16 de maio de 2025. Depois de uma série de intensos ataques aéreos, o Exército israelita, as Forças de Defesa de Israel (IDF), anunciava que tinha dado os primeiros passos de uma nova operação militar na Faixa de Gaza, aprovada em Telavive duas semanas antes: a operação “Carruagens de Gideão“. À data, ainda não tinham passado dois meses desde que Israel tinha posto fim ao frágil cessar-fogo aprovado no início do ano.
O relançar da ofensiva terrestre de Israel no enclave palestiniano tinha como objetivos principais “a derrota do Hamas em Gaza e a libertação de todos os reféns”. Mas a lista completa de objetivos era mais extensa: “conquistar Gaza“, deslocar os palestinianos para o sul de Gaza, derrotar o Hamas e travar o desvio de bens humanitários que era atribuído ao grupo palestiniano.
No início de agosto, o Exército israelita começou a retirar tropas da Faixa de Gaza — parecia ser o fim das “Carruagens de Gideão”. Avichay Adraee, porta-voz do Exército israelita salientava os objetivos cumpridos, com destaque para o facto de as forças terem ocupado 75% do território em Gaza, incluindo partes da região de Deir al-Balah, no centro do enclave, onde as tropas israelitas não tinham entrado desde o 7 de Outubro. Um vídeo partilhado nas redes sociais por Adraee mostrava a evolução da ofensiva e da ocupação israelita, simplificada pelo Observador em dois mapas, que mostram o antes e o depois da operação.
Além da ocupação, as forças israelitas destacaram a “eliminação de 2.100 sabotadores”, a “divisão em dois eixos principais” — um, a leste, onde permanece a população palestiniana, outro a oeste, ocupado pelo Exército — e o ataque de “10 mil alvos terroristas”. No entanto, ficaram por cumprir os dois objetivos principais: o Hamas continua no terreno e os 50 reféns israelitas permanecem em Gaza.
Esta terça-feira, duas semanas depois de as tropas terem começado a retirar, o ministro da Defesa, Israel Katz, depois de uma reunião com o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Eyal Zamir, vários responsáveis do Exército e do Shin Bet, os serviços de segurança, aprovou uma ofensiva renovada: a “Carruagens de Gideão B”.
Cidade de Gaza: o objetivo das “Carruagens de Gideão B”
O retomar da ofensiva tem como objetivo ocupar a Cidade de Gaza — a norte da recém ocupada Deir al-Balah — onde os responsáveis militares dizem ainda haver infraestruturas do Hamas. Esta quarta-feira, no primeiro dia da nova ofensiva, duas brigadas começaram ataques no bairros de Zeitoun e na cidade vizinha Jabalia, relataram as autoridades israelitas, citadas pelo Times of Israel. O objetivo é cercar a cidade e avançar depois até ao centro, ocupando toda a capital do enclave palestiniano.
No mesmo dia, as IDF anunciaram que 60 mil reservistas iriam ser convocados para a nova ofensiva. Os milhares de soldados não vão entrar em combate ao mesmo tempo, mas em vagas. A primeira é composta por 40 a 50 mil soldados que devem apresentar-se ao serviço até dia 2 de setembro. Uma segunda parte deverá entrar em ação no final deste ano e uma terceira entre fevereiro e março de 2026. Além disso, o Exército irá prolongar o serviço dos reservistas atualmente em combate durante 30 a 40 dias. Portanto, no total, as forças israelitas poderão ter no terreno 130 mil reservistas ao mesmo tempo.
O plano inclui ainda um período de evacuação que se prolongaria até ao dia 7 de outubro, dando oportunidade aos palestinianos para abandonarem a cidade. Depois disso, Telavive afirmou que está a realizar “preparações humanitárias” para receber palestinianos deslocados no sul da Faixa de Gaza, incluindo a abertura de mais pontos de distribuição de ajuda humanitária, dois hospitais de campanha e a reabertura do Hospital Europeu, em Khan Younis, que se encontra inoperacional desde o ataque israelita do dia 13 de maio.
A ideia de concentrar o povo palestiniano no sul do enclave já tinha sido apresentada no início de julho, através do estabelecimento de uma “cidade humanitária”. À data, o plano foi condenado pelas Nações Unidas, que declarou que o plano para deslocar os palestinianos da sua terra “não [era] humanitário”. Esta quarta-feira, os alertas foram repetidos pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que alertou para “uma perigosa escalada” bem como para o elevado risco de “criar outra deslocação em massa de pessoas que já foram deslocadas repetidamente”.
It is vital to reach immediately a ceasefire in Gaza and the unconditional release of all hostages, and to avoid the massive death and destruction that a military operation against Gaza would inevitably cause.
Simultaneously, the decision by the Israeli authorities to expand… pic.twitter.com/oqf6q6vo5N
— António Guterres (@antonioguterres) August 21, 2025
Neste momento, encontram-se em Gaza, a maior cidade do enclave, quase um milhão de palestinianos, entre moradores e pessoas forçadas a sair do Norte de Gaza (zona administrativa distinta de Gaza), depois de, no final do ano passado, o Exército israelita ter imposto um cerco humanitário à região que se estendeu até 2025. Meses depois, estes palestinianos assistem agora à “destruição sistemática da Cidade de Gaza”, denuncia a ONU.
Segundo os números citados pela organização, desde o dia 8 de agosto, Israel realizou 54 ataques contra prédios residenciais na Cidade de Gaza, que mataram 87 pessoas, incluindo pelo menos 25 crianças. As forças israelitas atacaram ainda escolas e zonas de tendas onde se abrigam os milhares de deslocados, matando pelo menos 14 pessoas.
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