Numa carta enviada aos militantes do PSOE e divulgada online, o primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez, lamentou os casos de corrupção em torno do partido, mas denunciou também o que considerou uma “deriva de ódio” dos adversários do PP e do Vox. “Sei que muitos de vós vivem estes dias com dor, indignação e uma mistura de perplexidade e tristeza. Partilhamos esse sentimento”, começou por escrever o líder do Governo espanhol, sublinhando que “nenhum partido está a salvo da infâmia da corrupção”.
Contudo, Pedro Sánchez enfatizou a diferença do PSOE na reação contra a corrupção, por contraponto a outras forças políticas. “O que faz a diferença é a forma como reagimos a ela. E fá-lo-emos sempre em coerência com os nossos valores, os de uma organização democrática e decente e empenhada no interesse geral. Expulsamos aqueles que nos falham; outros protegem-nos. Nós tomamos decisões rápidas e exemplares; outros escrevem mensagens de apoio. Denunciamos as práticas corruptas; outros encobrem-nas e protegem-nas”, frisou.
Em causa está um relatório da Guardia Civil apresentado na semana passada que levantou suspeitas sobre José Luis Ábalos, antigo ministro das Obras Públicas de Sánchez que já era suspeito de corrupção, e Santos Cerdán, deputado e secretário do PSOE, que acabou por apresentar a sua demissão deste último cargo na semana passada. Ambos seriam peças centrais num esquema em que são suspeitos de cobrar comissões elevadas em troca de adjudicações para obras públicas, como a construção de estradas ou de vias férreas.
Reiterando que o poder executivo assente no seu Governo “não interfere em investigações que são da responsabilidade do poder judicial, como foi o caso durante grande parte da última década”, Pedro Sánchez voltou a lançar o desafio aos partidos da oposição para avançarem com o instrumento político ao seu dispor, a moção de censura, para logo anunciar que tal não irá acontecer por falta de projeto político. O primeiro-ministro descreveu ainda o uso do conteúdo daquele relatório como “uma tentativa deliberada da direita para derrubar um governo legítimo”.
“Espanha tem pessoas corruptas, é verdade. Mas também tem instituições que funcionam, uma cidadania exigente e um governo reativo. E, claro, tem um Partido Socialista Operário Espanhol limpo”, continuou, assegurando “melhores meios” e “ferramentas adequadas” para o combate à corrupção. Simultaneamente, carregou nas críticas ao PP e ao Vox.
“Se a direita está ausente deste debate, como o não deixará de fazer, é porque a sua prioridade é outra: derrubar o governo a qualquer preço”, referiu, acrescentando: “Não estão unidos pelo que querem construir, mas pelo que pretendem destruir. E porque a única coisa que são capazes de oferecer é o apoio de uma força de extrema-direita incompatível com o progresso, os direitos e as liberdades que custaram tanto a construir em Espanha. Lamentavelmente, o Partido Popular e o Vox estão a caminhar para o ódio e para a legitimação da violência”.
Apesar de reconhecer que a “desilusão é enorme” pelos casos judiciais em torno do PSOE, Pedro Sánchez deixou claro que não se irá demitir ou avançar para eleições antecipadas, ao considerar estar perante “uma operação de demolição moral” em relação à sua força política e que essa ação representa um perigo para a democracia espanhola.
Reunião com independentistas catalães adiada para quarta-feira
A imprensa espanhola avançou esta terça-feira que o encontro previsto para esta terça-feira entre Pedro Sánchez e Gabriel Rufián, porta-voz do Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) — uma das forças políticas que concede apoio parlamentar ao Governo liderado pelo PSOE — foi adiado para quarta-feira.
Na agenda da reunião estaria a discussão sobre como a pressão dos casos de justiça sobre o PSOE pode pesar na relação com o ERC, tendo o pedido de adiamento sido apresentado pelos republicanos catalães. A reunião deverá agora realizar-se apenas depois da sessão no plenário no congresso espanhol.
Entretanto, o Partido Nacionalista Basco, liderado por Aitor Esteban, deixou um aviso à liderança de Pedro Sánchez por causa dos casos de corrupção. “Algures há uma linha. Nem tudo serve para que a direita não governe”, afirmou o presidente da força política basca, que também assinou um acordo de apoio parlamentar em 2023 a permitir a investidura de Pedro Sánchez.
Esteban considerou, em declarações à Radio Popular de Bilbao, o caso Koldo “muito grave” e admitiu que as informações já conhecidas podem “ser apenas o início do fio do novelo”, sublinhando também ser “muito difícil” que o Governo consiga concluir a atual legislatura, que apenas termina em 2027.