O fogo que deflagrou no dia 8 de agosto em Moimenta da Beira, Viseu, não consumiu apenas 130 mil hectares. Após uma luta de vários dias contra as chamas, o pesadelo parecia ter chegado ao fim, mas para a rádio Riba-Távora tinha apenas começado.
Na semana anterior ao fogo, Veríssimo Santos — um dos fundadores da rádio que começou em 1984 — e os colegas estavam a limpar toda a zona de mato à volta da antena e dos cabos de transmissão na aldeia de Nacomba, para evitar qualquer tragédia. Infelizmente, não foi suficiente. “A central de emissão” foi levada pelo fogo, conta o diretor da rádio ao Observador.
“Com o incêndio foram destruídas todas as ligações telefónicas, rebentou-nos o quadro elétrico e arderam todos os cabos, quer o feixe artesiano, quer o cabo que liga e que faz a emissão para as antenas. Até a própria antena de 40 metros… ardeu tudo”, lamenta Veríssimo Santos, na reportagem que pode ouvir neste podcast:
https://observador.pt/programas/reportagem-observador/a-radio-que-desapareceu-nos-incendios-podem-calar-a-voz-mas-nao-a-vontade/
No momento em que percebeu que a central estava em risco, o dirigente da Riba-Távora decidiu telefonar a uma pessoa conhecida do corpo de bombeiros e percebeu que já não havia nada a fazer. “Era impossível, eles tinham que combater as frentes de fogo e naquele sítio era impossível entrarem” — a zona onde estava o material era muito acidentada.
No fim do incêndio tudo o que sobrou da central foi um contentor de metal derrubado, numa paisagem cinzenta e sem vida. “Senti-me impotente. É uma tristeza muito grande, custa-me muito ver ali o meu menino a perder a vida, aquilo é mais um filho que eu ali tenho”.
Contudo, a história da rádio Riba-Távora não termina aqui, graças ao apoio dos ouvintes que, “têm sido incansáveis”, agradece Veríssimo Santos. “Fazem promessas de ofertas para ajudar e estamos a pensar criar um crowdfunding ou alguma coisa qualquer que nos leve a conseguirmos alertar todos os nossos ouvintes. Ou seja, saber se é possível termos algumas ajudas”.
Veríssimo Santos não consegue ainda fazer o balanço monetário do que perdeu, mas acredita que a quantia vai ser grande, “vão ser milhares e milhares de euros”.
Independentemente do valor, o diretor não pretende desistir. “Nem que seja com um emissor com uma potência mais fraca, podemos voltar pelo menos com a emissão e pôr as coisas a funcionar minimamente que seja. Depois cada passo é um passo, no sentido de conseguirmos melhorar e refazer as coisas que estão, neste momento, completamente paradas”, acredita o responsável da Riba-Távora.
As circunstâncias são agora muito diferentes do que sucedeu há mais de quarenta anos, quando Veríssimo Santos e mais um amigo quiseram criar uma rádio por diversão. Começou por ser uma emissora pirata mas cinco anos depois, em 1989, os dois amigos legalizaram o projeto. Passou por vários problemas, esteve quase a fechar, como confessa numa publicação da página oficial da rádio no Facebook, chegou inclusive a ter que fazer empréstimos pessoais ao banco. Agora, não basta querer, sublinhou Veríssimo Santos. Apesar de ainda não saber ao certo qual foi o prejuízo que as chamas causaram, sabe que não levantará a rádio de novo com menos de 20 mil euros.
“Hoje já não tenho nem idade, nem sequer possibilidades de poder refazer um caminho, não posso fazê-lo novamente a lutar e encontrar soluções sozinho. O incêndio que ‘limpou’ todo o lugar da Surrinha-Aldeia de Nacomba, entendeu ‘calar’ a rádio Riba-Távora”, escreveu o fundador na mesma rede social.
Podem “calar a voz”, mas “não a vontade”, prometeu Veríssimo Santos, ao mesmo tempo que apela “a um milagre financeiro”, lembrando que “a rádio só vive da publicidade, sem publicidade não pode existir rádio”.
[Governo decide que é preciso invadir a embaixada para pôr fim ao sequestro. É chamada uma nova força de elite: o Grupo de Operações Especiais. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. Ouça no site do Observador o quinto episódiodeste podcastplus narrado pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Também o pode escutar na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]