgências e tempos de espera aumentaram

LUÍS FORRA/LUSA

Falsas urgências baixaram, mas ainda são 40% em Lisboa

Com exceção do Algarve, todas as regiões melhoraram no que diz respeito ao peso das falsas urgências. A norte, a proporção passou dos 38,8% para os 32%. Já a região Centro, que já tinha o melhor desempenho a nível nacional, ainda melhorou mais essa posição: nesta zona, apenas 25,9% dos episódios de urgências são triados com pulseira branca, azul ou verde (eram 34% no inverno anterior). Já em Lisboa e Vale do Tejo, as falsas urgências passaram de 44,5% para 39,3% do total. No Alentejo, a redução foi mais ligeira (dos 40 para os 38,3%). E no Algarve registou-se uma subida para os 41%. No entanto, apesar das melhorias em Lisboa e Alentejo, houve ULS em contraciclo também neste indicador. A ULS de São José e a ULS do Alentejo Central (em Évora) viram o peso das falsas urgências aumentar para os 36,8% e 44,6% respetivamente.

A secretária de Estado da Saúde reconhece que estas três últimas regiões (LVT, Alentejo e Algarve) são as mais críticas, e defende que é preciso aumentar a capacidade dos cuidados de saúde primários, de modo a retirar as pessoas das urgências. “Se as pessoas tiverem uma resposta ao pé de casa, não vão às urgências. É preciso dar resposta de consulta aberta nos centros de saúde com horário alargado durante o inverno“, realça Ana Povo, destacando que cada ULS do país teve essa capacidade. “A maior articulação com os CSP [cuidados de saúde primários] foi visível, com os CSP a responderem durante os fins de semana e algumas noites”, concorda Xavier Barreto.

No Alentejo e Algarve, Ana Povo admite que é preciso alterar a estrutura física dos serviços de urgência, de modo a que, em casos de grandes afluxos de doentes, o circuito seja eficiente.

Falsas urgências aumentaram 20%: são mais onde há menos médicos de família

No que diz respeito à região de Lisboa, onde as falsas urgências ainda representam 40% do total, Ana Povo justifica os números com o facto de as ULS desta região terem sido das últimas a aderir ao Ligue Antes Salve Vidas e também com a mais reduzida cobertura da população por médico de família.

Outro indicador que registou uma melhoria no último inverno é o do tempo de espera nas urgências (medido entre o momento da triagem e a primeira observação médica), que caiu para os 53 minutos, uma diminuição de 22% em relação aos 68 minutos do inverno de 2023/2024. Se a análise se limitar aos casos mais graves (triados com pulseira amarela e laranja), a quebra no tempo de espera foi de 15% nas amarelas (para os 56 minutos) e de 32% nas pulseiras laranjas (para os 17 minutos). No caso das pulseiras verdes, o tempo de espera recuou para os 75 minutos (era de 89 minutos em 2023/2024).

Tempos de espera caíram, em especial nas pulseiras laranjas

“Os tempos foram aceitáveis porque tivemos uma resposta articulada e em rede“, realça a secretária de Estado da Saúde, que teve a seu cargo o acompanhamento do Plano de Inverno. Ana Povo lembra que a tutela “criou uma série de respostas que permitiram dar às pessoas uma alternativa às urgências”, como os Centros de Atendimentos Clínicos e o alargamento do projeto Ligue Antes Salve Vidas. Ana Povo destaca ainda a portaria (publicada em julho) que permitiu atribuir um suplemento remuneratório aos médicos por cada bloco de 40 horas extra nas urgências. Essas respostas, realça a governante, “permitiram retirar pessoas das urgências” e “melhorar a organização”, o que fez com que os tempos de espera baixassem.

Uma das situações que "correram menos bem" foi a do Hospital Amadora-Sintra
Ana Povo, Secretária de Estado da Saúde

Ana Povo destaca a diminuição do tempo de espera nos doentes triados com pulseira laranja, que, acredita, foi um dos “fatores que fizeram baixar a mortalidade este inverno”. No que diz respeito a cada uma das regiões, o tempo de espera baixou em todas, à exceção do Algarve. Apesar de ainda estar acima da média nacional, houve uma melhoria em Lisboa e Vale do Tejo: os doentes com pulseira amarela esperam menos 24 minutos (91 minutos em média), enquanto o tempo de espera dos doentes laranja baixou para metade (de 48 para 23 minutos). No norte e centro, os doentes triados com pulseira amarela esperaram 43 e 52 minutos respetivamente, abaixo da médica. No norte, o tempo de espera para doentes laranjas foi de apenas 13 minutos.

Enquanto no Alentejo houve uma estabilização (com ligeira redução da espera para os doentes com pulseira amarela), no Algarve registou-se um agravamento: 57 minutos de espera para os amarelos (mais 13 minutos do que no inverno anterior) e 106 minutos para as pulseiras verdes (contra os 79 em 2023/2024).

Tempo médio de espera para doentes urgentes ultrapassa as 13 horas em Portimão

Apesar de fazer um balanço positivo da execução do Plano de Inverno, a secretária de Estado da Saúde reconhece que uma das situações que “correram menos bem” foi a do Hospital Amadora-Sintra, onde alguns doentes chegaram a esperar cerca de 30 horas no serviço de urgência. “Foi a situação em que tivemos mais dificuldade devido à pressão sobre o serviço de urgência”, admite Ana Povo, acrescentando esperar que o novo Hospital de Sintra venha aliviar a urgência do Fernando da Fonseca.

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