A camisola vermelha mudou de mãos pela terceira vez em três dias, com Jonas Vingegaard a recuperar o topo da classificação geral a David Gaudu depois do contrarrelógio coletivo ganho pela UAE Team Emirates com oito segundos de vantagem sobre a Visma Lease-a-Bike e depois Torstein Traeen a aproveitar o sucesso da fuga na primeira etapa a passar por Andorra para subir à liderança da geral, mas o sucesso do corredor da Bahrain acabou por passar quase ao lado perante a primeira grande sentença na Vuelta: ainda numa fase mais prematura da subida final, Juan Ayuso “afogou”, acabou a mais de sete minutos dos principais favoritos e despediu-se da luta pela vitória na prova. Daí saiu uma certeza, uma dúvida e a grande incógnita.

Um copo de Vine a celebrar a veia heróica de João: Emirates vence etapa, perde Ayuso mas acaba com português a atacar

Certeza: João Almeida é o líder da Emirates, que voltou a fazer a festa em Pal com o grande triunfo de Jay Vine após saltar dos dez corredores em fuga e aguentar a margem “cavada” sem que a resposta conseguisse beliscar a vitória. Dúvida: após a queda abrupta de Ayuso na geral, e tendo em conta que acabou a dizer que sabia como estava e que a prioridade era preparar os Mundiais, até que ponto poderia o espanhol ser uma arma jogada pela equipa para defender o chefe de fila português. Incógnita: Vingegaard, que foi na roda de Giulio Ciccone num ataque que deixou de forma momentânea Almeida “cortado”, não quis atacar, preferiu não correr riscos ou não teve forças para fazer o contra-ataque após a chegada de Matteo Jorgensen à frente para ganhar vantagem sobre o português. A etapa entre a Andorra-a-Velha e Cerler podia trazer respostas.

Numa sexta-feira 13 de há três anos, Torstein Traeen soube que tinha cancro. Três anos depois, é camisola vermelha da Vuelta

Essa circunstância de corrida do dinamarquês levantou questões, embora tivesse ficado claro que a Visma pode mostrar melhores argumentos de defesa ao seu chefe de fila do que a Emirates, mas a forma como João Almeida respondeu ao momento de adversidade mostrou bem que, mesmo não tendo a preparação ideal para esta Vuelta na sequência da fratura na costela feita depois da queda no final da primeira semana do Tour, quer marcar uma posição no pelotão. Mais: o português conseguiu o mais complicado, que era “fechar” após o ataque de Ciccone com Vingegaard a colar de imediato na sua roda, mas não quis ficar por aí, fazendo de imediato um ataque que estreitou mais o grupo antes de nova ofensiva perto da meta para tentar ainda ganhar uns segundos (que não conseguiu). Em dia de dúvidas numa Emirates em festa pelo sucesso de Jay Vine mas preocupada com a quebra abrupta de Juan Ayuso, o português afirmou-se como uma certeza.

“Aproveitei a fuga para tentar vencer a etapa. Se a fuga não vingasse, trabalharia no pelotão. Conheço bem estas estradas. Moro aqui e a subida de Comella é a minha favorita em Andorra. Decidi acelerar no topo e conheço muito bem a descida. Pensei ‘Esta é a minha oportunidade de escapar’ e fui. Recebi a chamada para esta corrida há cerca de quatro semanas, não estava no meu calendário original. Vencer em Andorra, à frente da minha mulher e do meu filho, é incrível e muito motivador”, salientou Jay Vine após o triunfo em Pal. “A camisola da montanha não era o objetivo mas fui à procura do topo na primeira subida para perceber quem estava interessado na fuga. Não sei se vou conseguir defendê-la mas vou tentar. Estamos aqui para ganhar a Vuelta e quero fazê-lo com o João [Almeida]. Ele está numa forma incrível e temos uma boa equipa para o apoiar”, assegurou ainda o australiano, falando sobre os objetivos da Emirates na Vuelta.

“Continuo a dizer o mesmo que disse desde o dia 1 da Vuelta, ainda antes de começar: o meu planeamento não era ir para a geral. A equipa quis testar-me. Tentei, não me senti bem e acabei por deixar-me levar. A partir de agora, quero ajudar a equipa e começar a preparar da melhor forma os Mundiais. Sabia ao que vinha e tenho os meus olhos colocados noutras coisas. Isto não é o Giro, que foi uma contrariedade muito dura, aqui levei bem. O [João] Almeida está bem, que é o mais importante, e vamos tentar ajudá-lo e lutar por alguma etapa”, assumiu Ayuso, num discurso “conformado” depois da quebra que teve na subida.

A “resposta” demorou menos de 24 horas. Numa etapa longa que começou com a notícia da desistência de Cristian Rodríguez, da Arkéa, Edwin Planckaert, Pierre Thierry, Jonas Wilsly e Gal Glivar saíram rápido para a fuga mas não demoraram a ter companhia e de peso: numa primeira instância, Javi Romo, Nico Denz, Oliver Knight e Patrick Eddy; mais tarde, o próprio Juan Ayuso. As cartas começavam a ser lançadas, sendo que até o atual camisola vermelha, Torstein Traeen, entrou num grupo perseguidor onde iam também Jay Vine, Pablo Castrillo e Raúl García Pierna, entre outros. Estavam decorridos apenas 30 quilómetros da sétima etapa mas as movimentações eram muitas, tendo Juan Ayuso sozinho na frente com Raúl Garcia Pierna na perseguição e o pelotão a neutralizar os restantes fugitivos por ação da Visma e da Bahrain.

Foi nessa fase que saltou para a ribalta Mads Pedersen (Lidl-Trek), sem medo dessa primeira subida ao Port del Cantó, juntando-se depois Raúl García Pierna (Arkéa), Marco Frigo (Israel-Premier Tech), Harold Tejada (XDS Astana), Brieuc Rolland (Groupama FDJ), Damien Howson (Q36.5 Pro Cycling Team), Kevin Vermaerke (Picnic PostNL), Eduardo Sepúlveda (Lotto), Sean Quinn (EF Education), Joel Nicolau (Caja Rural) e Jardi Van der Lee (EF Education) a 20 segundos de Ayuso, tendo ainda o pelotão a controlar a desvantagem com menos de um minuto. Só depois dessa passagem o corredor espanhol da Emirates foi alcançado, ficando a seu lado com mais 12 corredores. numa fuga que parecia finalmente estabilizar e que chegava à abordagem ao Port de la Creu de Perves com um avanço de cerca de quatro minutos.

Eduardo Sepúlveda ainda sentiu dificuldades nessa segunda de quatro subidas do dia, com o pelotão a fazer um ligeiro corte na diferença para 3.45 minutos que mantinha em aberto os dois cenários: vitória da fuga ou entrada em conjunto na derradeira montanha. A luta pelos pontos estava ao rubro, com Jay Vine a bater os rivais diretos Joel Nicolau e Sean Quinn antes de nova descida que tinha Mads Pedersen como o maior interessado, na tentativa de somar mais pontos para a camisola verde antes da terceira subida. Juan Ayuso mantinha-se também no grupo da frente, confirmando que poderá ser uma carta para ser jogada pela Emirates na defesa de João Almeida caso se mantenha assim sobretudo na segunda semana de Vuelta. No final dessa descida, a fuga continua a manter a fasquia dos quatro minutos de avanço sobre o pelotão.

“Foi uma etapa complicada, com frio e chuva, mas no final correu bem que é o que interessa. Quando houve o ataque do Ciccone, esperei pela melhor fase para reagir, ataquei mas ficou tudo na mesma. Vamos ver o que esperar desta etapa, veremos o que se pode fazer no final do dia”, comentava de forma lacónica João Almeida numa entrevista ao Eurosport gravada antes do início da etapa. Ou seja, jogo fechado, fichas guardadas e os habituais “veremos” para não dar trunfos aos rivais quando tinha dois companheiros de equipa na fuga para Jay Vine reforçar a liderança da montanha. Ainda assim, e entre o “jogo” do australiano pelos pontos no Coll de L’Espina (com várias bandeiras da Palestina nos dois lados da estrada), a vantagem da fuga começava a encurtar para 3.30 minutos deixando tudo em aberto para os 45 quilómetros que faltavam até à meta.

“Ontem [Quinta-feira] tivemos um bom dia, mostrámos que temos uma equipa muito forte. Podemos ter perdido a camisola vermelha mas ganhámos tempo a alguns adversários como o Ayuso. Perspetivas? É uma subida estranha no fim, vamos ver o que as outras equipas vão fazer para depois atuarmos”, destacava também Jonas Vingegaard em mais uma entrevista ao Eurosport gravada antes da partida. Os quilómetros iam passando, a meta estava mais perto (40km), a diferença entre os 12 corredores em fuga e o pelotão ia mantendo a fasquia dos 3.30 minutos, voltando a subir para quase quatro minutos a 30 quilómetros do fim. Podia ser apenas uma visão aparente mas as hipóteses da fuga vingar começavam aos poucos a crescer.

Jay Vine ia olhando para trás para perceber quem poderia puxar mais pela fuga. Percebia-se que, depois de ter somado vários pontos na montanha, era uma possível “cartada” da Emirates caso os fugitivos vingassem, com essa nuance de ter agora um companheiro de equipa (Juan Ayuso). O australiano tentava forçar o ritmo mas atrás começavam as principais equipas em busca da melhor colocação para a chegada a Huesca La Magia, o que cortou a diferença para três minutos a cerca de dez quilómetros do final já com Mads Pedersen a deixar-se cair à espera do pelotão. Foi nessa fase que Ayuso atacou, com Marco Frigo a tentar colar na roda do espanhol e Sean Quinn também a responder, deixando Jay Vine para trás com a “sua” missão cumprida.

Frigo resistiu e colou a Ayuso, enquanto na parte de trás era a Visma que começava a marcar o ritmo tendo João Almeida colocado na frente perto das “abelhas”. Os três minutos podiam ser curtos face ao aumento da cadência do pelotão mas o espanhol estava apostado em vingar a “derrota” da véspera, quase deixando a ideia de que na chegada a Pal desistiu mais cedo também para poupar forças. Frigo e Raúl Garcia Pierna iam a 40 segundos, o pelotão com seis elementos da Visma na frente seguia a 3.15 do espanhol trocando Victor Campenaerts por Wilco Kelderman a puxar. Mikel Landa começava a pedir ajuda pelo rádio, naquela que foi a primeira quebra no grupo dos favoritos, Ayuso mantinha a vantagem, a Emirates tentava manter Felix Grosschartner e Marc Soler ao lado de João Almeida com o espanhol a aumentar o ritmo a pedido do chefe de fila português. Afinal, nem tudo passaria pela Visma e a resposta da Emirates foi muito afirmativa.

João Almeida foi mesmo para o ataque, com Vingegaard e Ciccone a colarem tendo Egan Bernal a tentar ir ainda à luta sem sucesso e Sepp Kuss a não ter capacidade de resistência. Era entre estes três que recaíam as atenções, com um ligeiro desacelerar a permitir que Egan Bernal voltasse a colar e Kuss a arrancar para uma resposta pronta de Ciccone e do português. A fase de descida permitiu que todos se voltassem a juntar mas o aviso estava deixado perante a forma como o grupo partiu quando João Almeida arrancou. Lá na frente, com mais de um minuto de avanço sobre Frigo e Pierna, Juan Ayuso coroou o seu dia de glória depois do desastre, com tudo em aberto para possíveis ataques por uns segundos no final antes de Marc Soler sair para a frente sem resposta antes da chegada de todos os favoritos em mais um “empate técnico”.

Juan Ayuso fechou a sétima etapa com o tempo de 4.49.41, com 1.15 de vantagem de Marco Frigo e 1.21 de Raúl García Pierna. Seguiram-se alguns dos restantes fugitivos que ainda resistiram, casos de Harold Tejada, Sean Quinn, Kevin Vermaerke e Eduardo Sepúlveda, todos a 1.28. Brieuc Rolland fechou a 2.17 e Marc Soler foi nono a 2.30, com cinco segundos de vantagem em relação a Thomas Pidcock, que fechou o top 10, e os restantes candidatos à geral (João Almeida foi 19.º, à frente de Vingeggard). Na geral, Torstein Traeen manteve a camisola vermelha na Bahrain, tendo 2.33 de avanço sobre Vingegaard e 2.41 de João Almeida, que voltou a subir à terceira posição. Ciccone é o quarto a 2.42, seguindo-se Lorenzo Fortunato (2.47), Matteo Jorgensen (2.49), Jai Hindley (2.53), Giulio Pellizzari (2.53), Egan Bernal (2.55) e Felix Gall (2.58).

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