Se dúvidas ainda existissem, a forma como Nuno Borges levou as mãos à cara depois de bater em quatro sets Francisco Cerundolo entre uma emoção “atípica” para o português que fez mesmo com que o argentino se deslocasse ao lado contrário do campo para cumprimentar o adversário dizia muito sobre o que estava em causa. Era a primeira vitória do número 37 do ranking mundial em Wimbledon à quarta tentativa, era o carimbo final do segundo jogador nacional a completar triunfos nos quatro Grand Slams (antes só João Sousa conseguira), era também uma espécie de “vingança” do top 20 mundial depois da derrota em Londres no ano de 2023 quando teve uma escorregadela que se tornou fatídica pela lesão contraída no pé.

Agora, ele também é chique: Nuno Borges vence top 20 do mundo e consegue primeira vitória da carreira em Wimbledon

“Estou muito contente, acima de tudo. Acho que foi um desafio ultrapassado, sem dúvida, não só pelo adversário que tinha pela frente, mas também pela relva e Wimbledon, um torneio em que ainda não tinha conseguido ser feliz e que tem um grande significado. O final do encontro até foi bastante emocionante para mim, porque há dois anos tinha jogado com o Francisco Cerundolo e lesionei-me. Portanto, sem dúvida, teve um significado especial poder ultrapassar aquele desafio, na catedral do ténis, num dia extremamente quente. Foi uma batalha desde o início”, comentou o maiato de 28 anos, que por ter afastado um cabeça de série ficava com um quadro teoricamente mais acessível para subir mais um degrau no torneio.

O que a chuva abençoou, uma escorregadela tirou: Nuno Borges vence primeiro set, lesiona-se e cai frente a Cerundolo

Seguia-se Billy Harris, britânico de 30 anos que entrou no quadro principal como wild card e que na ronda inaugural ganhara ao lucky looser sérvio Dusan Lajovic por três sets sem resposta (6-3, 6-2 e 6-4). Pela primeira vez na segunda ronda, o 151.º mundial apostava muito nesta partida com honras de court número 2 de Wimbledon, o terceiro mais importante que começara por receber, com atraso devido à chuva, o triunfo da norte-americana Madison Keys diante da sérvia Olga Danilovic em 1h15 (6-4 e 6-2). E até as perspetivas na terceira ronda “ajudavam” a esse interesse extra, com o vencedor a ter depois pela frente quem ganhasse entre o qualifying japonês Shintaro Mochizuki (144.º) e o russo Karen Khachanov (20.º).

O jogador português começou de forma irrepreensível a partida, ganhando os dois primeiros jogos de serviço em branco e fazendo o break para o 3-1 sem qualquer erro forçado (e com quatro winners) aproveitando uma entrada mais titubeante do britânico que chegou ao quadro principal através de um wild card. Billy Harris ainda teve um ponto de break mas o quarto ás acabou por fechar essa partida, naquele que foi o momento chave para fechar em 26 minutos o primeiro set por 6-3 com Nuno Borges a apresentar enorme confiança nos seus jogos de serviço que iam quebrando a confiança do adversário apesar do apoio nas bancadas.

Aí os serviços ditaram a diferença, no arranque do segundo parcial os serviços estiveram à prova para evitar a diferença: Billy Harris salvou um 0-30 para o 1-0, Nuno Borges salvou um 0-30 para o 1-1, Billy Harris não conseguiu depois segurar o seu jogo de serviço e sofreu o break ainda cedo no segundo set, mostrando que as melhorias que começava a evidenciar não chegavam para superar o jogo no fundo do court do português. O jogador da casa aumentava o nível, Borges encontrava resposta para tudo e nem mesmo nos encontros de serviço com mais pressão vacilava, salvando quatro pontos de break para o 4-2 e mais dois para o 5-3 para fechar depois o 6-4 com dois ases que o deixava a apenas um triunfo da terceira ronda.

Harris não queria desistir, com um court número 2 cada vez mais composto (até pelo barulho que vinha dos campos adjacentes era percetível o aumento de público, tendo como expoente máximo o momento em que o brasileiro João Fonseca bateu Jenson Brooksby no court 12). Forçava mais, arriscava outras soluções, ia mostrando melhores argumentos. Nuno Borges, sem nunca perder o foco, fazia o seu jogo. Sereno, com erros não forçados abaixo do adversário, a resistir aos pontos de break como voltou a acontecer por duas vezes para o 1-1, a pressionar Harris também no seu serviço. O figurino daquilo que se via em campo mudou, o resultado nem por isso e o português acabaria mesmo a fazer a festa pelo triunfo na segunda ronda.

Ainda assim, havia um capítulo extra por contar e que mostra bem a confiança com que Nuno Borges pode encarar a próxima partida frente a Karen Khachanov, que venceu uma autêntica batalha frente a Shintaro Mochizuki por 3-2 (1-6, 7-6, 4-6, 6-3 e 6-4). O português salvou um ponto de break no primeiro set, mais seis no segundo e mais dois no terceiro, evitando também os dois set points que Billy Harris teve no tie break do terceiro parcial a 6-4. De uma ou outra forma, Borges deu sempre a volta, fechando o encontro com um 9-7 na decisão do terceiro set e mostrando que apresenta uma consistência que permite sonhar com mais.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 7.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui e o sexto aqui]