Rui Valério, patriarca de Lisboa, diz, num texto de opinião a publicar esta quarta-feira no Observador, que a imigração é “um dos grandes desafios morais, sociais e políticos do nosso tempo”. O bispo cita o Papa Francisco que, na Encíclica Fratelli tutti, defendia a ideia de que a Europa tem “o dever moral de tutelar os direitos dos seus cidadãos e o dever de garantir a assistência e o acolhimento dos imigrantes”. Numa mensagem com vários destinatário, o bispo considera que o tema da imigração é mesmo “um exame moral para o nosso tempo”.
Ao mesmo tempo que reconhece que cabe aos Estados o direito — e o dever — de regular os fluxos migratórios, Rui Valério também sublinha a ideia de que “a hospitalidade” para com quem vem de fora “não pode ser sinónimo de anarquia, porque isso coloca gravemente em risco a dignidade da pessoa humana dos migrantes, que acabam por ser vistos como mão de obra barata, desprotegida e manipulável”.
Aos países de destino, como Portugal, cabe, na opinião do patriarca de Lisboa, a responsabilidade de “olhar os migrantes com compaixão e responsabilidade, promovendo políticas que respeitem a sua dignidade e os ajudem a reconstruir a vida”. E volta a citar a Encíclica Fratelli tutti para assinalar que “o acolhimento não pode ser ingénuo nem desordenado”.
Num momento em que o tema da imigração marca a agenda política — o Parlamento acaba de discutir diplomas sobre a nacionalidade e a criação de uma nova unidade para policiar as fronteiras —, Rui Valério considera “essencial que a integração não signifique renúncia à própria identidade”, porque “não podemos acolher à custa do relativismo moral”. Mas, ao mesmo tempo, acrescenta que “a convivência só é possível com base num ‘pacto cultural’, que respeite os valores fundamentais da sociedade de acolhimento”.
“Não se trata de impor uma uniformidade, mas de preservar um património civilizacional construído com esforço e sofrimento, e que deve ser proposto como base de integração”, defende o patriarca de Lisboa. Esse acolhimento deve, por isso, “ser responsável, coordenado e integrado num esforço mais amplo de solidariedade internacional, incluindo o apoio aos países de origem, para que ninguém seja forçado a emigrar por falta de alternativas”.