A pouco mais de quatro meses das eleições presidenciais portuguesas, há mais uma candidata: Catarina Martins, eurodeputada do Bloco de Esquerda, confirmou a entrada na corrida, onde já estão “os homens do costume”, através de uma nota enviada aos militantes do partido.

“Escrevo-te sabendo bem como estes anos têm sido exigentes com todas e todos os ativistas que constroem a esquerda. Que não largam a mão de quem está ao lado. Foram muitos os nossos combates, com tanta gente. E em todos nós nos reencontramos. Escrevo-te num momento em que o processo das eleições presidenciais já começou, já está no terreno, com os homens do costume. Dos que há décadas governam o país e dos que tentam rentabilizar a angústia, para fazerem o mesmo ou pior”, lê-se na mensagem inicialmente divulgada pelo Expresso e à qual o Observador também teve acesso.

De viva voz, já depois de ter sido divulgado o comunicado, Catarina Martins assumiu que a ausência de António Sampaio da Nóvoa da corrida às eleições foi essencial para a sua decisão. “É sabido que eu achava que seria importante haver o nome de alguém que não vindo de nenhuma área partidária pudesse alargar ao máximo o campo da esquerda nesta campanha”, disse em entrevista ao NOW.

“É preciso mobilizar as pessoas para a campanha presidencial. Acho que posso dar esse contributo. Eu respeito toda a gente que se apresenta, mas há um campo à esquerda que não sinto representado. Há um espaço de uma esquerda progressista combativa que não se sentia representada”, explicou, dizendo que recebeu apelos de muitas pessoas “de um campo largo da esquerda” a motivá-la a correr a Belém.

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A bloquista remeteu para o Livre um eventual apoio do partido liderado por Rui Tavares à sua candidatura. Todavia, assume que os dois partidos estiveram envolvidos numa tentativa de candidatura conjunta. “É expectável que o Livre tome as suas decisões”, justificou.

A antiga coordenadora do Bloco de Esquerda, que desde junho de 2024 assumiu funções de deputada no Parlamento Europeu, assume que as eleições ocorrem “num momento crucial para a esquerda”, para Portugal e para o mundo. “É o tempo de um Governo que está a atacar todos os fundamentos dos direitos do trabalho, que moldam a nossa democracia. Que degrada todos os serviços públicos que são a nossa segurança. Que expulsa gerações de jovens das cidades, para alimentar o negócio da falta de habitação. Que abandonou o país à mercê de uma das muitas catástrofes climáticas que não soube combater e não quer prevenir”.

Acrescenta que apesar de esta não ser a primeira vez em que “um Governo ataca os direitos de quem devia proteger”, desta vez “é ainda mais ameaçador”, avisa, lembrando “um mundo em guerra”: “Genocídio de Gaza passa em direto, com imagens, com testemunhos, com evidências. Uma dessas evidências é a cumplicidade dos líderes europeus. Na Ucrânia como na Palestina, os responsáveis da política da morte sentam-se à mesa para partilhar o que sobrar depois da destruição”. “Não é a primeira vez que em nome da civilização se apoia a barbárie e da barbárie se faz negócio. Mas desta vez é ainda mais sinistro”, completou.

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“Mas este é também o tempo em que se constrói a resistência, a solidariedade, as respostas. Na flotilha de Gaza e nas manifestações que unem milhões pela paz. Nos sindicatos e comissões de trabalhadores que constroem a unidade a favor do trabalho. Nos movimentos que enfrentam o ódio e a discriminação. Em todos os combates, em todo o país, não falta quem não falte. Não é a primeira vez que a solidariedade se levanta contra as inevitabilidades. E desta vez tem que ser diferente. O que em todo o caso todos sabemos é que há neste país mulheres e homens que, com tanto candidato do costume, ainda não têm em quem votar para a novidade de que Portugal precisa. Por isso, durante as últimas semanas, falei com muita gente, tentando perceber se podia dar um contributo para essa resposta”.

Antes do anúncio público, que aconteceu em entrevista ao canal Now, pelas 22h, Catarina Martins mostra-se orgulhosa do “espírito coletivo” dos militantes do Bloco e lembra que deve “tudo a quem partilhou comigo uma vida de ideias, movimentos e ação da esquerda que quer fazer da igualdade a garantia do nosso futuro”. “Sei quem sou e como cheguei até aqui”. Defende a importância de criar uma candidatura que seja “mais um espaço alargado”.

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Recordando a união demonstrada entre cidadãos no apagão, nos incêndios e na homenagem às vítimas do Elevador da Glória, a eurodeputada lembrou que a “solidariedade é uma grande força de Portugal”, que é negada por quem escolhe “o insulto em vez do argumento” e semeia “o ressentimento para tolhar a esperança”.

Na entrevista ao NOW, a eurodeputada condenou a gestão que Carlos Moedas fez do desastre, defendendo que o autarca deveria assumir a “responsabilidade política” pelo que aconteceu. Ainda assim, recordou que não está no seu papel pedir a demissão do Presidente da Câmara de Lisboa.

“Nunca como hoje sentimos o perigo desta rampa deslizante; não é uma questão de franjas da população nem mesmo de uma bancada parlamentar ruidosa. A voz da selvajaria está no centro da decisão política e a contaminar as instituições”, lê-se em outro texto que acompanha o anúncio da candidatura.

“Apresento a minha candidatura presidencial com estas urgências. Uma candidatura inspirada na nossa força solidária, que faz pontes, que ouve e aprende com quem constrói Portugal todos os dias. E, claro, com a combatividade da mulher que sou. A minha candidatura coloca no centro o cuidado. Quero cuidar da democracia, cuidar dos bens comuns, cuidar da Paz. Cuidar da igualdade e da liberdade. Juntar as forças para devolver a confiança da democracia”.