Há três meses que a ideia ganhava forma no Palácio do Eliseu. Esta quinta-feira, Emmanuel Macron passou das palavras aos atos e fez o anúncio oficial: França irá reconhecer formalmente o Estado da Palestina durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro. França será, assim, o primeiro país do G7 a dar este passo. A decisão gerou reações radicalmente diferentes: Israel acusou França de estar a apoiar o terrorismo, Espanha e a Palestina saudaram a decisão.

O anúncio foi feito numa longa carta endereçada ao presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, publicada por Macron nas suas redes sociais. O chefe de Estado francês começa por assinalar a disponibilidade de Abbas para empreender uma reforma na Autoridade Palestiniana e continua justificando a decisão com a “urgência” do momento.

“Confiança, clareza e compromisso. Alcançaremos a paz”, pode ler-se na publicação que acompanha a carta, onde se pode ler ainda que França “quer ter uma contribuição decisiva para a paz no Médio Oriente”. O texto inclui ainda uma breve mensagem, aparentemente escrita à mão, em que o Presidente francês reitera o seu “compromisso com a paz e a segurança”.

O anúncio incendiou Telavive, que, a várias vozes, condenou a decisão de Paris. “Condenamos veementemente a decisão do Presidente Macron de reconhecer um Estado palestiniano próximo de Telavive após o massacre de 7 de outubro”, declarou Netanyahu na rede social X. “Tal medida premeia o terror e corre o risco de criar mais um agente iraniano, tal como Gaza se tornou”, adiantou o primeiro-ministro israelita.

“Um Estado palestiniano nestas condições seria uma rampa de lançamento para aniquilar Israel — não para viver em paz ao seu lado. Sejamos claros: os palestinianos não procuram um Estado ao lado de Israel; procuram um Estado em vez de Israel”, sublinhou o líder conservador.

Antes de Netanyahu, o vice-primeiro-ministro israelita, Yariv Levin, qualificou a posição de Macron de “decisão vergonhosa”. “É uma mancha negra na história francesa e uma instigação direta ao terrorismo” e significa que agora é “tempo de aplicar a soberania israelita” na Cisjordânia, continuou, referindo-se ao território palestiniano ocupado por Israel, numa violação do Direito Internacional.

“A Terra de Israel pertence ao povo de Israel, e nem mesmo a declaração do Presidente Macron pode mudar isso”, afirmou Levin numa mensagem no Telegram.

O Presidente israelita, Isaac Herzog, acredita que a decisão da França de reconhecer o Estado palestiniano “não promoverá a paz nem ajudará a derrotar o terrorismo” no Médio Oriente. “A declaração do Presidente francês não promoverá a paz no Médio Oriente. Não ajudará a derrotar a ameaça do terrorismo. E, mais importante, não ajudará certamente a trazê-los (aos reféns israelitas) para casa mais cedo”, disse Herzog, num comunicado ao qual anexou uma fotografia dos cidadãos ainda detidos pelo Hamas.

O ministro israelita da Diáspora e Combate ao Antissemitismo, Amichai Chikli, respondeu diretamente à decisão de Macron partilhando no X um vídeo recente que mostra a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, aparentemente a esbofeteá-lo ao desembarcar no Vietname: “Esta é a resposta apropriada ao seu reconhecimento de um Estado palestiniano como recompensa ao terrorismo do Hamas”, acrescentou.

Contudo, a histórica decisão de Emmanuel Macron também foi alvo de elogios. O vice-presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Hussein al-Sheikh, saudou a intenção da França de reconhecer o Estado da Palestina, agradecendo a Macron.   “Esta posição reflete o compromisso da França com o Direito Internacional e o seu apoio aos direitos do povo palestiniano à autodeterminação e ao estabelecimento do nosso Estado independente”, disse.

Entre os países europeus, Eslovénia, Espanha, Irlanda e Noruega foram pioneiros no reconhecimento do Estado palestiniano, em 2024. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, reagiu quase de imediato ao anúncio de Macron.

“Celebro que a França se junte a Espanha e a outros países europeus no reconhecimento do Estado da Palestina. Juntos, devemos proteger aquilo que Netanyahu está a tentar destruir“, publicou Sánchez no X,. Para o chefe do governo espanhol, “a solução de dois Estados é a única solução”.

A fase mais recente do conflito israelo-palestiniano foi desencadeada pelos ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, no sul de Israel, nos quais morreram cerca de 1.200 pessoas e mais de duas centenas foram feitos reféns, de acordo com dados das autoridades israelitas.

A retaliação de Israel já causou mais de 59 mil mortos, sobretudo civis, a destruição de quase todas as infraestruturas de Gaza e a deslocação forçada de centenas de milhares de pessoas. Além disso, incluiu a imposição de um bloqueio de bens essenciais a Gaza, como alimentos, água potável, medicação e combustível.

Artigo atualizado às 9h20 de 25 de julho para incluir a reação do Presidente israelita, Isaac Herzog.

[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]