Cinco anos depois de ter sido detido pelas autoridades quando procurava candidatar-se às eleições presidenciais na Bielorrússia, Siarhei Tsikhanouski foi libertado este sábado. Segundo o jornal Guardian, a libertação do opositor do Presidente Alexander Lukashenko — cuja eleição de 2020 viria a ser considerada fraudulenta por grande parte da comunidade internacional — foi alcançada após uma visita do enviado especial dos Estados Unidos da América, Keith Kellog.
“O meu marido Siarhei está livre! É difícil descrever a alegria no meu coração”, escreveu nas redes sociais Sviatlana Tsikhanouskaya, a mulher do ex-recluso e que assumiu a liderança da oposição ao Presidente bielorrusso após o encarceramento do marido, partilhando um vídeo do reencontro.
My husband Siarhei is free! It’s hard to describe the joy in my heart.
Thank you, ???????? @POTUS, @SPE_Kellogg, @JohnPCoale, DAS Christopher W. Smith, @StateDept & our ???????? allies, for all your efforts.
We’re not done. 1150 political prisoners remain behind bars. All must be released. pic.twitter.com/MhngqBHFq3
— Sviatlana Tsikhanouskaya (@Tsihanouskaya) June 21, 2025
Sviatlana Tsikhanouskaya agradeceu a Kellogg e ao Presidente norte-americano, Donald Trump, mas lembrou também que “1150 presos políticos continuam atrás das grades” e que todos eles “devem ser libertados” das celas bielorrussas.
Siarhei Tsikhanouski recebeu um indulto na sequência do encontro de Kellogg com Alexander Lukashenko, sendo que esses contactos resultaram igualmente na libertação de outros 13 presos políticos este sábado, de acordo com o jornal bielorrusso Nasha Niva.
A Reuters revelou que entre os 14 presos que foram libertados estavam cinco cidadãos bielorrussos, três de nacionalidade polaca, dois letões, dois japoneses, um estónio e um sueco. Os ex-reclusos estão agora em liberdade na Lituânia, adiantou um porta-voz do executivo lituano.
Outrora blogger, Siarhei Tsikhanouski tornou-se um dos rostos mais importantes da oposição a Lukashenko na antecâmara das eleições presidenciais de 2020, ganhando centenas de milhares de seguidores. No verão desse ano, mais de 200 mil cidadãos protestaram nas ruas, num movimento sem precedentes na Bielorrússia.
Pouco depois de anunciar a sua vontade de concorrer contra Lukashenko, Siarhei Tsikhanouski foi detido e seria condenado em 2021 a 18 anos de prisão, num processo relacionado com acusações de “incitamento ao ódio e à agitação social” que teria contornos políticos. Lukashenko acabaria por vencer as eleições com mais de 80% dos votos.
Na ausência do marido, Sviatlana Tsikhanouskaya assumiu a resistência bielorrussa e procurou denunciar internacionalmente o autoritarismo de Lukashenko, que ocupa a presidência desde 1994. Acabou por se refugiar posteriormente na Lituânia, de onde tem liderado a oposição.
Lukashenko garantiu em janeiro passado um novo mandato de cinco anos como Presidente bielorrusso, em mais uma vitória folgada e descrita pelos governos ocidentais como fraudulenta. Nos últimos anos, a Bielorrússia surgiu essencialmente alinhada com a Rússia, tendo sido um ponto de apoio importante para Moscovo na invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
Porém, Minsk tem procurado reduzir o seu isolamento internacional e a libertação de presos políticos tem sido encarada como uma medida nesse sentido. Só no último ano já foram concedidos indultos a mais de 250 presos políticos.
Dear Sviatlana @Tsihanouskaya, this is fantastic news and a powerful symbol of hope for all the political prisoners suffering under the brutal Lukashenka regime.
Europe continues to call for their immediate release. https://t.co/NSXw6gfBSm
— Ursula von der Leyen (@vonderleyen) June 21, 2025
A libertação de Tsikhanouski já mereceu a reação de diversas figuras internacionais, tais como a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen. “Cara Sviatlana Tsihanouskaya, esta é uma notícia fantástica e um poderoso símbolo de esperança para todos os presos políticos que sofrem sob o regime brutal de Lukashenko”, escreveu a líder do executivo comunitário na rede social X.
Von der Leyen salientou que “a Europa continua a apelar à libertação imediata” de todos os presos políticos do regime de Minsk.
Também a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, reagiu nas redes sociais às notícias da libertação do opositor bielorrusso. “Notícias maravilhosas. Extremamente feliz pela minha amiga [Sviatlana Tsihanouskaya]. A nossa luta pela libertação de todos os presos políticos na Bielorrússia não vai ficar por aqui”, avisou.
Lukashenko confirma acordo com administração Trump para libertar 14 presos políticos
A informação foi confirmada pela própria presidência bielorrussa, que deu conta da libertação de 14 presos políticos, na sequência de negociações com o governo norte-americano.
“O Presidente decidiu perdoar 14 condenados. Este foi um pedido do Presidente dos Estados Unidos [Donald Trump]”, disse Natalia Eismont à agência de notícias russa TASS.
A libertação ocorreu poucas horas depois de as autoridades bielorrussas anunciarem que Lukashenko se encontrou com Keith Kellogg, enviado de Donald Trump para a Ucrânia, na que foi a primeira visita em anos de uma autoridade norte-americana de alto nível à Bielorrússia, tradicional aliada da Rússia.
Na reunião, que se realizou em Minsk, a capital bielorrussa, Lukashenko recebeu calorosamente na sua residência Kellogg e a delegação americana. “Espero sinceramente que a nossa conversa seja muito sincera e aberta”, disse Lukashenko, comentando que Kellogg “causou muito barulho com a sua chegada” à Bielorrússia.
Não ficou imediatamente claro se a visita de Kellogg poderá abrir caminho para a suspensão de algumas sanções dos EUA contra a Bielorrússia, impostas desde a repressão brutal contra os protestos de 2020 e devido ao apoio de Lukashenko à invasão da Ucrânia pela Rússia.
“Lukashenko está claramente tentando sair do isolamento internacional e a libertação de um grupo tão grande de presos políticos sinaliza o desejo de iniciar um diálogo com os EUA para suavizar as sanções internacionais”, disse à agência noticiosa norte-americana Associated Press (AP) o analista político bielorrusso Valery Karbalevich.