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Fascinado por aviões e pela primeira vez em Ahmedabad. Como um adolescente gravou o principal vídeo da queda do Boeing 787 da Air India

Este artigo tem mais de 1 ano

Com 17 anos, foi a primeira vez que Aryan saiu da aldeia onde vive, para visitar o pai que trabalha em Ahmedabad. Quando mostrava a vista da casa aos amigos, captou a queda de avião da Air India.

O fascínio de Aryan Asar por aviões dura há algum tempo, mesmo que não os consiga ver na aldeia onde vive. E foi a partir do terraço da casa do pai, junto do aeroporto de Ahmedabad, onde que tinha acabado de chegar, pela primeira vez, que o jovem de 17 anos acabou por captar, por mero acaso, o momento em que uma aeronave descolava. O gesto foi automático, pelo seu interesse na aeronáutica. Por mero acaso, acabou por registar a queda do avião da Air Índia, que levava 244 pessoas a bordo (só uma sobreviveu).

Agora, segundo o seu pai, em declarações à BBC, Aryan passou a ter medo de usar o telemóvel. Ser o autor do vídeo que mostrou em primeira mão ao mundo o desastre aéreo da semana passada na Índia acabou por ter um “impacto devastador” na sua vida. Para lá de ter ficado traumatizado por ter assistido à queda do avião em direto.

“Sei que ele ficará bem com o tempo. Mas não acho que meu filho tentará procurar aviões no céu novamente“, admitiu o pai em declarações ao jornal britânico.

Foi também ele a explicar como não era assim tão provável que fosse o seu filho a captar aquele momento, já que não vivia sequer na cidade. Apenas o patriarca da família vive no centro de Ahmedabad, por questões profissionais. O resto da família, a sua esposa e os dois filhos — Aryan e a sua irmã mais velha — vivem numa pequena aldeia perto da fronteira entre os estados de Gujarat e Rajasthan, a várias centenas de quilómetros da cidade.

Aryan estavam em Ahmedabad porque a irmã ia submeter-se a provas de admissão para entrar na polícia. “Esta foi a primeira vez de Aryan na cidade. Na verdade, foi a primeira vez na vida que ele saiu da aldeia”, revelou o seu pai à BBC, recordando que o filho, sempre que lhe ligava, perguntava se ele conseguia ver os aviões a partir do terraço do apartamento onde vivia.

Foi para acompanhar a irmã, mas também atraído pela ideia de conhecer a cidade e de conseguir ver os aviões que sobrevoavam a casa do pai, que Aryan acabou por finalmente conseguir fazer a viagem por que ansiava.

Os dois irmãos chegaram a casa do pai uma hora e meia antes do acidente, por volta do meio-dia de quinta-feira da semana passada. Ainda almoçaram os três juntos, mas o pai teve de sair para ir trabalhar. Os dois irmãos ficaram então sozinhos em casa e o rapaz de 17 anos aproveitou para gravar vídeos da casa do pai para mostrar aos amigos que tinham ficado na aldeia.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 5.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]

Como é que o vídeo gravado por um adolescente se espalhou pelo mundo?

Aryan ficou logo fã do terraço do pai e foi de lá que captou os primeiros planos de imagem para enviar aos amigos que ficaram na aldeia. Assim que avistou o avião da Air India, apontou a câmara do telemóvel na sua direção.

Em declarações à BBC, o adolescente diz ter percebido quase de imediato que algo não estava bem. “[O avião] estava a tremer, a mover-se para a esquerda a e para a direita”, recordou. Captou mesmo os momentos em que o avião começou a perder altitude de forma acentuada, caindo em espiral.

Foi só quando viu o fumo e o fogo da explosão provocada pela queda do Boeing 787-8 da Air India que finalmente percebeu que tinha acabado de presenciar e registar um desastre de aviação.

O pai foi a primeira pessoa a quem enviou o vídeo. Também lhe ligou para contar o que tinha acontecido, como recorda o próprio. “Ele parecia tão assustado e perguntou-me repetidamente o que lhe podia acontecer”, lembrou. O pai de Aryan apelou a que não partilhasse mais o vídeo, mas no meio do choque o adolescente acabou por enviá-lo a alguns amigos.

▲ Aryan apontou câmara do telemóvel em direção a avião que explodiu segundos depois

Passaram-se minutos até que uma cadeia de partilhas tivesse início e o mesmo chegasse a todo o mundo. “Quando demos conta, o vídeo estava em todo o lado”, recorda o pai do adolescente.

Além dos jornalistas que ansiavam por uma entrevista de Aryan e dos vizinhos curiosos, a família Asar também recebeu a visita da polícia no apartamento em Ahmedabad. O rapaz de 17 anos teve mesmo de se deslocar até uma esquadra para depor enquanto testemunha do acidente aéreo.

Depois de prestar declarações por algumas horas e de ceder o vídeo que agora é uma prova a crucial para os investigadores que tentam descobrir a causa do acidente, o pai de Aryan decidiu afastá-lo do mediatismo que a gravação do vídeo provocou.

O jovem regressou à aldeia, mas segundo os pais não voltou a ser o mesmo desde a visita à cidade. “Sempre que o telefone toca, ele fica com medo”, contou o pai, garantindo que a vida do adolescente mudou para sempre depois de gravar o vídeo com o telemóvel.

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