“Benfica no sangue”. O lema de campanha de Martim Mayer não podia ser mais ilustrativo. Neto de Duarte Borges Coutinho, presidente do Benfica de 1969 a 1977, o empresário puxa dos galões de ter um verdadeiro sangue encarnado nas veias para garantir que é a pessoa certa para liderar o clube. Esta quarta-feira, ao final da tarde, apresentou-se como candidato às eleições do próximo mês de outubro.
Ao escolher o Capitólio, no Parque Mayer, fez mais uma referência familiar: é também descendente de Adolfo de Lima Mayer, o empresário que no início do século XX mandou construir o Palácio Mayer, onde hoje fica a Embaixada de Espanha em Lisboa, e cujos antigos jardins são então ocupados pelos vários teatros e salas de espetáculos. O empresário recebeu todos os convidados, adeptos, sócios e simpatizantes pessoalmente e um a um, à porta do edifício e encaminhando-os para a plateia, e esperou que a sala estivesse totalmente cheia para começar a apresentação.
O mestre de cerimónias foi André Henriques, locutor da Cidade FM, e apressou-se a apresentar António Simões — mandatário nacional da campanha de Martim Mayer que em 2021, na última reeleição de Luís Filipe Vieira, foi um de quatro campeões europeus pelo Benfica a apoiar publicamente João Noronha Lopes. “Estamos num momento importante para o clube. É preciso ter pensamento e reflexão. Quero transmitir-lhe a honra que me dá ser seu mandatário para um cargo de grande responsabilidade e que tem a ver com um sentimento profundo que ambos temos pelo nosso clube”, começou por dizer o antigo jogador.
“O nosso clube não nos deu só a oportunidade de crescer como futebolistas, deu-nos a oportunidade de crescer como pessoas, como homens. Com decência. E é esse o Benfica que queremos agora, um Benfica com decência. Conheço o projeto do Martim e da equipa, conheço-o tecnicamente e profissionalmente, sei quais são as ideias e recomendo-as. Mas, mais do que isso, há uma razão muito profunda e sentimental que tem a ver com o seu avô, o dr. Borges Coutinho”, acrescentou Simões, que foi jogador encarnado durante os mandatos do avô do agora candidato.
Mais à frente, o antigo internacional português deixou um conselho para todos os candidatos. “Nenhum candidato pode cair na tentação de ser adversário. Têm todos de ser parceiros. Adversários já temos muitos e suficientes, não podemos trazer nenhum para dentro. Não façam isso. O Benfica tem de estar acima de tudo isso e é muito mais importante do que qualquer pessoa. O Benfica está sempre dentro de nós”, atirou, garantindo que a candidatura de Martim Mayer inclui “gente competente, decente e com paixão”.
Com Nelo Vingada e Tozé Brito na plateia, a apresentação prosseguiu com um vídeo de apoio do Comendador António Frias, o maior empresário português nos Estados Unidos que era amigo próximo de Eusébio. De seguida, Martim Mayer subiu ao palco e começou por revelar-se “emocionado” antes de agradecer as palavras “sábias e tocantes” de António Simões. “O Benfica é mesmo muito, muito, muito grande. É enorme. Quero liderar uma candidatura independente, livre dos interesses instalados, de todos aqueles que gravitam à volta do nosso clube e dos que dele se aproveitam e se aproveitaram em benefício próprio”, iniciou.
“Nós temos o Benfica no sangue. Este é o meu legado. Juntos, com todos, construiremos o nosso legado. Tenho a certeza disso. Esta candidatura é livre de amarras, de jogos de bastidores que nos prejudicam, que nos ferem a identidade. Tem a nossa força, tem saber, tem competência, tem decência. Quero liderar, convosco ao meu lado, o recuperar da nossa identidade, dos nossos valores. Saber honrar todos aqueles que de forma séria e competitiva nos transmitiram o nosso Benfica. Humildade, união e trabalho. É o único caminho”, continuou.
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Mais à frente, Martim Mayer reconheceu que o futebol é “o coração do Sport Lisboa e Benfica” e elencou alguns números sob a fasquia de Sven-Göran Eriksson, que defendia que qualquer ano em que os encarnados não fossem campeões nacionais era um ano de insucesso. “Desde a década de 90, nos últimos 35 anos, somámos dez Campeonatos, cinco Taças de Portugal e seis Supertaças. 80% de insucesso. Nos últimos cinco anos, três títulos conquistados em 20 disputados. 85% de insucesso. Nos últimos dez anos, o Benfica comprou 900 milhões de euros em jogadores e vendeu 1.800 milhões, sendo que 800 eram da formação. Sem a formação, no global e ao contrário do que se faz crer aos sócios, nem se perdeu nem se ganhou. Há falta de estratégia, competência e uma preocupante falta de vitórias”, sublinhou.
“É crítico e urgente criar uma estrutura altamente profissional, com cargos e tarefas muito bem definidos onde possam ser avaliados em permanência todos os desempenhos. A nossa proposta irá estar estar estruturada para que assim seja e para isso vamos criar o cargo de diretor-geral executivo, alguém que pensará toda a estrutura do futebol desde o estilo de jogo ao perfil do treinador e ao perfil do diretor desportivo e do diretor de ‘scouting’. Como base, três vetores: política de compra e venda, política de integração de jogadores na equipa A e evolução no clube com a devida retenção de talento e plena coordenação entre ‘scouting’, formação, equipa A, B e Sub-23″, explicou, destacando ainda a vontade de dar “mais atenção” às contratações no mercado nacional.
Sobre as modalidades, Martim Mayer defendeu que a “a performance está muito abaixo do que devia” e “os gastos são insustentáveis”, recordando que o Benfica “paga o que ninguém paga em Portugal”. “É preocupante que o clube gaste 27 milhões de euros de orçamento quando as receitas das quotas dos sócios são 24 milhões de euros. Temos de reformar os custos e reformular os gastos”, disse, abordando depois a intenção de aumentar a capacidade do Estádio da Luz.
“Este problema tem de ser assumido e resolvido. Milhares de sócios estão em fila de espera para ter lugar e é muito difícil adquirir bilhetes. Isto tem de ser resolvido definitivamente. Estamos a trabalhar com uma das melhores empresas do mundo em investimentos imobiliários e teremos um estudo em breve sobre qual o melhor caminho para aumentar o Estádio da Luz em 15 a 20 mil lugares”, garantiu.
Ainda durante o longo discurso, o candidato à presidência do Benfica anunciou a intenção de criar uma direção de bilhética independente, valorizar as Casas do Benfica, criar um Conselho Consultivo dos Sócios e ainda fundar uma Casa do Jogador para apoiar antigos atletas. Além disso, se for eleito, irá apresentar relatórios financeiros claros e acessíveis que “permitam aos sócios conhecer o estado financeiro do clube”. “Temos de garantir que cada época começa com contas equilibradas e termina com contas certas”, atirou.
No dia em que o Benfica anunciou que vai abandonar os grupos de trabalho da Liga Centralização e exigiu a suspensão imediata do processo de centralização dos direitos televisivos, Martim Mayer mostrou uma postura distinta. “O meu Benfica não irá abdicar de um cêntimo neste processo. O Benfica não tem de abdicar de nada, não tem o fazer. Todos os clubes envolvidos precisam de aplicar as verbas em infraestrutura que não têm ou que precisam de melhorar. Mas há um clube que não precisa: o Benfica. Em complemento com o valor que vai receber, vai também receber uma verba para investimento, mas para dispor como bem entender. E essa soma é igual ou superior ao contrato que está em vigor até 2026. Não nos devemos demitir, devemos liderar este processo e dar o nosso contributo”, considerou, acrescentando que a BTV não pode ser “uma arma da comunicação do clube”, mas sim um meio de “pluralidade”.
Aos 51 anos, Martim Mayer tem seis filhos, é empresário e detém uma empresa que produz componentes em alumínio e aço para carros, motas e bicicletas. Antes, trabalhou na Bolsa de Lisboa, onde entrou pela primeira vez com apenas 17 anos. Jogou ténis no Benfica e acabou por também praticar râguebi com a camisola dos encarnados, tornando-se capitão dos juvenis e dos juniores e representando as camadas jovens da Seleção Nacional em diversas ocasiões. Em 2012, já tinha sido candidato a vice-presidente do Benfica ao lado de Rui Rangel e contra Luís Filipe Vieira, que acabou por ser reeleito.
Para além de Martim Mayer, também o empresário João Noronha Lopes e os advogados João Diogo Manteigas e Cristóvão Carvalho já anunciaram oficialmente a candidatura à presidência do Benfica. Mauro Xavier permanece como hipotético candidato, enquanto que Rui Costa ainda não confirmou que vai procurar a reeleição no sufrágio marcado para o próximo dia 25 de outubro. Já Luís Filipe Vieira, por sua vez, continua a ser dado como candidato certo por vários órgãos de comunicação social.
E vão quatro: Martim Mayer, neto de Borges Coutinho, também é candidato à presidência do Benfica