Há três meses que a ideia ganhava forma no Palácio do Eliseu. Esta quinta-feira, Emmanuel Macron passou das palavras aos atos e fez o anúncio oficial: França irá reconhecer formalmente o Estado da Palestina durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro. França será, assim, o primeiro país do G7 a dar este passo. A decisão gerou reações radicalmente diferentes: Israel acusou França de estar a apoiar o terrorismo, Espanha e a Palestina saudaram a decisão.
O anúncio foi feito numa longa carta endereçada ao presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, publicada por Macron nas suas redes sociais. O chefe de Estado francês começa por assinalar a disponibilidade de Abbas para empreender uma reforma na Autoridade Palestiniana e continua justificando a decisão com a “urgência” do momento.
“Confiança, clareza e compromisso. Alcançaremos a paz”, pode ler-se na publicação que acompanha a carta, onde se pode ler ainda que França “quer ter uma contribuição decisiva para a paz no Médio Oriente”. O texto inclui ainda uma breve mensagem, aparentemente escrita à mão, em que o Presidente francês reitera o seu “compromisso com a paz e a segurança”.
Fidèle à son engagement historique pour une paix juste et durable au Proche-Orient, j’ai décidé que la France reconnaîtra l’État de Palestine.
J’en ferai l’annonce solennelle à l’Assemblée générale des Nations unies, au mois de septembre prochain.… pic.twitter.com/7yQLkqoFWC
— Emmanuel Macron (@EmmanuelMacron) July 24, 2025
O anúncio incendiou Telavive, que, a várias vozes, condenou a decisão de Paris. “Condenamos veementemente a decisão do Presidente Macron de reconhecer um Estado palestiniano próximo de Telavive após o massacre de 7 de outubro”, declarou Netanyahu na rede social X. “Tal medida premeia o terror e corre o risco de criar mais um agente iraniano, tal como Gaza se tornou”, adiantou o primeiro-ministro israelita.
“Um Estado palestiniano nestas condições seria uma rampa de lançamento para aniquilar Israel — não para viver em paz ao seu lado. Sejamos claros: os palestinianos não procuram um Estado ao lado de Israel; procuram um Estado em vez de Israel”, sublinhou o líder conservador.
We strongly condemn President Macron’s decision to recognize a Palestinian state next to Tel Aviv in the wake of the October 7 massacre. Such a move rewards terror and risks creating another Iranian proxy, just as Gaza became.
A Palestinian state in these conditions would be a…
— Benjamin Netanyahu – בנימין נתניהו (@netanyahu) July 24, 2025
Antes de Netanyahu, o vice-primeiro-ministro israelita, Yariv Levin, qualificou a posição de Macron de “decisão vergonhosa”. “É uma mancha negra na história francesa e uma instigação direta ao terrorismo” e significa que agora é “tempo de aplicar a soberania israelita” na Cisjordânia, continuou, referindo-se ao território palestiniano ocupado por Israel, numa violação do Direito Internacional.
“A Terra de Israel pertence ao povo de Israel, e nem mesmo a declaração do Presidente Macron pode mudar isso”, afirmou Levin numa mensagem no Telegram.
O Presidente israelita, Isaac Herzog, acredita que a decisão da França de reconhecer o Estado palestiniano “não promoverá a paz nem ajudará a derrotar o terrorismo” no Médio Oriente. “A declaração do Presidente francês não promoverá a paz no Médio Oriente. Não ajudará a derrotar a ameaça do terrorismo. E, mais importante, não ajudará certamente a trazê-los (aos reféns israelitas) para casa mais cedo”, disse Herzog, num comunicado ao qual anexou uma fotografia dos cidadãos ainda detidos pelo Hamas.
O ministro israelita da Diáspora e Combate ao Antissemitismo, Amichai Chikli, respondeu diretamente à decisão de Macron partilhando no X um vídeo recente que mostra a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, aparentemente a esbofeteá-lo ao desembarcar no Vietname: “Esta é a resposta apropriada ao seu reconhecimento de um Estado palestiniano como recompensa ao terrorismo do Hamas”, acrescentou.
President @EmmanuelMacron,
Here is the appropriate response to your recognition of a Palestinian state as as a reward for Hamas terrorism. pic.twitter.com/Ve6c5Op0hN— עמיחי שיקלי – Amichai Chikli (@AmichaiChikli) July 24, 2025
Contudo, a histórica decisão de Emmanuel Macron também foi alvo de elogios. O vice-presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Hussein al-Sheikh, saudou a intenção da França de reconhecer o Estado da Palestina, agradecendo a Macron. “Esta posição reflete o compromisso da França com o Direito Internacional e o seu apoio aos direitos do povo palestiniano à autodeterminação e ao estabelecimento do nosso Estado independente”, disse.
Entre os países europeus, Eslovénia, Espanha, Irlanda e Noruega foram pioneiros no reconhecimento do Estado palestiniano, em 2024. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, reagiu quase de imediato ao anúncio de Macron.
“Celebro que a França se junte a Espanha e a outros países europeus no reconhecimento do Estado da Palestina. Juntos, devemos proteger aquilo que Netanyahu está a tentar destruir“, publicou Sánchez no X,. Para o chefe do governo espanhol, “a solução de dois Estados é a única solução”.
Celebro que Francia se sume a España y otros países europeos en su reconocimiento del Estado de Palestina.
Entre todos debemos proteger lo que Netanyahu está tratando de destruir. La solución de los dos Estados es la única solución. https://t.co/fxlrSR1IPN
— Pedro Sánchez (@sanchezcastejon) July 24, 2025
A fase mais recente do conflito israelo-palestiniano foi desencadeada pelos ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, no sul de Israel, nos quais morreram cerca de 1.200 pessoas e mais de duas centenas foram feitos reféns, de acordo com dados das autoridades israelitas.
A retaliação de Israel já causou mais de 59 mil mortos, sobretudo civis, a destruição de quase todas as infraestruturas de Gaza e a deslocação forçada de centenas de milhares de pessoas. Além disso, incluiu a imposição de um bloqueio de bens essenciais a Gaza, como alimentos, água potável, medicação e combustível.
Artigo atualizado às 9h20 de 25 de julho para incluir a reação do Presidente israelita, Isaac Herzog.
[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]