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"Não vi nada, não me apercebi de nada. Nem ela": o dia em que a filha de Gisèle Pelicot descobriu o que o pai tinha feito

"E Deixei De Te Chamar Papá" é o relato de Caroline Darian sobre o caso que chocou o mundo. O Observador faz a pré-publicação com um excerto sobre o momento da revelação.

Dominique Pelicot foi condenado a 20 anos de prisão, depois de provados os crimes sexuais por ele cometidos: ele que drogou a mulher, Gisèle, e levou dezenas de homens a violá-la enquanto esta estava inconsciente. Destes, 50 foram julgados e condenados.

Foi este o desfecho do caso que ocupou os media de todo o mundo e revelou a monstruosidade de um homem que durante anos foi mantida em segredo. Agora, “E Deixei De te Chamar Papá” é o livro que revela como entre dezembro de 2020 e dezembro de 2024 um família luta contra as memórias e pela sobrevivência. Tudo através de um livro de memórias assinado pela filha do casal (publicado em Portugal pela Guerra & Paz).

Neste excerto que o Observador revela, Caroline Darian conta como os crimes do pai foram descobertos pela polícia, como a mãe conheceu a verdade e como a própria enfrentou os factos. O livro é publicado a 11 de fevereiro.

▲ A capa de "E Deixei De Te Chamar Papá", a versão portuguesa do livro de Caroline Darian (Guerra & Paz)

Amanhã, o meu filho Tom, de seis anos e meio, tem de usar uma máscara na escola. Por isso, repetimos o gesto. Uma, duas, dez vezes. Publiquei uma fotografia dele mascarado na minha conta de Facebook. O meu pai respondeu-me imediatamente: «Meu pobre Tomezinho. Boa sorte para este início de ano lectivo tão especial. O teu avozinho que te ama.»

Ainda não o sei, mas esta será a última troca de palavras que terei com o meu pai.

Nesta altura, como é que é a minha vida? Tenho 42 anos, um trabalho que adoro, um marido, um filho e uma casa. Por outras palavras: uma vida simples, não abalada por terramotos. Uma vida privilegiada. Ainda tenho a inocência dos dias que passam sem problemas. O amanhã é uma promessa, nunca uma ameaça. A minha vida gira em torno do meu marido, do meu filho, do meu trabalho, das minhas actividades, dos meus pais, dos meus irmãos e dos meus amigos. É tudo absolutamente banal.

Porém, ninguém valoriza o quotidiano banal até o perder.

Segunda-feira, 2 de Novembro de 2020

Deixo o Tom à porta da escola, mesmo a horas. Dou-lhe um beijo ternurento. Vou para casa, preparo um café e ligo o computador. Na agenda: reunião, reunião, reunião. Videoconferências intermináveis.

11h00. O meu marido chega a casa. O Paul está a trabalhar por turnos. Envia uma mensagem ao meu pai: «Acabei de saber o percurso da Volta a França de 2021. Vamos estabelecer um bom objectivo em família: no dia 7 de Julho, pode levar o seu neto a percorrer as estradas do monte Ventoux, está bem?» Faz um almoço rápido e depois dorme uma sesta.

Quando acorda, vê que tem duas chamadas não atendidas de números de telefone fixos de Vaucluse.

Este é o ponto de viragem. Uma mensagem de voicemail, como quando um hospital avisa a família. Muitas vezes, este ponto de viragem tem uma voz, um rosto. O anúncio de uma desgraça é sempre encarnado em algo. Para o resto das nossas vidas, lembrar-nos-emos da voz ou do rosto da pessoa que transmitiu a dor.

Lembrar-nos-emos também, em pormenor, do que estávamos a fazer imediatamente antes.

O meu ponto de viragem surgiu como uma onda. Foi o meu marido o primeiro a saber da notícia. O Paul ouve a primeira mensagem deixada pela minha mãe:

«Sou eu, é urgente. Diz respeito ao Dominique. Por favor, liga-me.»

O Dominique, o meu pai, pesa mais de 100 quilos e tem problemas respiratórios. Assim, naturalmente, em plena crise de covid, o Paul já o imagina nos cuidados intensivos. No entanto, a outra mensagem veio de um tenente da polícia do departamento de Carpentras. Primeiro, o Paul telefona à minha mãe:

– Mas o que é que se passa?
– O Dominique vai ser preso. Foi apanhado a filmar por baixo das saias de três mulheres num supermercado. Esteve sob custódia policial durante 48 horas e já foi libertado. Entretanto, a polícia revistou o seu telemóvel, vários cartões SIM, a sua câmara de vídeo e o seu computador portátil. Os factos são muito mais graves.

Lembro-me de ti ao volante do Renault 25 preto, sobrecarregado, quando íamos de férias. Dizias piadas, punhas Barry White a tocar e marcavas o ritmo com a cabeça, tão entusiasmado como nós, os miúdos no banco de trás. Essa imagem feliz acabou de ser destruída. A partir de agora, és o organizador de orgias e um terrível mentiroso.

A minha mãe decidiu telefonar ao Paul primeiro porque ainda não tem forças para contar isto a um dos seus três filhos. Também sabe que pode confiar nele. O Paul é suficientemente forte para ouvir este tipo de notícias.

Chegaram a um acordo. A minha mãe irá telefonar primeiro para mim, na sua presença.

Um pouco atordoado, o Paul retorna a chamada do tenente da polícia. O golpe final.

«Encontrámos vídeos que mostram a sua sogra a dormir, obviamente drogada e a ser abusada por vários homens.»

Estas palavras não fazem sentido. Abrem uma fenda assustadora. O Paul é impelido para outra dimensão, a das notícias impensáveis, em destaque na imprensa, e que até agora traçaram uma fronteira entre o que era sórdido e as nossas vidas, que pertenciam ao mundo de antigamente.

Imperturbável, o tenente vai dando as informações, e cada uma delas abre mais o buraco para o impossível, que se instala nas nossas vidas.

Estas agressões sexuais ocorrem desde, pelo menos, Setembro de 2013, data das primeiras imagens que os investigadores extraíram dos vários dispositivos electrónicos do meu pai. O número de agressores é impressionante: «Setenta e três, para já. Até agora, identificámos cerca de 50. Têm idades compreendidas entre os 22 e os 71 anos e são oriundos de todos os sectores sociais: estudantes, reformados e até um jornalista. O seu sogro organizou, fotografou e filmou todos os actos. Eu próprio tive muita dificuldade em ver todos os vídeos. E ainda estamos longe de terminar a investigação.»

A equipa da polícia esteve a trabalhar no caso, noite e dia, durante mês e meio. Os investigadores temiam pela vida da minha mãe. Tanta droga, numa mulher prestes a fazer 68 anos… O tenente conclui: «Cuide bem dela. Vai precisar de apoio.»

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AFP via Getty Images

O Paul só queria uma coisa. Sair. Deixar esta casa. Sabe que ainda tenho algumas horas de descanso antes de ser catapultada para o outro mundo. Fixada no ecrã do meu computador, nem sequer o vejo passar por mim e sair de casa.

No carro, o Paul telefona à sua irmã Véronique, a madrinha do Tom. Pediu-lhe ajuda nessa noite. Concebem um estratagema para não levantar suspeitas.

Quando me apercebo de que o meu filho e o meu marido já voltaram da escola, o meu dia de maratona termina e são quase 19h00. Sugiro jantarmos comida japonesa. E, quando estou quase a sair de casa, toca a campainha. É a Véronique! Alegre, sorridente e calorosa como sempre.

«Estava aqui perto e resolvi passar por cá.»

O Tom salta-lhe para os braços. Dirijo-me para o restaurante japonês. No carro, telefono à minha mãe, que, estranhamente, me despacha. Tenho um mau pressentimento.

Regresso do restaurante. Ponho os sacos na mesa da sala de jantar. Ouço o meu filho a rir-se com a madrinha. Estes pequenos sons da vida quotidiana ainda não são só resquícios de felicidade.

Na cozinha, o Paul olha para mim com uma expressão séria no rosto. Pede-me para me sentar.

O meu telemóvel toca. Finalmente, a minha mãe devolve-me as chamadas! Marcam precisamente as 20h25 no relógio do forno da nossa cozinha, que consigo ver mesmo atrás do Paul.

Mais tarde, ficarei a saber que as pessoas que sofreram um choque traumático muitas vezes retêm apenas um pormenor, um cheiro, um som, uma sensação, algo minúsculo que se torna enorme.

Eu, naquele instante, vejo o relógio do forno. Indica «20:25» em números brancos. Uma fronteira numérica. O meu nome é Caroline Darian e estou a viver os últimos segundos de uma vida normal.

"O teu pai também convidou homens para vir cá a casa enquanto eu estava inconsciente, para virem ao nosso quarto. Vi várias fotografias minhas. A dormir, deitada de barriga para baixo, na minha cama, sempre com homens diferentes, que não conheço."

Ainda consigo ouvir a voz trémula da minha mãe. Pergunta-me se já cheguei a casa e se estou com o Paul. Insiste na pergunta. Certifica-se de que estou sentada em silêncio para ouvir o que tem para me dizer.

– Caro, o teu pai está sob custódia policial desde esta manhã e não vai poder voltar a sair. Vai ficar preso.

Estou a tremer, não percebo bem o que ela me está a dizer.

– O teu pai drogou-me com comprimidos para dormir e ansiolíticos.

– Mas, mãe, o que é que se passa?

– Há mais. O teu pai também convidou homens para vir cá a casa enquanto eu estava inconsciente, para virem ao nosso quarto. Vi várias fotografias minhas. A dormir, deitada de barriga para baixo, na minha cama, sempre com homens diferentes, que não conheço.

Perco o controlo. Grito, insulto o meu pai. Vou partir tudo.

– Caro, é a verdade. Tive de ver várias fotografias na esquadra. Pensei que o meu coração ia parar. O tenente disse-me claramente que também há muitos vídeos em que eu sou abusada. Queria que eu visse um, mas disse-lhe que só as fotografias já eram insuportáveis. Disse-me: «Lamento, minha senhora, mas aquilo que o seu marido fez foi monstruoso.»

A minha mãe começa a chorar. O Paul abraça-me.

As imagens atingem-nos, abjectas, sem sentido: a minha mãe na sua cama, de olhos fechados, inerte, com um homem aleatório…

Lembro-me de ti ao volante do Renault 25 preto, sobrecarregado, quando íamos de férias. Dizias piadas, punhas Barry White a tocar e marcavas o ritmo com a cabeça, tão entusiasmado como nós, os miúdos no banco de trás. Essa imagem feliz acabou de ser destruída. A partir de agora, és o organizador de orgias e um terrível mentiroso: a minha mãe conta-me o vosso último pequeno-almoço, que foi absolutamente normal. Quanta falsidade é precisa para se representar a comédia da tranquilidade durante todos estes anos…?

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AFP via Getty Images

A mãe desliga, agora tem de ligar ao David, o meu irmão mais velho, e depois ao Florian, o nosso irmão mais novo.

Colapso. Encolhida contra o peito do meu marido, sinto-me esmagada. Tenho dificuldade em respirar.

O meu pai drogou a minha mãe antes de a mandar violar por desconhecidos. Esta frase é uma loucura. É tão violenta que só me consigo aperceber dos seus efeitos, como raspar numa pedra afiada, cujos fragmentos me arranham a consciência, sem me aperceber da dimensão da sua destruição. E se uma overdose tivesse matado a minha mãe? E se ela não tivesse acordado? O horror dura desde que se mudaram para Vaucluse, há quase oito anos, quando a minha mãe se reformou.

Não vi nada, não me apercebi de nada. Nem ela.

Nem um vestígio, nem a mais pequena reminiscência.

Tudo foi apagado pelo consumo frequente de doses meticulosas de medicamentos que o meu pai lhe administrava. Recordo as nossas conversas telefónicas, em que a minha mãe parecia estar confusa e a divagar. Essas ausências preocupavam-nos. Nós, os seus três filhos, vivemos a mais de 700 quilómetros de distância. Chegámos a pensar que fosse Alzheimer. O meu pai minimizava a situação. Dizia: «A tua mãe não se sabe poupar, está sempre a fazer alguma coisa, é hiperactiva, é a sua forma de gerir o stress.»

Em 2017, pedimos à minha mãe que marcasse uma consulta com um neurologista, que ela foi ver em Carpentras. O primeiro especialista falou-lhe de um episódio amnésico semelhante a uma espécie de buraco negro, uma perda de memória sem sequelas. Não sabíamos, apesar de os especialistas em neurologia saberem isto bem, que não é possível ter vários episódios isquémicos deste tipo.

No Outono de 2018, o meu tio, médico de família reformado, sugeriu que podia ser um mecanismo de descompensação: «É como quando o saco do aspirador está cheio e a máquina pára para não arder; é assim que se desliga e recarrega as baterias», disse-lhe ele. Todos acreditámos. A minha mãe fez na mesma uma TAC, mas, claro, sem qualquer resultado. Como é que podíamos ter pensado numa análise toxicológica?

Preciso de sair e telefonar aos meus irmãos. Quando o David atende, a sua voz diz-me que ainda não sabe de nada. Antecipei-me à minha mãe. Culpo-me a mim própria. Decido ir directa ao assunto. O David fica em silêncio. Demora uns bons dez segundos a perceber o que estou a contar-lhe e a conseguir dizer algo audível: «Mas… isso não é possível. Caro, estás a brincar?»

Porém, à medida que o tempo passava e estas ausências se tornavam cada vez mais frequentes, a minha mãe estava sempre preocupada. Sofria de insónias recorrentes, perdeu o cabelo e emagreceu – mais de dez quilos em menos de oito anos. Temia ter um AVC a qualquer momento e ficava ansiosa quando tomava conta dos netos ou apanhava o comboio para me vir visitar à região de Paris.

Por isso, a minha mãe deixou gradualmente de conduzir. Foi perdendo a sua independência.

Em 2019, a minha mãe marcou uma consulta com outro neurologista em Cavaillon, que atribuiu o problema à ansiedade. Receitou-lhe melatonina para melhorar a qualidade do seu sono…

Tenho de ir ter com ela. Não a posso deixar ali, sozinha em Vaucluse, naquela casa que foi palco de tantas atrocidades.

O Paul organiza tudo.

Preciso de sair e telefonar aos meus irmãos. Quando o David atende, a sua voz diz-me que ainda não sabe de nada. Antecipei-me à minha mãe. Culpo-me a mim própria. Decido ir directa ao assunto. O David fica em silêncio. Demora uns bons dez segundos a perceber o que estou a contar-lhe e a conseguir dizer algo audível: «Mas… isso não é possível. Caro, estás a brincar?»

Faz-me perguntas, mas eu não tenho todas as respostas. Gostava de o acalmar um pouco. Sinto que fica tenso. Desliga e telefona imediatamente à nossa mãe.

Quando finalmente consigo falar com o Florian, o meu irmão mais novo, ele já tinha falado com a nossa mãe. Está atónito: «Como é que ele pôde fazer uma coisa destas à mãe? E a nós?

Será que pensou em nós?» Choro como uma criança.

O Florian diz-me que sente remorsos e ódio quando pensa no Verão de 2018. Fala-me do último jantar em casa dos nossos pais, na noite em que partiu, depois de ter lá passado vários dias com as suas duas filhas. Ele e a mulher tinham assistido a uma cena perturbadora. Poucos minutos depois de se terem sentado para jantar, a mãe colapsou. O seu cotovelo cedeu. Cambaleou para trás na cadeira, como se estivesse bêbeda. De repente, o seu corpo ficou sem energia, como uma boneca de trapos.

«Ainda não consigo encontrar as palavras para descrever quão descoordenados estavam todos os seus membros, Caro. Estávamos a falar com ela, mas era como se estivesse sob hipnose. Imóvel e mole, com um olhar vazio. Sem resposta.»

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AFP via Getty Images

O meu pai decidiu pô-la na cama. «É preferível. Acontece de vez em quando, quando descompensa por excesso de actividade.» Na verdade, o cocktail de medicamentos que ele lhe tinha misturado no aperitivo, um copo de rosé, começava a fazer efeito.

Nessa noite, o meu pai atribuiu a culpa do mal-estar ao Florian e à sua família, que acabaram por se ir embora.

Desligo a chamada. Preciso de dar duas voltas ao quarteirão.

Nesta noite, estão menos de cinco graus, mas eu ardo de raiva. O Paul segue-me.

Decide convencer os meus irmãos a ir a Vaucluse comigo na manhã seguinte, no primeiro comboio. Consola-os o melhor que pode com as suas palavras: «A vida é muito mais forte, vocês os três têm de estar com a vossa mãe o mais depressa possível.»

Ele insiste: «Têm de se unir em torno dela. Não podem passar por isto sozinhos.» E avisa: «Vão ter de ser corajosos e manter-se unidos, porque isto ainda agora está a começar e não sabemos tudo.»

Falo com os meus chefes e peço uns dias de folga. Está na altura de nos irmos deitar. Preciso que fiquemos os três juntos. Acabo por adormecer com a mão do meu filho entrelaçada na minha.

Terça-feira, 3 de Novembro de 2020

Ao acordar, dói-me tudo, sinto uma dor no meio das costas. E cãibras, muitas cãibras, como se tivesse estado num ringue toda a noite. Consigo fazer a minha mala com o essencial. Não sei exactamente quantos dias vou estar fora.

Quando deixo o Tom na escola, digo-lhe pela terceira vez que tenho de ir a casa da avozinha, no Sul, para a trazer para casa. Do lado de fora do portão, abraço-o e inspiro o seu odor. Delicio-me com o seu pescoço fino, as suas pequenas orelhas, o seu cabelo ondulado, o seu nariz e depois as suas bochechas, sempre quentes contra as minhas. Preciso de levar um pouco dele comigo. Como uma pepita, um amuleto da sorte que se esconde secretamente.

A polícia tem de agir rapidamente para concluir o caso contra o meu pai até 48 horas após a sua última detenção, antes de o remeter para a secção criminal do Tribunal Judicial de Avignon. Ainda têm de voltar a casa dos meus pais para recolher as provas que confirmam que a minha mãe foi subjugada quimicamente.

O Tom olha para mim. Depois, agarra a minha cara com as duas mãos, olha-me nos olhos e diz: «Mãe, sabes o quanto eu te amo? Não te esqueças de dizer à avozinha que eu também a amo.»

Esta frase e a forma como acariciou as minhas bochechas estão gravadas na minha memória. Ironicamente, nem sequer mencionou o avô.

A caminho da estação de TGV, decido contactar o tenente da polícia. Apresento-me e ele não parece surpreendido.

Explico-lhe que eu e os meus irmãos queremos falar com ele assim que chegarmos à estação de Avignon. Não tem muito tempo para nós, por causa do prazo legal do processo contra o nosso pai.

A polícia tem de agir rapidamente para concluir o caso contra o meu pai até 48 horas após a sua última detenção, antes de o remeter para a secção criminal do Tribunal Judicial de Avignon. Ainda têm de voltar a casa dos meus pais para recolher as provas que confirmam que a minha mãe foi subjugada quimicamente.

Quando desligo, fecho os olhos.

Resumindo, a minha mãe foi drogada pelo meu pai para ser violada por estranhos. Durante pelo menos oito anos. É isso, a frase faz todo o sentido. Por muito que tente manter uma cara normal, estou de rastos.

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