A ideia é a mesma, os contornos e o contexto que enfrentam apresentam-se de uma forma diametralmente oposta. Para Nuno Espírito Santo, um “momento de sonho” com o Nottingham Forest passa por um mais do que inesperado terceiro lugar na Premier League com seis pontos de vantagem em relação à zona de acesso à Liga dos Campeões e por um regresso às meias-finais da Taça de Inglaterra depois de vencer o Brighton nas grandes penalidades, tendo agora pela frente um Manchester City que não contará com Erling Haaland nas próximas semanas. Para Ruben Amorim, um “momento de sonho” com o Manchester United mais não é do que atravessar uma série com sete jogos consecutivos sem derrotas que permitiu o regresso à 13.ª posição do Campeonato além dos quartos da Liga Europa. Por muito que os técnicos portugueses pensem no futuro, o encontro entre ambos no City Ground mais parecia um mero regresso ao final da década de 70.

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Nessa altura, os tricky trees lutavam não só por títulos nacionais mas também europeus, enquanto os red devils ainda esperavam pelo seu Brian Clough que conseguisse mudar por completo o filme (como viria a acontecer uns anos depois, com a chegada de Alex Ferguson ao clube em 1986). Razões para isso? Mais do que muitas. No entanto, e na ótica dos visitantes, o grande desafio era apenas um e passava por anular a grande mais valia do Forest através daquele que é o principal objetivo a breve/médio prazo de Amorim: criar um verdadeiro coletivo, uma equipa trabalhada, ciente da sua ideia de jogo e capaz de continuar a superar as muitas barreiras que surgem mantendo-se fiel ao ADN futebolístico enraizado por Nuno Espírito Santo.

Não há volta a dar. E também não há nada que ajude: City volta a escorregar, Bernardo Silva entra e sai lesionado

“Acho que posso dizer que estou muito confiante e que os jogadores estão mais confiantes. A energia é diferente mas sei que isso pode mudar com os resultados. Sabemos que temos de melhorar e estamos prontos para estes dois últimos meses da época. Não sei em que lugar vamos terminar mas queremos ganhar jogos. Ainda temos vários encontros para terminar numa posição diferente. Estamos mais confiantes, por isso estamos a olhar para cima. Época do Nottingham Forest? Não estou surpreendido, o Nuno [Espírito Santo] é um treinador de topo. O ambiente vai ser muito agradável, eles estão a fazer um trabalho fantástico. Mas nós queremos continuar a ganhar jogos”, apontara o antigo técnico do Sporting, que apesar das várias baixas que ainda tem no plantel começa a ganhar mais opções não só para o onze inicial mas sobretudo para o banco.

Em paralelo, a face a notícias recentes que davam conta da possibilidade de saída de Bruno Fernandes no final da temporada, Ruben Amorim fechou a porta a uma venda do médio com um objetivo claro em mente. “Ele não vai a nenhum lado porque já lhe disse isso. Quero o Bruno aqui porque nos momentos mais baixos da nossa temporada… Temos a ambição de ganhar a Premier League outra vez. Por isso, queremos que os melhores jogadores permaneçam connosco”, comentou o treinador português sobre o internacional que, a par do agora lesionado Amad Diallo, tem sido o jogador mais influente desde que chegou a Inglaterra.

Era mais uma vez no capitão que recaíam as principais esperanças do Manchester United, que defrontava um Nottingham Forest apostado em fazer mais história, neste caso com dois triunfos diante dos red devils na mesma edição da Premier League como não acontecia desde 1992. “Os rapazes têm batido recordes, seria mais um. Mas vai ser difícil, o Manchester United tem boa equipa, bons jogadores, com soluções em todos os lugares, bom treinador. Jogamos em casa, isso dá-nos confiança”, garantira Nuno Espírito Santo. No final, foi isso também que fez diferença. E começam a faltar adjetivos para descrever a caminhada dos tricky trees esta época, da mesma forma como escasseiam para descrever o fantasma a que chamam red devils.

Com quatro alterações em relação à equipa que ganhara na última ronda ao Leicester, com os regressos de Yoro, Dorgu e Zirkzee além da introdução de Casemiro no meio-campo para dar outro equilíbrio em termos físicos à equipa, o Manchester United quis dar sinais iniciais de que começa a entrar num caminho de maior estabilidade mas cedo claudicou por um veneno que deveria utilizar contra o adversário: Elanga saiu rápido numa transição sem que aparecesse uma primeira barreira que travasse a incursão, ganhou não só metros e espaço e rematou colocado sem hipóteses para Onana com apenas cinco minutos de jogo. Um remate, um golo, um passaporte para o Forest até à sua zona de conforto, um bilhete de aviso para o United, que voltava a entrar a perder em mais um encontro tendo cedo de se equilibrar para procurar algo mais.

Mesmo sem resultados práticos, os visitantes mostraram que estão diferentes dos primeiros tempos com Ruben Amorim no comando. Nem sempre a exibição foi a melhor, muito menos as opções de passe e saída foram as mais desejadas, mas os red devils não perderam o equilíbrio emocional, recuperaram o controlo do jogo em termos posicionais (entre algum consentimento de um Forest à procura de saídas rápidas onde o espaço estivesse) e tiveram oportunidades para empatar antes do intervalo entre uma defesa de Matz Sels a remate de Bruno Fernandes e um desvio de cabeça à trave após cantos de Diogo Dalot (26′). Com vários cruzamentos surgidos sobretudo da direita, remates de meia distância ou tentativas de combinação curtas pelo corredor central, a formação de Manchester jogava para mais mas continuava a ser anulada pela boa organização defensiva da formação de Nuno Espírito, que teve de mudar ainda antes do intervalo com as saídas de Ola Aina e Danilo (neste caso por opção técnica) para as entradas de Álex Moreno e Morato.

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No descanso, Amorim começou a jogar as suas fichas tirando Ugarte e lançando Höjlund na frente, com o recuo de Bruno Fernandes em campo para construir mais atrás. Ainda assim, e ao contrário do que deveria ser a ideia, a segunda parte começou com características diferentes muito por culpa da “batalha” no meio-campo entre a maior capacidade ofensiva do Forest e a falta de profundidade no ataque do United. Quando o cenário se inverteu, também pelo desgaste dos velocistas da casa para ainda fazerem os mesmos sprints nas transições, o jogo desenrolou-se no terreno do Forest mas tendo um conjunto de Manchester a jogar mais com o coração e com a vontade do que com a cabeça, acabando com Harry Maguire em modo Coates como ponta de lança mas sem capacidade para anular a desvantagem mínima até ao final, com Murilo a cortar em cima da linha um desvio do central inglês no último lance do período de compensação.