Na passada sexta-feira, dia 2 de maio, um dos nomes mais conhecidos da arte urbana portuguesa, Bordallo II, instalou um Monopólio gigante em lona, intitulado de Provoc, na Praça Duque da Terceira, no Cais do Sodré, em Lisboa para criticar a crise da habitação em Portugal. A obra tornou-se rapidamente polémica por duas razões distintas. Pouco depois de Bordallo II partilhar nas suas redes sociais o momento em que a lona gigante com o jogo de tabuleiro ocupou a praça onde o artista nasceu, com as frase “Onde o direito à habitação é como um jogo” começavam os problemas.
Numa fase inicial, a indignação veio do lado da câmara municipal de Lisboa que acusou o artista de ter danificado a calçada portuguesa da praça. A autarquia procedeu mesmo à remoção imediata do Provoc, alegando que seria uma “instalação não autorizada pela autarquia, que representa um atentado ao património da cidade.”
Depois, a controvérsia estalou nas redes sociais, onde Bordallo II está a ser duramente criticado por ter, alegadamente, plagiado uma artista lisboeta. Acusações “que nem ele nem a sua equipa entendem”, diz ao Observador fonte próxima de Bordallo II.
Mafalda, mais conhecida como Fartadaa, tinha apresentado em 2023: Lisbonopoly: O jogo da Crise da Habitação, no Prisma Estúdio Lisboa, organização sem fins lucrativos dedicado à disseminação de arte. A exposição surgiu após ter sido anunciado que Lisboa tinha cerca de 48.000 casas vazias. Assim, mediante uma adaptação satírica do jogo Monopoly, a artista criticava a especulação imobiliária. A artista portuguesa multidisciplinar entendeu a situação imobiliária em Portugal, “como um jogo da vida real, onde os que estão no poder muitas vezes não conseguem entender a gravidade do problema, deixando as pessoas comuns e pobres incapazes de jogar”, lê-se no site da Prisma Estúdio Lisboa. A alusão ao jogo de tabuleiro visava “mostrar a interconexão da crise imobiliária com questões como salários, impostos e outras circunstâncias”, explica-se ainda.
Pouco depois de as fotos de Provoc terem começado a ser partilhadas nas redes sociais, surgiram algumas publicações, nomeadamente na rede social X, que comparavam o trabalho de Bordalo II a Fartadaa — tendo em conta que ambos criticaram o tema de forma semelhante.
O artista Bordalo acabou de copiar à cara podre outra artista portuguesa pic.twitter.com/KMszddyV2Z
— masimmo (@masimmoart) May 3, 2025
O Observador contactou um elemento da produtora de Bordallo II, que disse que a equipa e o artista não compreendem a polémica, já que o Monopólio tem sido usado por vários artistas, como Banksy, por exemplo. Aliás, Bordallo II, que não quis comentar a questão, publicou nas stories do seu Instagram uma imagem do trabalho que Banksy ofereceu há 14 anos ao movimento Occupy London, em Londres: um tabuleiro do icónico jogo com a figura do Rich Uncle Pennybags, ou o Sr. Monopólio, mas agora de cartola na mão e pedinte. E acrescentou-lhe uma legenda: “A verdadeira inspiração desde 2011”.
Mafalda, que não tomou a iniciativa de falar sobre o assunto, tem partilhado na sua página de Instagram alguns testemunhos de pessoas que acusam o autor de plágio, fazendo referência a um comentário feito pelo próprio Bordallo II, que elogiava uma das publicações de Fartadaa, que mostrava, precisamente, o resultado da exposição do Monopólio. Ao Observador, Fartadaa confessou que considerou a reação de Bordallo, às acusações de plágio, “profundamente hipócrita”. “Publicamente, ele afirma que a inspiração foi o trabalho do Banksy em 2011, e nega semelhanças entre os dois trabalhos. No entanto, quando o confrontei em privado, a primeira coisa que me respondeu foi: “Foi boa inspiração ”. Isto, para mim, é profundamente hipócrita”, lamentou.
Mafalda disse ter a noção de que usar o jogo de tabuleiro para aludir à crise da habitação não é uma ideia original. E que o que a incomoda é outro aspecto: “Inspiração é uma coisa. Mas reconhecer o meu trabalho, afirmar que não o vai replicar, sair um projeto semelhante e depois negar qualquer semelhança ou influência, isso é outra, e é, no mínimo, incoerente”.
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Nas declarações, a artista acrescentou que “a questão está em ele ter reconhecido e elogiado o meu projeto na altura, inclusive comentando nua publicação minha, e em privado ter dito que não faria nada semelhante por respeito. Dois anos depois, aparece com uma peça numa escala muito maior, e quando o confrontei de forma respeitosa, apenas porque achei que merecia um aviso prévio, a atitude dele mudou completamente. Falou-me como se estivesse acima de mim, menosprezando o reconhecimento que me tinha dado anteriormente”.
Texto atualizado às 23h00 de 7 maio 2025 com as declarações da Fartadaa.
Texto editado por Dulce Neto