Um antigo fuzileiro venezuelo-americano, condenado por triplo homicídio em Madrid em 2016, foi libertado na sexta-feira no âmbito de uma troca de presos políticos entre os Estados Unidos e a Venezuela. A denúncia foi feita pela organização Foro Penal, que luta pelos direitos dos prisioneiros em território venezuelano, e confirmada por fontes dos serviços secretos espanhóis ao jornal El País.
Dahud Hanid Ortiz, de 55 anos e que cumpria uma pena de 30 anos, foi recebido no Texas como parte do acordo que permitiu a libertação de dez cidadãos norte-americanos que estavam detidos pelo regime venezuelano em troca da libertação de 252 venezuelanos que se encontravam presos no Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT) em El Salvador. Através de um comunicado publicado pelo Departamento do Estado norte-americano, a administração Trump saudou a libertação de todos os que estava “injustamente detidos” na Venezuela, considerando-a como um “sucesso diplomático”.
Também o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, agradeceu na rede social X à equipa da Secretaria de Estado e ao Presidente de El Salvador, Nayib Bukele, “por ter ajudado a garantir um acordo para a libertação”. “Graças à liderança do Presidente [Trump], dez norte-americanos que estavam detidos na Venezuela estão a caminho da liberdade”, acrescentou.
Ten Americans are are their way home from detention in Venezuela! Thanks to @POTUS, @SecRubio, @usembassyve, @aboehler and many others for your support bringing Americans home pic.twitter.com/0lnxkBEZ9S
— Special Presidential Envoy for Hostage Affairs (@StateSPEHA) July 18, 2025
A libertação de Ortiz provocou uma onda de indignação junto das famílias das vítimas e da opinião pública espanhola. O advogado madrileno Víctor Joel Salas, alvo principal do criminoso e sobrevivente do episódio, expressou-se chocado com o desfecho: “Fomos traídos. Ele nunca foi um preso político, foi julgado e condenado por homicídio. Libertá-lo é uma injustiça inaceitável”, afirmou, citado pela imprensa espanhola.
Ortiz cometeu o triplo homicídio em julho de 2016, quando viajou da Alemanha até Espanha para confrontar Salas, o novo companheiro da sua ex-mulher. Não o encontrando de imediato, atacou e esfaqueou duas funcionárias e uma cliente do escritório de advogados onde Salas trabalhava. Depois de matar as três vítimas, incendiou o local e fugiu para território alemão. As autoridades espanholas emitiram um mandado de captura internacional. O homem conseguiu escapar para a Colômbia e atravessou a fronteira para a Venezuela, onde acabou por ser detido em 2018. Apesar dos pedidos de extradição por parte de Espanha, as autoridades venezuelanas optaram por julgá-lo devido à nacionalidade dupla nacionalidade venezuelo-americana.
A condenação de Dahud Ortiz foi anunciada em janeiro de 2024, com uma pena de 30 anos de prisão. A sua inclusão na recente troca de prisioneiros gerou controvérsia, uma vez que não se trata de um preso político, conforme esclareceu o Foro Penal.”Apenas nove dos dez norte-americanos libertados eram prisioneiros políticos. Ortiz não se enquadra nesse perfil”, comunicou a organização, citada pelo The Guardian.
Ortiz já teria tentado, em 2023, subornar autoridades venezuelanas para ser incluído numa troca anterior, envolvendo Alex Saab, aliado próximo de Nicolás Maduro. Na altura, não conseguiu. Mas agora, com apoio de Washington e Caracas, conseguiu regressar ao território norte-americano.
Por seu turno, o Departamento de Estado dos Estados Unidos não comentou a polémica, afirmando apenas que “é inaceitável que o regime venezuelano tenham prendido cidadãos norte-americanos em circunstâncias altamente questionáveis e sem o devido processo legal”. Um porta-voz do mesmo departamento recusou confirmar a identidade deste preso, afirmando ao The Independent que “por questões de privacidade, não [iria] entrar em detalhes de nenhum caso específico”.
Entre os americanos libertados estavam também nomes como Wilbert Joseph Castañeda, Jorge Marcelo Vargas e Lucas Hunter. O caso de Castañeda, detido em 2024 sob suspeitas de envolvimento num alegado plano da CIA para assassinar Nicolás Maduro, também levantou dúvidas sobre a legalidade e transparência destas detenções.