Poucas horas depois de escrever que era uma “ótima altura” para comprar ações, Donald Trump anunciou – através da sua rede social Truth Social – uma “pausa” de 90 dias na aplicação das tarifas agravadas (“recíprocas”, como lhes chamou) a todos os países exceto a China. Vai manter-se a tarifa-base de 10% que entrou em vigor no último sábado, sobre todos os países, mas, exceto no caso da China, vão ficar suspensas por três meses as tarifas mais gravosas (que, no caso da União Europeia, ascendem a 20%).
Trump explicou que tomou esta decisão depois de ver que o “nervosismo” e o “medo” estavam a instalar-se nos mercados (em especial, no mercado de dívida pública, onde as obrigações dos EUA a 10 anos se aproximaram de um juro de 4,5%). Mas também terá sido determinante, reconhece o Presidente dos EUA, o facto de ter visto o presidente do banco JPMorgan Chase a dizer na televisão Fox que uma recessão era o “cenário mais provável” daqui para a frente. O banqueiro Jamie “Dimon disse que algo tinha de ser feito…“, afirmou Donald Trump.
Ainda assim, o secretário do Tesouro de Trump garantiu que esta não foi uma decisão súbita – o plano sempre foi este, afirma. “Pudemos testemunhar uma estratégia de negociação bem-sucedida que o Presidente Trump implementou há uma semana e que levou mais de 75 países a negociar”, disse Scott Bessent, secretário do Tesouro numa conferência de imprensa em Washington DC realizada numa altura em que os mercados bolsistas já registavam ganhos de quase 10%, recuperando boa parte das perdas dos últimos dias.
Índice S&P500 já estava a negociar em “terreno” positivo mas os ganhos aceleraram pelas 18h00 (em Lisboa) e o índice fechou a ganhar quase 10%. FONTE: TradingEconomics
O índice S&P 500, que já estava a negociar em “terreno” positivo durante boa parte da sessão, viu os ganhos aceleraram para entre 1% e 2% nos minutos que antecederam o anúncio feito por Trump. Quando a suspensão das tarifas (menos à China) foi conhecida, os índices deram um “salto”: o S&P 500 fechou a subir 9,5% e o Nasdaq Composite disparou 12,2% – a maior subida num dia desde 2001.
Bessent garantiu que “este foi o plano desde o início” e elogiou Trump porque “foi preciso muita coragem para ele manter o rumo até este momento”. “O que aconteceu aqui — como disse a todos há uma semana [aqui] neste preciso momento — foi dizer ‘não retaliem, e serão recompensados’”, afirmou, acrescentando que “todos os países do mundo que queiram vir negociar, estamos dispostos a ouvi-los”. Scott Bessent, o responsável pelas Finanças da Casa Branca, reservou para a China as maiores críticas por ter retaliado sempre, a cada vez que Trump aumentou as tarifas aplicadas às importações vindas desse país.
“O Presidente Trump criou a máxima alavancagem negocial para si próprio“, argumentou o secretário do Tesouro dos EUA, que voou para Palm Beach no fim de semana passado para discutir a “guerra comercial” com o Presidente Trump. Esta decisão “demonstra que o Presidente Trump se preocupa com o comércio internacional e quer negociar de boa fé“, rematou Scott Bessent.
No mesmo momento em que suspende por 90 dias a aplicação das taxas “recíprocas” a todos os países exceto à China, a Casa Branca anuncia um aumento das tarifas aplicadas à China de 104% (valor para o qual subiram 24 horas antes) para 125%, com efeitos imediatos. O principal alvo da política comercial de Trump, que usa as tarifas como ferramenta primordial, é a China, que nos últimos dias demonstrou uma “falta de respeito pelos mercados mundiais”, afirmou o Presidente dos EUA.
“Chegará o momento, espero que num futuro próximo, em que a China vai perceber que os dias de explorar os EUA e outros países já não são sustentáveis ou aceitáveis”, acrescentou Trump, repetindo que “a China quer fazer um acordo, mas não sabe como fazê-lo“.
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O descuido de conselheiro económico, afinal, tinha fundo de verdade
A porta-voz da administração Trump, Karoline Leavitt, que 24 horas antes tinha garantido que os EUA não iriam adiar nem reverter nenhuma das tarifas, confirmou, ao lado de Scott Bessent, que as taxas “recíprocas” vão, afinal, ser suspensas. No caso da China, não só não serão suspensas como serão ainda mais agravadas porque “quando se dá um murro nos Estados Unidos da América, o Presidente Trump vai dar um murro mais forte”.
A pausa de 90 dias já vinha sendo discutida pelo círculo mais próximo de Trump nos últimos dias e, na segunda-feira, o principal conselheiro económico nacional de Trump, Kevin Hassett, ter-se-á descaído numa entrevista à Fox News. Foi noticiado, pelas 15h de Lisboa (segunda-feira), que Trump estaria a ponderar lançar uma pausa de 90 dias nas tarifas aplicadas à generalidade dos países – esse aparente descuido fez as bolsas dispararem até ao momento em que tudo foi desmentido e os mercados voltaram ao “vermelho” logo depois (e no dia seguinte).
Uma fonte citada pelo jornal Politico diz que Bessent “foi fundamental para incentivar os instintos de Trump de ir atrás da China” para encontrar uma saída para a enorme instabilidade que se gerou nos últimos dias nos mercados financeiros. “Ele convenceu-o de que ir atrás da China é uma posição popular. Façamos isso e vamos negociar uma pausa para todos os outros enquanto negociamos”, terá dito Bessent a Trump.
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