As organizações WWF, CAN Europa e Carbon Market Watch defenderam esta quinta-feira que a União Europeia deve atingir a “neutralidade climática” já em 2040, objetivo que a UE estabeleceu alcançar em 2050. A posição foi divulgada numa conferência de imprensa online antes da apresentação da proposta de alteração da Lei Europeia do Clima para a Meta Climática de 2040 pela Comissão Europeia, na próxima quarta-feira.
A Comissão recomenda uma redução de 90% das emissões líquidas de gases com efeito de estufa até 2040, em comparação com os níveis de 1990, considerando que está de acordo com pareceres científicos recentes e com os compromissos assumidos pela União no âmbito do Acordo de Paris. Mas Michael Sicaud-Clyet, responsável pela política climática no gabinete europeu do Fundo Mundial para a Natureza (WWF na sigla em inglês), afirmou na conferência de imprensa que “mesmo 95% de redução das emissões de gases com efeito de estufa até 2040 não é suficiente para que a UE cumpra a sua quota-parte na mitigação das alterações climáticas globais”.
Sicaud-Clyet disse que o Conselho Consultivo Científico Europeu para as Alterações Climáticas recomendou a redução das emissões internas do bloco dos 27 em 90 a 95% até 2040, adiantando que algumas instituições internacionais e o secretário-geral da ONU, António Guterres, “também recomendaram que os países desenvolvidos, incluindo a UE, atinjam a neutralidade climática até 2040”. O ativista considerou “muito importante (a UE) ter objetivos climáticos ambiciosos para 2040”, porque estes são seguidos nos planos de ação climática dos países, com as designadas contribuições determinadas nacionalmente (NDC).
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Sam van den Plas, da Carbon Market Watch, considerou que os créditos de carbono internacionais — previstos no Acordo de Paris sobre as alterações climáticas no âmbito da cooperação entre países para se alcançarem as NDC e geridos nos “mercados de carbono” — “podem prejudicar uma ação europeia significativa em matéria de clima”. “Há um grande risco de que, se a UE confiar nesses créditos, estejamos a compensar os nossos próprios compromissos europeus em matéria de clima, permitindo a continuação da poluição por carbono na UE e uma presumível redução das emissões noutros locais”, salientou, adiantando que a “lógica de compensação, do ponto de vista climático, não faz qualquer diferença globalmente”. Ou seja, a nível mundial “não contribui para a redução das emissões”.
Sendo a Carbon Market Watch uma organização que acompanha e faz investigação sobre o referido mercado, Van den Plas disse que os ativistas também prestam atenção aos aspetos económicos e à questão da competitividade industrial na Europa, mas alertou que a compra de créditos noutro local significa menos investimento na União Europeia. Para o responsável, a compra de créditos no exterior “perpetua e adia a descarbonização” dos setores industriais em causa na Europa e estes “precisam de investimentos em tecnologias limpas para prosperar”. “Seria altamente prejudicial e pouco inteligente, do ponto de vista económico, externalizar essas reduções de emissões e renunciar aos investimentos na União Europeia”, insistiu.
A neutralidade climática é um conceito mais amplo que a neutralidade carbónica, considerando não só o dióxido de carbono (CO2), mas também outros gases com efeito de estufa, como o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O), assim como outros impactos no clima.