Morreu esta sexta-feira, aos 85 anos, José Luís Martinho da Mouta Liz, um dos fundadores das Forças Populares 25 de Abril (FP-25) e antigo quadro do Banco de Portugal que estava internado no hospital da CUF Tejo. A informação foi avançada por Manuel Castelo-Branco, filho de uma das vítimas da organização terrorista.
Apesar de ter negado sempre o seu envolvimento com as FP-25, o sindicalista chegou a ser condenado a 13 anos de prisão por organização terrorista e foi várias vezes mencionado em apontamentos nos cadernos apreendidos a Otelo Saraiva de Carvalho com referência às intervenções em reuniões do grupo terrorista e onde era apontado como sendo um dos cérebros. Foi amnistiado em 1991.
Surgia nesses documentos como M. L. ou com o pseudónimo “Faustino”, como descreveu o Observador na série multimédia “Os Anos de Chumbo das FP-25”. Antes de apoiar Otelo Saraiva de Carvalho nas presidenciais de 1976, passou pelo Movimento de Esquerda Socialista (MES) e pelo Movimento Socialista Unificado (MSU). Ainda esteve na Força de Unidade Popular (FUP) e na Organização Unitária de Trabalhadores (OUT).
Foi no Banco de Portugal que o formado em economia assumiu um papel de destaque nas FP-25, ao revelar as informações que possibilitaram o assalto dos 108 mil contos, segundo detalhou João Macedo Correia no julgamento de Monsanto. Em resposta ao arguido que se mostrou arrependido pelos atos da FP-25, Mouta Liz chamou-lhe “aldrabão”.
“Se eu quisesse resolver, por meios desonestos, os problemas financeiros da organização, bastava uma assinatura minha para levantar o dinheiro da caixa-forte do Banco de Portugal”, disse o tesoureiro da Direção Político-Militar do Projeto Global que em 1975 o Ministério das Finanças nomeou responsável pelos saneamentos no banco central português.
José da Mouta Liz foi o último dirigente da FUP detido no âmbito da Operação Orion, levada a cabo pela Polícia Judiciária, que em poucos meses passou cerca de 70 mandados de detenção. Durante uma fuga de vários dias, o “homem mais procurado pela PJ” chegou a dar uma entrevista em que dizia “quando acabar as férias volto ao banco”.
A primeira vítima fatal das FP-25 foi Henrique Hipólito, militar da GNR, morto a 5 de maio de 1980, por uma rajada de metralhadora, enquanto tentava impedir um assalto a um banco no Cacém. Sete anos depois, Álvaro Militão, inspetor da Polícia Judiciária, foi o último a morrer às mãos do grupo de extrema-esquerda. Nesse dia, o agente da Direção Central de Combate ao Banditismo, pediu à mulher, grávida do segundo filho, para acender “uma velinha” por si.
FP-25 de Abril. As bombas, as balas e os “inimigos a abater”
Nos últimos anos da sua vida, Mouta Liz viveu entre Portugal e Angola — onde um dos seus filhos, Luís de Assunção Pedro da Mouta Liz, é Procurador-Geral Adjunto da República angolana.
Na província de Uíge, onde chegou a estar mobilizado três anos, abriu em 1991 uma empresa que presta serviços de importação e exportação com Otelo Saraiva de Carvalho e Romeu Francês, advogado dos dois no processo das FP-25.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 5.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]