Primeiro, o luto. Depois, virá o inevitável combate político. A morte de pelo menos 16 pessoas no acidente que envolveu o Elevador da Glória, em Lisboa, será seguramente tema das próximas eleições autárquicas — apesar de a Carris ter uma administração própria, é a Câmara Municipal quem tem a tutela da empresa. Até ao momento, ainda ninguém apontou diretamente o dedo ao executivo camarário — com exceção de umas primeiras declarações dos representantes sindicais — e os socialistas, os principais adversários nesta corrida, têm estado particularmente comedidos. No entanto, ninguém na equipa de Moedas ignora que vão ser exigidas responsabilidades e que a pressão para que o presidente da Câmara se demita será enorme.
De resto, ninguém arrisca dizer o que fará o próprio Carlos Moedas quando tiver mais dados concretos sobre este acidente, pelo que não é descartar a hipótese de demissão. Nesta fase preliminar, porém, o foco está em prestar todo o apoio às autoridades competentes e às famílias dos feridos e vítimas mortais — Moedas está a falar diretamente com embaixadores e com familiares de alguns portugueses que morreram neste acidente. A pressão para que o presidente da Carris desse explicações rapidamente também foi uma forma de garantir que as muitas dúvidas que existiam não ficassem sem resposta — não na sua totalidade, pelo menos.
Depois, foi importante conter preventivamente a própria oposição — e esse papel coube a Luís Montenegro. O primeiro-ministro convidou Carlos Moedas para participar do Conselho de Ministros de forma a dar uma sinal inequívoco de solidariedade. Ao mesmo tempo, e libertando Moedas desse primeiro embate político, Montenegro deixou um aviso à navegação: “Este é um momento de união. Esta tragédia não pode nem deve ser usada para alimentar divisões ou manobras de aproveitamento político”.
A decisão de não permitir perguntas de jornalistas e de cancelar o habitual briefing do Conselho Ministros — comunicada pelos gabinetes do primeiro-ministro e do ministro da Presidência, respetivamente —, foi uma forma de proteger o Governo mas, sobretudo, Carlos Moedas. Existia a perfeita consciência de que seriam exigidas respostas concretas ao presidente da Câmara Municipal e que a ausência de explicações, numa altura em que as peritagens ainda estão a decorrer, fragilizaria ainda mais a situação do autarca.
Esta quinta-feira, também Marcelo Rebelo de Sousa, que se reuniu no próprio dia do acidente com Carlos Moedas, serviu de escudo humano ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, evitando que os jornalistas chegassem ao autarca imediatamente depois da missa de homenagem às vítimas que decorreu na igreja de São Domingos, em Lisboa. Marcelo, apesar de pedir o apuramento de todas as responsabilidades, evitou fazer qualquer tipo de declaração política mais incendiária. “É tempo de chorar os mortos e cuidar dos feridos.”
Mas nem os mais otimistas acreditam que será possível preservar este clima de contenção por muito tempo. “Alexandra Leitão tem estado bem, comedida”, reconhece uma fonte do executivo camarário, sem deixar de sugerir que o PS vai mudar rapidamente de atitude nos próximos dias. “A corrida eleitoral vai ser sobre isto, claro. Sabemos que eles [socialistas] nunca perdoaram a Carlos Moedas o facto de ter pedido a demissão de Fernando Medina [durante o ‘Russiagate’].” Esta noite, Alexandra Leitão dá uma entrevista à SIC Notícias, pelas 22 horas, que ditará o tom com que o PS vai tratar o tema.
Aliás, as palavras de Carlos Moedas, em 2021, em plena pré-campanha eleitoral, foram sendo recuperadas no espaço público ao longo da última quinta-feira. Nessa altura, depois de o Observador e de o Expresso terem revelado que a Câmara Municipal de Lisboa tinha enviado dados de manifestantes anti-Putin ao Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Moedas não teve meias medidas : “A confirmar-se, Fernando Medina só tem uma saída — a demissão“, afirmou o autarca no próprio dia em que o caso explodiu.
Dias mais tarde, Moedas definiu a sua bitola. “Fernando Medina não assumiu nenhuma responsabilidade e um líder assume as responsabilidades das suas equipas, portanto, o não assumir da responsabilidade política, e não estamos aqui a falar de um caso qualquer, estamos a falar de um caso em que estão vidas humanas em jogo, e não assumir essa responsabilidade política é muito grave.”
A equipa de Moedas compreende bem que é impossível não traçar paralelismos entre as duas situações — com a particular agravante de que, neste caso, houve de facto vítimas mortais. Apesar de tudo, há quem tente estabelecer uma diferença fundamental: o que esteve na origem do ‘Russiagate’ foi um procedimento errado seguido habitualmente pela Câmara de Medina; no caso do elevador da Glória, não foi possível (até ao momento) relacionar qualquer falha da administração da Carris (e, por arrasto, da Câmara) com o acidente.
Pelo menos, é esta a narrativa que vai sendo preparada. Também vai havendo a preocupação de tentar distinguir entre o que aconteceu na quarta-feira e a queda da ponte de Entre-os-Rios, em 2001, o exemplo mais citado sempre que há uma tragédia desta natureza — Jorge Coelho, então ministro do Equipamento Social, apresentou a demissão na própria noite e contra a vontade de António Guterres. “Sou o responsável político pela pasta, alguém tem de dar a cara pelo que aconteceu. A culpa não pode morrer solteira.”
Ora, posteriormente, foi possível concluir que a queda da ponte resultou, em grande parte, de falhas de fiscalização e de manutenção daquela infraestrutura. Isso explica a preocupação que tem existido desde o primeiro momento em provar que a Carris mantinha todos os protocolos de fiscalização em dia, sobretudo depois de se ter instalado, num primeiro momento, a ideia de que a empresa tinha deixado de ter a sua manutenção assegurada.
Recorde-se que o mais recente concurso para a manutenção do Elevador da Glória foi cancelado pela Carris no final de agosto porque todas as propostas recebidas tinham ficado acima do valor orçamentado. Ainda na noite de quarta-feira, e depois de alguma especulação sobre a existência ou não de um contrato de manutenção em vigor, a Carris esclareceu publicamente que esse vínculo existia e tinha sido garantido através de um ajuste direto com a mesma empresa— cujo contrato foi entretanto revelado.
Esta quinta-feira, a comunicação social teve ainda acesso a mais uma peça do puzzle que parece ilibar a Carris e Carlos Moedas: há documentos que comprovam que o elevador da Glória foi alvo de inspeção na manhã do acidente e que a empresa responsável pela manutenção — a MNTC — Serviços Técnico de Engenharia — concluiu que o “ascensor tinha todas as condições para operar” e que a mudança do cabo deveria ocorrer apenas dali a 263 dias.
“Até ao momento, não há nada que indicie que pudéssemos ter feito alguma coisa para evitar o acidente”, desabafa a mesma fonte do executivo de Carlos Moedas. Se as investigações agora em curso apontarem no mesmo sentido, se ficar comprovado que a tragédia era impossível de antecipar, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa terá renovados argumentos para descartar responsabilidades políticas. Mas o contrário também é verdade: se se concluir que a Carris, cujo responsável máximo, Pedro Bogas, foi escolhido por Moedas, teve algum tipo de responsabilidade neste caso, o presidente da Câmara ficará ainda mais fragilizado.
Elevador da Glória foi alvo de inspeção na manhã do acidente