O Ministério Público espanhol quer condenar a uma pena de 107 anos de prisão um homem de Barcelona que desde 2020 violou uma menina de 12 anos que conheceu em aplicações de encontros, avança a Cadena SER. Além de ter abusado sexualmente da menor, o arguido “ofereceu-a” para ser violada por outros homens de “todas as classes sociais”. Jornais espanhóis comparam caso às violações de Gisèle Pelicot.

O homem tinha 40 anos quando conheceu a vítima numa aplicação de encontros, tendo prosseguido os contactos através de redes sociais como o Instagram e o Hangouts. A menor, que tinha “baixa autoestima” e viveu “situações de bullying na escola e em casa”, estava à guarda de um centro de proteção de menores porque a mãe, muito doente, não tinha condições para cuidar dela.

Aproveitando-se da vulnerabilidade da menor, o homem, “guiado por um desejo lascivo”, foi ganhando a confiança da criança com videochamadas nas quais, paulatinamente, começou a pedir fotografias e vídeos “em roupa interior, nua ou a masturbar-se”, lê-se na acusação, onde surge o número de fotografias que o alegado predador guardou: 44 imagens sexuais da vítima.

Das conversas por telemóvel, o agressor quis passar para os encontros pessoais e combinou uma ida a um centro comercial com a menor. Foi buscar a vítima de carro e levou-a para a sua casa onde, apesar da oposição da menor, acabaram a ter relações sexuais, na primeira agressão de muitas.

“O acusado aproveitava os dias e noites em que a menor fugia do centro para oferecer-lhe um refúgio físico e, aproveitando-se da circunstância, mostrava filmes pornográficos à menor para que ela se desinibisse e forçou-a a praticar sexo vaginal e anal”, descreve o procurador.

Com a menor a passar cada vez mais tempo em casa do arguido, este “aproveitou para convencê-la a permitir que ele a fotografasse e gravasse de roupa íntima ou nua”, às vezes até a praticar atos sexuais violentos. Estas imagens seriam depois partilhadas na Internet com outros pedófilos.

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Agressor criou conta falsa nas redes sociais onde partilhava fotos íntimas da menor. A partir daí, combinava encontros com interessados

Poucas semanas depois da primeira agressão, o acusado criou contas falsas — no Instagram e numa aplicação de encontros — onde se fazia passar pela menor, com as fotografias que lhe tinha tirado. “Com a intenção de fingir a identidade da menor, exibia fotografias em roupa interior e oferecia, indiscriminadamente, a vários seguidores a possibilidade de terem relações sexuais, em grupo, com ela”, lê-se na acusação.

De seguida, o acusado combinava com os encontros homens interessados através de uma conta com o seu nome verdadeiro e organizava as violações — as autoridades conseguiram identificar pelo menos seis de sete adultos envolvidos.

“Encontros onde [os sete homens] violavam a menor quando tinha 13 e 14 anos de uma forma violenta e degradante que este meio não reproduzirá”, escreve a Cadena SER, que teve acesso à acusação. As agressões eram todas organizadas pelo réu, que gravou pelo menos 20 vídeos da menor nua a ser violada por ele ou por outros envolvidos.

Além destes alegados pedófilos, outros 20 estão a ser investigados num caso separado que examinou dezenas de agressões a pelo menos 12 menores, descobertas em 250 vídeos encontrados na casa do organizador.

Denúncia de homem arrependido levou polícia a intervir

Os Mossos d’Esquadra (polícia da Catalunha) tiveram conhecimento do caso depois de ter sido apresentada queixa por outro homem. O arguido entrou em contacto com o denunciante numa aplicação de encontros, a propor um encontro sexual a três, mas este, que inicialmente tinha concordado, voltou atrás quando percebeu que a “mulher” envolvida era menor de idade.

O homem acusado ainda tentou convencê-lo enviando imagens de pornografia infantil, com adultos a violar bebés. Com essas imagens, o denunciante foi até à esquadra fazer queixa.

Em junho de 2022, os investigadores entraram no apartamento do homem, um eletricista, e prenderam-no. Nas diligências encontraram uma quantidade avultada de provas: 232 fotos da vítima a ser apalpada e penetrada pelo arguido e outros homens; 576 vídeos; 889 fotos de pornografia infantil; 60 vídeos de sexo da menor e mais de dez mil ficheiros de crianças em atos sexuais “criados por terceiros e descarregados em plataformas de mensagens”.

A menor, hoje com 17 anos, aparenta ser menor de idade, uma vez que as agressões sexuais “afetaram o seu desenvolvimento psicológico”.

Os visados estão acusados de vários crimes de pedofilia que vão desde abuso sexual até ao recrutamento de menores para pornografia infantil. Para o réu principal, os procuradores pedem 107 anos de prisão, 60 anos de restrição de contacto com a vítima, 115 anos de proibição de trabalhar com menores e 10 anos de liberdade supervisionada. No entanto, a lei de Espanha permite que se cumpra apenas parte da pena máxima (36 anos, se fosse condenado a 107).

Este caso será o primeiro a ir a julgamento, mas o juiz de instrução tem outros dois processos abertos de outros agressores identificados nas imagens gravadas. Tal como no caso de Gisele Pelicot, os “agressores são pessoas de todas as classes sociais, entre os 19 e os 50 anos”.

Os Mossos d’Esquadra identificaram 11 vítimas — duas menores e dois menores — e tentam localizar outras 14.