As tarifas de Trump ainda não estão a ter um impacto mensurável na taxa de inflação nos EUA – mas é provável que já neste verão esse impacto comece a aparecer de forma mais clara nos dados, afirma Jay Powell, o presidente da Reserva Federal que tem sido muito criticado por Donald Trump por não baixar as taxas de juro.

Powell, que nesta tarde participou num painel de debate no Fórum BCE – um dos pontos altos deste evento anual em Sintra –, tem avisado que as tarifas podem não só pressionar o crescimento económico (e o emprego) como, também, impulsionar a taxa de inflação. E é devido a esse receio que tem preferido “esperar para ver”, mantendo as taxas de juro inalteradas, para desespero do Presidente dos EUA (que já assumiu pretender substituir Powell o mais rapidamente possível).

“Prevemos que haja algumas estimativas mais elevadas [para a inflação] agora durante o verão”, afirma Jay Powell, lembrando que a inflação está em 2,3% (2,7% na inflação subjacente), ou seja, não está longe do objetivo. “Uma maioria sólida dos membros da Reserva Federal considera que deverá ser desejável voltar a cortar as taxas de juro na aproximação do final do ano”, acrescenta o responsável, reforçando as expectativas de que o banco central mais poderoso do mundo baixe os juros nos próximos meses.

Vamos estar a olhar para a inflação e para o mercado de trabalho, onde está a haver um arrefecimento gradual, e vamos tomar decisões reunião a reunião, olhando para os dados”, atira Jay Powell.

O presidente da Reserva Federal foi, também, questionado nesse painel de debate sobre se a pressão de Trump está a prejudicar o trabalho da Fed. E a resposta foi na linha de outras que já deu no passado recente: “Estamos 100% focados em cumprir a missão que nos foi atribuída pelo Congresso, fomentar o mercado de trabalho e a estabilidade financeira e garantir estabilidade dos preços”. A resposta de Powell arrancou muitos aplausos da audiência, composta sobretudo por outros responsáveis de bancos centrais e, também, académicos reconhecidos na área.

Sentada ao lado de Powell, Christine Lagarde, a presidente do BCE, repetiu que, na sua análise, a zona euro enfrenta riscos de inflação tanto no sentido ascendente ou descendente – ou seja, há riscos de que a inflação pode voltar a subir em demasia ou, então, baixar demasiado.

Para já, porém, apesar dos “desenvolvimentos geopolíticos preocupantes” no mundo, o BCE tem conseguido fazer a inflação aproximar-se do objetivo. “Ainda não dizemos ‘missão cumprida’ mas dizemos ‘alvo atingido‘”, afirma a presidente do BCE.

Lagarde dá “palmadinhas nas próprias costas” mas admite que BCE podia ter respondido melhor à inflação. As entrelinhas do discurso em Sintra