O líder socialista recuou esta tarde mais de 20 anos, ao ano em que o primeiro-ministro era Pedro Santana Lopes, depois de ter sucedido a Durão Barroso, e em que o Parlamento acabou dissolvido pelo presidente Jorge Sampaio. Numa sala de empresários, Pedro Nuno Santos tentou pôr o dedo na ferida das “trapalhadas” social-democratas e “as consequências que tem na economia”.

Num almoço no hotel Altis, com a Confederação do Comércio e Serviços, Pedro Nuno quis  aproveitar a audiência para fazer o paralelismo entre o atual Governo e esse de Santana Lopes que caiu depois de pressão elevada sobre o Presidente, vinda precisamente de empresários e da banca.

Na biografia de Jorge Sampaio, o antigo presidente surge citado sobre o episódio do final de 2004 que levou à queda do Governo; “Fartei-me do Santana como primeiro-ministro, estava a deixar o país à deriva – mas não foi uma decisão ad hominem.” Numa entrevista à rádio Renascença, em 2017, Santana revisitou o mesmo momento e explicou que “alguma banca, algum sector financeiro e alguns empresários”, precipitaram aquele momento.

Na mesma entrevista, o ex-primeiro-ministro garantia: “Não foi o povo que exigiu a dissolução! O povo não estava nas ruas, não havia protestos, não havia rutura social. Isto foi uma conspiração da ‘corte’ em Lisboa. Porque já sabiam que eu não aceitava ordens nem sou comprável.”

E é esta mesma perceção que agora o líder socialista parece querer explorar ao estabelecer a comparação com Luís Montenegro, sobretudo perante uma sala de empresários como aquela onde discursou esta tarde. O socialista não referiu o antigo líder social-democrata, disse antes que o atual Governo lhe faz lembrar um governo de “um antigo primeiro-ministro que sucedeu a Durão Barroso”. Foi Santana Lopes, na altura vice-presidente do PSD.

E isso para dizer que este “é um governo igual com mais cinco meses”, já que “envolveu a todos em trapalhadas para as quais não tínhamos de ser chamados”. Na sequência deste ataque, Pedro Nuno Santos disse mesmo aos presentes — a propósito de mais uma notícia a envolver o PSD de Montenegro — que a situação é “insustentável” e “insuportável” e “tem consequências na economia”.

O Governo de Santana Lopes tomou posse em julho de 2004 e caiu em novembro desse mesmo ano, mantendo-se em gestão até à tomada de posse do Governo seguinte, liderado por José Sócrates, no início de março de 2005.

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Críticas a um Governo que “acordou agora para a crise” das tarifas

No mesmo almoço com a Confederação do Comércio e Serviços, o líder socialista ainda jurou que não queria eleições e sublinhou que “o PS foi um elemento de estabilidade política em Portugal”, repetindo as várias viabilizações ou inviabilizações que tem referido sempre que quer dar esta garantia: do OE, do programa do Governo e os chumbos das moções de censura do Chega e PCP. E reforçou que este “é um elemento importantíssimo para a economia”, porque dá “previsibilidade.”

Na restante intervenção Pedro Nuno Santos concordou com a crítica feita na intervenção imediatamente anterior, pelo presidente João Vieira Lopes, à ausência de um Ministério ou Secretaria de Estado do Comércio e Serviços, “pela primeira vez”. Se chegar ao Governo vai criar essa pasta, prometeu naquela sala.

Também criticou o atual Governo pela resposta à atual crise comercial, com as tarifas dos EUA (suspensas por 90 dias), acusando Montenegro de “ter acordado agora para a crise” — ainda que o próprio PS só depois de ter apresentado um programa, já esta semana, tenha avançado com ideias genéricas para responder à situação. E ainda a atirar a Montenegro e ao Ministro da Economia Pedro Reis por “pensarem zero na internacionalização da economia”.

“O contexto é de incerteza gigante”, começou por dizer no almoço, revelando de seguida que “o que preocupa é que no último ano não vemos o conselho estratégico de internacionalização reunido, o último aviso para o sistema de incentivos à internacionalização é de abril. É como se o Governo tivesse acordado agora para a crise”, considerou para logo depois dizer que não se pode “acordar quando há eleições ou uma crise”.

O líder socialista defendeu uma mudança de “paradigma”, apostando na “fixação das empresas portugueses lá fora”. “Não podem só exportar a partir daqui. Ainda não temos estratégia clara de internacionalização que seja mais do que a exportação”. A “fixação de empresas” é  “determinante para dar consistência a uma estratégia de internacionalização da economia portuguesa”, defendeu.

A crítica estendeu-se à União Europeia, por “acordar para as dependências sempre que há uma crise” e a posicionar Portugal como um país que pode, no atual contexto, “acrescentar espaços geográficos à UE”, pela ligação privilegiada com os países africanos, ao Brasil e aos países africanos.

Prometeu aos empresários proximidade no contacto, considerando que “é enorme” a “probabilidade de se fazer asneiras quando se tomam decisões” e  “trabalho com os empresários ajuda a acertar mais vezes do que falhar”. Saiu ainda a prometer “empenho e capacidade de ouvir”, “sem soluções mágicas”, com o objetivo de ter “melhores salários e empresas a fazerem mais dinheiro”.