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FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

O tubarão, a soberanista e a life coach que quer um Quinto Império. Os 11 pré-candidatos a Belém que não aparecem nas sondagens

Entre ideias criativas, teorias da conspiração e propostas mais sérias há uma segunda linha de onze pré-candidatos à procura de mediatismo e de algo quase tão difícil: atingir 7.500 assinaturas.

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A seis meses das eleições não faltam pré-candidatos a Belém, embora se dividam em duas divisões mediáticas. Se a primeira tem nomes que aparecem todos os dias na imprensa — como são exemplo Gouveia e Melo, Marques Mendes ou António José Seguro — há uma segunda linha de candidatos que não aparecem nas sondagens e que reivindicam espaço mediático. São onze os cidadãos que lançaram candidaturas presidenciais e já estão no terreno para recolher as assinaturas necessárias para participarem nas Presidenciais. O Observador falou com todos.

Como lembra um desses candidatos, até serem entregues as 7.500 assinaturas ao Tribunal Constitucional (até 30 dias antes da eleição) todos os membros desta lista estão formalmente no mesmo estatuto (de pré-candidatos) que os mais mediáticos e favoritos. Entre os onze candidatos ouvidos pelo Observador, figuram alguns que, à partida, terão mais facilidade em chegar à meta de assinaturas que lhes permita ir a votos. Há quem tenha apoios de estruturas partidárias como Joana Amaral Dias, do ADN, ou José Cardoso, do Partido Liberal Social e outros como o antigo participante no programa Shark Tank Tim Vieira ou o madeirense Raul Perestrello, que, sendo empresários de sucesso, terão mais facilidade em financiar equipas que tratem da recolha das assinaturas.

Outros candidatos podem, por outro lado, servir-se da experiência ou do mediatismo alcançado em eleições anteriores para garantirem os 7.500 subscritores. Entre esses, Tino de Rans é o único que chegou a disputar uma primeira volta no passado, mas há outros como a música e pedagoga Manuela Magno, o antigo militante do CDS e agora radialista Orlando Cruz ou o protagonista do buzinão na ponte 25 de Abril Aristides Teixeira. Além destes, também anunciaram a candidatura o sindicalista André Pestana e a life coach Angela Maryah. Por fim, há mais um militar aposentado que quer ser Presidente: Pedro Tinoco de Faria.

Tim Vieira. O tubarão que quer mudar o mindset português

Nascido em 1975 numa família portuguesa emigrada em Joanesburgo, Timothy Vieira ganhou popularidade em Portugal com a sua participação no programa Shark Tank. Essa passagem pela televisão, em 2015, levou o tubarão a participar em empreendimentos com vários empresários nacionais e resultou na criação de uma associação sem fins lucrativos, a “BeBrave”, para apoiar ideias de negócios inovadoras à procura de financiamento.

A carreira de Tim Vieira como empresário começou logo aos 18 anos, ainda na África do Sul, com a criação de uma cervejaria independente. Depois de uma passagem por Angola,  estabeleceu-se em Portugal e, atualmente com 50 anos, tem investimentos nos setores da agricultura, tecnologias de informação, recursos humanos e da produção audiovisual, aos quais se somam projetos na área da educação e consumo. Entre os nomes que se propuseram até agora a Belém, foi o primeiro a lançar oficialmente a candidatura presidencial, ainda em 2023. “A minha vida sempre foi de criar valor, foi sempre de dar mais do que eu recebo e acho que como Presidente é isso mesmo que quero fazer.”

O processo de recolha de assinaturas “já passou de metade”, sendo que a candidatura de Tim Vieira estabeleceu o objetivo de chegar às 10 mil assinaturas, número que pensa atingir “sem nenhum problema”. Ainda sobre as assinaturas, lamenta que o processo digital no novo portal da candidatura seja “super difícil”, sendo que, diz, apenas 5% de todas as assinaturas propostas são válidas. A ineficácia do portal pode ser vista como a tradução para a política das dificuldades que Tim Vieira encontra no mercado português. “Hoje em dia parece que se tu tiveres iniciativa e quiseres crescer é quase super difícil. Tens logo uma corda à volta do pescoço.”

“Nós pagamos impostos, não recebemos serviços por isso, não recebemos responsabilidade por nada. A saúde, a educação pública, a justiça não funcionam”, defende Tim Vieira. Assumindo uma candidatura vinda de fora da política partidária, o empresário lembra uma expressão inglesa (uma das suas línguas maternas) que capta bem aquilo que vê em falta nos políticos portugueses: accountability. “É promessas e depois não executam“, acrescenta. Em relação ao atual Presidente, Tim Vieira acredita que, no início “Marcelo Rebelo de Sousa tinha uma presidência para inspirar Portugal”, mas “no fim começou a olhar muito para a trás e não para a frente”.

É aí que o empresário natural da África do Sul quer ser diferente: “Gostava de ser um presidente positivo, um presidente que pensava para o futuro, não para andarmos a pensar para trás”. Seria com esse “mindset novo” que conseguiríamos ter Portugal “a acreditar que também pode competir mundialmente e que consegue ser um bom sítio para trabalharmos”, defende Tim Vieira. “Uma mentalidade em que a gente começa a ter esperança”, sugere.

Para tal, sugere mobilizar a sociedade, desejando nomeadamente que “os meios de comunicações se foquem nas coisas que são mesmo importantes para os portugueses”, mas tem igualmente medidas concretas para a sua magistratura. Tim Vieira gostaria de promover a utilização mais assídua do referendo para “ouvir a voz dos portugueses”, lembrando que na história de Portugal só foram realizados quatro, enquanto na Suíça o valor ultrapassa os 600.  Quer também “ter um Conselho de Estado diferente, com pessoas diferentes”, no qual, em vez de mais políticos, o Presidente da República se aconselha com pessoas “que têm Portugal no coração, que conseguem também pensar diferente e que já provaram que tiveram sucesso”.

Avaliando os seus adversários na corrida a Belém diz apenas ver “candidatos que já tiveram as suas oportunidades”. Questionado sobre o facto de Gouveia e Melo também propor uma candidatura independente, responde com os apoios de políticos ligados ao PSD e alegadamente da “maçonaria” que o candidato presidencial tem. “Sempre foi alguém que viveu do Estado, sempre foi alguém que respondeu ao Estado, é muito diferente de mim. Eu sempre fui a pessoa que paguei a ele. Com os meus impostos, eu paguei o salário dele“, concretiza.

Manuela Magno. A académica que quer afinar a orquestra

Ação em vez de resignação, realismo em vez de populismo, empatia em vez de egotismo, pedagogia em vez de demagogia e alegria em vez de amargura. Estas são as cinco propostas orientadoras da candidatura presidencial de Manuela Magno, que teve uma carreira internacional como música e professora universitária. A candidata de 71 anos já tinha tentado disputar a corrida presidencial em 2006, porém, o objetivo foi travado pelo Tribunal Constitucional (TC) devido a irregularidades. De acordo com Magno, o tribunal justificou a decisão com o facto de 900 das 8200 assinaturas entregues não estarem agrafadas à certidão do eleitor.

O caso chegou a ser levado pela candidata ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, mas toda a frustração com esse processo não a impediu de se propor ao escrutínio novamente. Desta vez, Manuela Magno diz estar “confiante” na recolha das 7.500 assinaturas necessárias e assinala que a estreia do portal da candidatura digital é uma melhoria que tem ajudado a aproximar-se da meta. Esta é a segunda vez que procura constar no boletim de voto de umas presidenciais, mas o seu envolvimento em outras eleições tem um historial maior.

Em 2024, aceitou ser mandatária nacional da campanha do partido Volt para as eleições europeias. Antes, tinha sido candidata independente nas europeias de 2009, integrando as listas do Partido Humanista. Foi também cabeça de lista em Aveiro da coligação entre o Partido Humanista e o Partido da Terra, nas eleições legislativas do mesmo ano. Em nenhuma destas ocasiões foi eleita. Tal como faz o Volt —  partido do qual diz que deixará de ser aderente quando chegar ao número necessário de assinaturas — rejeita associar-se aos “rótulos” de esquerda e direita. “Coloco-me no espetro da ética, do humanismo, da transparência, do diálogo e participação cidadã”, afirma.

Justificando a confiança nas possibilidades da candidatura, Manuela Magno começa por dizer que “ao nível académico está muitíssimo bem preparada”. Magno fez uma licenciatura em Física Nuclear na Universidade de Lisboa e tem dois mestrados e um doutoramento nas áreas da música e da educação, realizados na Universidade de Columbia, nos EUA. Foi nesse país que se especializou em direção de orquestra, experiência que considera que lhe deu as competências que são necessárias para ser Presidente. “Quando uma pessoa dirige uma orquestra tem na sua frente 80, 60, 50 músicos, cada um com a sua personalidade. O mais interessante é que o maestro vai fazer com que cada umas daquelas pessoas com as suas ambições vão trabalhar para um objetivo comum que é a música que se está a fazer.”

Como lema para a campanha eleitoral, escolheu “Cidadania ativa por Portugal na Europa e no Mundo”, juntando duas das suas principais ideias: cada cidadão tem “deveres de participação que devem ser incentivados pelo Presidente da República” e que o país deve aprofundar algumas das suas relações geopolítica, admitindo, por exemplo, que “gostaria de ver uma União Europeia reforçada”.

Contrariando as posições assumidas por outros candidatos, Manuela Magno rejeita a necessidade de aumentar o peso do Presidente no sistema político porque acredita que a Constituição já dá “imenso poder” ao mais alto magistrado da nação — especialmente “o poder da palavra”. A professora universitária assinala, no entanto, que é imperativo “não desbaratar nem esbanjar” essa capacidade — algo que considera que Marcelo Rebelo de Sousa fez durante os seus anos em Belém. Quanto aos dois mandatos do ainda Presidente, afirma que este podia ter realizado “mais intervenção cívica” e critica a dissolução da Assembleia da República, em 2023, depois da demissão do então primeiro-ministro António Costa.

Para poder ser quem substitui Marcelo como Presidente, a candidata quer fazer uma “campanha pela positiva”. Ainda assim, diz que “não entende” a candidatura de um dos seus adversários. Sem se referir explicitamente ao nome de Henrique Gouveia e Melo diz: “Não quero alguém que venha pôr ordem na casa, não estou interessada”. Sobre os restantes candidatos já anunciados, diz acreditar que estes são “bem intencionados”, mas admite que vê neles “pouco carisma”.

A eleição de Manuela Magno, ou de qualquer outra candidata mulher, seria inédita. Fazendo nota de que nunca participou em movimentos feministas, a candidata assume que “as mulheres precisam de aparecer mais na política”. Não só por ser mulher, mas também pelo currículo que tem, a universitária acredita que a sua eleição para Belém teria um impacto internacional. “Seria um sinal que este país, aqui na ponta da Europa, decidiu que eleger alguém que não está na linha de candidatos que foram eleitos sempre, excluindo Ramalho Eanes”. Aos 71 anos, Manuela Magno está oficialmente reformada, mas continua a dar aulas de música e a ter uma vida “muito ativa”. Conta que, quando pode, continua a ir esquiar na neve com outros amigos septuagenários.

Joana Amaral Dias. A soberanista que promete uma torrente de transformação

Joana Amaral Dias do ADN apresenta a sua candidatura à presidência da República no 1.º Arraial Alternativa Democrática Nacional (ADN) para celebrar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em Lisboa, 10 de junho de 2025.  TIAGO PETINGA/LUSA

TIAGO PETINGA/LUSA

Depois de ter entrado na Assembleia da República em 2002, em representação do Bloco de Esquerda, a carreira política de Joana Amaral Dias contou com passagens por vários movimentos políticos (Juntos Podemos, Nós Cidadãos, AGIR) e com candidaturas em eleições legislativas, europeias e autárquicas sem que tenha sido alguma vez eleita. Desta vez, o novo desafio para a psicóloga clínica de 52 anos são as Presidenciais, nas quais terá o apoio do ADN.

Com Amaral Dias como cabeça de lista, o partido teve nas últimas eleições europeias 54 mil votos (mais seis mil do que o PAN) e nas legislativas de maio a ex-bloquista esteve próxima do regresso ao Parlamento. O ADN teve cerca de 1,3% dos votos (apenas a cinco mil do PAN) e esteve perto de conseguir eleger a sua cabeça de lista em Lisboa. Agora, com as presidenciais no horizonte, Joana Amaral Dias espera vir a contar para as contas da corrida a Belém. Ao Observador, afirma que se a comunicação social deixar de cobrir as suas campanhas de forma “antidemocrática” vai disputar o primeiro lugar: “Estou certa que passarei à segunda volta”.

A recolha de assinaturas para a candidatura já está em curso e Joana Amaral Dias afirma que vai certamente recolher bem mais do que as 7.500 necessárias. Além do ADN, a psicóloga diz ter o patrocínio de “associações cívicas” e avança que, “provavelmente, a seu tempo, serão anunciados novos apoios partidários“. Para justificar a sua candidatura, distancia-se dos outros candidatos que acusa de parecerem ser meros “gestores do status quo”. “Sou a única pessoa que se apresentou como candidata que tem um projeto político para o país”, afirma.

A primeira bandeira da sua candidatura prende-se com o tema da soberania nacional. “Portugal neste momento está refém, está sequestrado por interesses e instituições supranacionais não eleitas (que vão desde a OMS à própria União Europeia) e abdicou da sua autonomia e independência.” Aliás, Joana Amaral Dias defende que desde o início do século que os rótulos de esquerda e direita “deixaram de fazer sentido” e prefere situar-se noutros binómios, nomeadamente como soberanista (no extremo oposto dos globalistas). Nesse aspeto, é especialmente crítica da UE que acusa de ter “embarcado num vórtex belicista”.

Para a saúde, a psicóloga clínica diz ter uma posição diferente do “discurso estafado de salvar o SNS”. De acordo com Joana Amaral Dias, as grandes indústrias, nomeadamente a farmacêutica, “tomaram conta da saúde e não se faz promoção de estilos de vida saudáveis”. Assim, no sentido de quebrar “o círculo vicioso de medicação e perpetuação da doença”, propõe que cada cidadão português “seja o próprio gestor de saúde”. No cenário de boa aplicação da sua proposta, Joana Amaral Dias prevê que “no limite, quase deixávamos de precisar de ter SNS”. Para mostrar a importância que dá à questão da saúde, assinala que terá como mandatário da sua candidatura Manuel Pinto Coelho, o polémico guru que chegou a ser próximo de figuras como Rui Rio e Pedro Santana Lopes.

No caso de ser eleita, a candidata começaria por aplicar logo no Palácio de Belém outra das suas bandeiras: o combate ao despesismo de dinheiro público e ao que considera ser uma “corrupção de Estado“. Joana Amaral Dias assinala que a Casa da Presidência Portuguesa gasta 11 vezes mais fundos públicos por contribuinte do que a Casa Real espanhola, informação confirmada em diversos fact checks. Concedendo que a Presidência da República não é um cargo executivo, a antiga deputada do Bloco de Esquerda explica que faria por promover o seu projeto político aproveitando a influência  do Presidente sobre o Governo e os outros órgãos de soberania. O Presidente tem “poderes suficientes” , diz, sendo que se forem bem usados, “são bastantes para causar uma torrente de transformação magna”.

Joana Amaral Dias faz também uma avaliação “muito crítica” dos quase 10 anos de funções do atual Presidente: “Marcelo Rebelo de Sousa esteve sempre mais interessado na sua popularidade do que propriamente naquilo que é o bem-estar dos portugueses.” E lembra que, durante a primeira campanha presidencial, Marcelo avançou um plano para que Portugal deixasse de ter pessoas a viver na rua. “A verdade é que Portugal tem agora mais sem-abrigo do que alguma vez teve”, afirma Joana Amaral Dias. A candidata apoiada pelo ADN vai mais longe e acusa Marcelo Rebelo de Sousa de fazer parte do “conjunto de líderes políticos que se aproxima da traição à pátria, devido à entrega da nossa soberania, em bandeja de ouro, a interesses estrangeiros”.

André Pestana. O sindicalista que quer representar uma “esquerda diferente”

André Pestana reeleito em eleições que direção do sindicato Stop considera ilegais

LUÍS FORRA/LUSA

Após ter sido desafiado por 50 ativistas de diferentes áreas, o coordenador nacional do Sindicato de Todos os Profissionais de Educação (S.T.O.P.), André Pestana, anunciou em dezembro a sua candidatura presidencial. O professor de 48 anos tem um doutoramento em Biologia que o levou a fazer uma investigação científica na Amazónia. Ganhou destaque nacional depois de ter liderado uma série de greves no ano letivo de 2022/2023, no que considera ser “a maior luta em defesa da Escola Pública” em Portugal. O candidato diz ao Observador que já ultrapassou as cinco mil assinaturas (dois terços das 7.500 necessárias) e acredita ser possível ir a votos “se continuar a ajuda de tantos trabalhadores que abraçaram a sua candidatura”.

André Pestana afirma que tem, desde a sua adolescência, sido um cidadão ativo na “intervenção política, associativa e nos movimentos sociais contra injustiças”. Depois de passagens pela Juventude Comunista e pelo Bloco de Esquerda, o sindicalista foi um dos fundadores do Movimento Alternativa Socialista (MAS) que acabaria por deixar (num processo em que foi acusado de sequestrar o partido) após 10 anos como militante. Agora, sem apoios partidários candidata-se a chefe de Estado, porque acredita que, num contexto de crescente desigualdade no país e no mundo, “é necessário um Presidente da República que não se cale e que esteja ao lado de quem trabalha, dos injustiçados e na defesa do Planeta”.

O sindicalista quer representar “uma candidatura anti-sistema que rejeita as políticas injustas dos governos que temos tido (do PSD/CDS até ao PS incluindo a geringonça), mas também contra a extrema-direita que só pretende, apesar das narrativas, aprofundar ainda mais as injustiças e as opressões”. Pestana esclarece que o movimento que encabeça vem de “uma esquerda diferente da esquerda associada aos governos PS (ou da geringonça) ou da esquerda que apoiou regimes ditatoriais de partido único”. Com um movimento que pretende estar assente numa base popular, o professor diz que “não pactua com os privilégios e mordomias” do sistema político.

Tendo em conta os restantes candidatos presidenciais já anunciados, André Pestana acredita que será o único a concorrer a Belém que teve a experiência de ser um trabalhador precário. Ao Observador, conta que começou a trabalhar em 2001 e só em 2023 passou a ser professor do quatro, sendo que esteve vários anos a trabalhar com horários e salários incompletos. André Pestana lembra que teve um papel importante na luta sindical contra a precariedade no setor da educação que culminou, no verão passado, na recuperação do tempo de serviço docente, acordada entre Governo e sindicatos, após o primeiro-ministro tinha dito que esse cenário era “insustentável”. “Essa luta influenciou também positivamente outros trabalhadores de outros sectores a lutarem também de forma mais democrática e consequente, e como questionou poderosos interesses instalados, fui intensamente caluniado”, afirma.

Quanto aos dois mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa em Belém, Pestana acusa o Presidente de se ter calado perante os “graves ataques” ao direito à greve e os lucros recorde registados pelos bancos no ano passado. O sindicalista critica também a posição de Marcelo em relação ao genocídio em Gaza e ao aumento da despesa em defesa, num contexto em que há “milhões de pessoas com salários e reformas insuficientes para viver com a mínima dignidade”. Ao contrário de outros candidatos, para André Pestana a questão do aumento dos poderes presidenciais não está na ordem do dia. “O poder do Presidente da República é suficiente se mudarmos o tipo de Presidente da República que temos tido. Os que temos tido fazem parte e defendem o sistema e os resultados estão à vista”, acusa.

Raul Perestrello. O empresário madeirense que fabricava metais preciosos na Austrália

Raul Perestrello é um madeirense de gema que está de volta à sua terra natal depois de ter passado mais de metade da vida fora do arquipélago. O empresário de 61 anos nasceu na cidade do Manchico e tem raízes familiares que remontam a Bartolomeu Perestrelo, um dos primeiros povoadores da ilha da Madeira. Aos 20 anos, partiu de casa e, após uma longa viagem pelo continente africano, voltaria a estabelecer-se noutro território insular: a Austrália. No país continental da Oceania, o madeirense viveu 30 anos, constituiu família e lançou-se na indústria dos metais preciosos.

“A minha atividade englobava a fabricação de joias finas, a sua distribuição grossista a grandes grupos de retalho com centenas de lojas, assim como o comércio direto, incluindo lojas familiares e designers individuais”, explica na página da sua candidatura. Depois de ter concluído uma licenciatura em Engenharia Elétrica, Raul Perestrello e a família fundaram “uma das maiores fábricas de joalharia fina em Brisbane, produzindo mensalmente mais de 30 000 peças de joias em metais preciosos”, diz sobre a empresa que chegou a ser uma das três maiores produtoras deste tipo de metais naquele país.

Contudo, o candidato assume que a sua “grande paixão” sempre foi o mercado imobiliário. Em Portugal, o madeirense realizou investimentos nas áreas da hotelaria e do alojamento local. Esse regresso ao país natal — que Perestrello justifica com “o desejo de trazer todo o conhecimento e as ideias que possam valorizar o país” — acabou por motivar a candidatura presidencial. E espera que o seu trunfo nessa eleição seja o seu percurso no mundo dos negócios. “Trarei toda esta experiência, esta visão e esta vontade de fazer acontecer para a vida pública, para melhor servir Portugal e os portugueses”, afirma em resposta enviada ao Observador.

Neste momento, a candidatura do madeirense está a realizar o processo de recolha, garantindo que terá “seguramente as assinaturas necessárias” para ir a votos. Perestrello concede que parte “com a desvantagem de ser desconhecido da maioria dos eleitores” e reconhece que lhe será apontada “falta de experiência política”, mas acredita que poderá compensar com a sua experiência de vida e profissional. O candidato explica que a razão para ter emigrado não foi necessidade de o fazer, mas “porque queria crescer mais“. Após mais de três décadas como empresário, o madeirense diz saber o que é “criar emprego, enfrentar crises, gerir recursos e tomar decisões difíceis”.

Raul Perestrello considera que o “grande diferencial” da sua candidatura é nunca ter estado ligado a cargos políticos ou institucionais. Reconhecendo que o cenário geopolítico está a mudar, defende que “precisamos de soluções e alternativas de liderança assentes em modelos e pessoas diferentes do que têm sido o mainstream das últimas décadas”. Assim, o madeirense assume querer falar como todos os portugueses, independentemente da sua cor partidária, e exclui ser de esquerda ou de direita. “Pretendo ser um Presidente que colabora e cria pontes entre todos os partidos e com toda a população”.

Ainda assim, Perestrello revela que acredita nos “valores da social-democracia, bem como nos valores cristãos e da família” e que não se revê nos partidos que “se situam nos extremos do espectro político”. Não excluindo para já aceitar um potencial apoio partidário, o candidato diz que quer dar “um passo de cada vez” e está focado a dar-se a conhecer. Ao comparar-se a Marcelo Rebelo de Sousa, Raul Perestrello diz ser a favor de “uma Presidência um pouco mais intervencionista, dentro dos limites constitucionais”. O candidato sugere que o próximo chefe de Estado poderá ter esse papel reforçado nomeadamente através da promoção de “pactos nacionais alargados em matérias fundamentais”.

Sobre uma eventual declaração de apoio a outro candidato numa segunda volta das presidenciais, Perestrello rejeita abordar o tema nesta fase: “Estou nesta candidatura até ao fim e acredito que tenho condições para ser o próximo Presidente da República.”

Orlando Cruz. O candidato que lançou candidatura num restaurante chinês

Foi num restaurante chinês que Orlando Cruz lançou pela quinta vez uma candidatura à Presidência da República. O antigo militante do CDS apresenta-se desta vez como diretor da Rádio Esperança Popular, depois de experiências como taxista, camionista e dono de dois restaurantes e um minimercado. O candidato de 73 anos, que, ao longo de toda a vida, foi proprietário de 459 carros e 63 motas, estima que terá sido das poucas pessoas no mundo que foi candidato a cargos políticos em três países: Portugal, Espanha e Brasil.

Para esta nova candidatura presidencial, assume como uma das suas principais bandeiras a defesa da classe jornalística, depois de ter fundado uma rádio online dedicada às forças de segurança, forças armadas, ex-combatentes e funcionários públicos. Orlando Cruz diz que até agora recolheu 2.ooo assinaturas, mas queixa-se da excessiva burocracia que o processo para a formalização da candidatura implica — apesar das quatro candidaturas anteriores, nunca chegou a constar no boletim de voto. “Vou tentar, se não conseguir, pelo menos expresso filosoficamente o que penso do meu país”.

Além das várias candidaturas à Presidência, Orlando Cruz tem um longo currículo político como candidato autárquico e militante de partidos como o CDS, o PTP, o Chega, o Ergue-te e agora o ADN. Sobre esta militância: o partido tem dois militantes candidatos a Presidente, mas Joana Amaral Dias é a única apoiada oficialmente. Nas eleições autárquicas de 2021, foi o candidato do Chega a liderar a freguesia de Ribeira do Douro. Conta que, durante um evento de campanha do partido, interpelou André Ventura para lhe dizer “algumas verdades” e que o presidente do Chega o expulsou do jantar em questão. Anteriormente já tinha entrado em confronto com os líderes de outro partidos que representava. Após ter sido pressionado pelo Partido Portugal Pró Vida/Cidadania e Democracia Cristã (PPV/CDC) a defender posições publicamente posições anti-aborto, homofóbicas e contra as barrigas de aluguer, Orlando Cruz marcou uma conferência de imprensa a desvincular-se do partido quando era seu candidato. “É por isso que se calhar nunca vou ser eleito, porque eu penso pela minha cabeça.”

O candidato mostra-se altamente crítico do papel atual do Presidente da República. “O Presidente da República é uma jarra que não está a fazer nada. Está a ganhar o seu ordenado e não tem poder nenhum.” Propõe, então, uma alteração da Constituição para que o Presidente possa “pôr os partidos em ordem” e cumprir o seu papel como “garante da democracia”. Além disso, propõe uma alteração à lei do financiamento dos partidos para combater um dos problemas que marcou o último mandato presidencial. “No dia em que os partidos políticos tiverem que pagar do bolso deles e dos militantes as campanhas eleitorais acabou-se o votar abaixo dos governos.”

Orlando Cruz afirma ter muita estima por Marcelo Rebelo de Sousa e conta que, nas últimas duas eleições, desistiu da corrida a favor dele. “É um homem que defende os direitos humanos, é um homem que tem pensamentos muito parecidos com os meus”. Contudo, critica o atual presidente por se ter “agarrado a bandidos” e não dar a devida atenção às forças de segurança.

Há outras posições assumidas publicamente pelo Presidente que não acompanha. “O Marcelo vir da televisão dizer que Portugal devia indemnizar os países africanos, Angola, Guiné… Eu estive na Guiné, eu estive na Angola como militar. Nós construímos casas, nós transformámos Angola em cidades bonitas e ele vem dizer que nós temos que indemnizá-los, em vez de falar nos retornados que vieram todos com uma mão atrás e outra à frente”. Apesar destes reparos (e do caso das gémeas que “caiu um bocadinho mal”), Orlando Cruz considera que Marcelo “foi um bom Presidente”. Sobre os restantes candidatos às eleições, considera que o Henrique Gouveia e Melo “parece estar mal preparado” e, quanto a Luís Marques Mendes e António José Seguro, diz ponderar apoiar qualquer um dos dois, sendo que ambos são “pessoas muito sérias”.

Tino de Rans. O político amado que se diz gamado pelo sistema

O presidente do Reagir Incluir Reciclar (RIR), Vitorino Silva (Tino de Rans), em entrevista à Lusa, na sede da agência, em Lisboa, 10 de janeiro de 2022. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 11 DE JANEIRO DE 2022). JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

LUSA

Se André Ventura decidir acabar por deixar cair a sua candidatura, Vitorino Silva deverá ser o único candidato com experiência a figurar no boletim de voto das próximas eleições presidenciais. Depois de ter conseguido 152 mil votos (3,3%) em 2016 e 123 mil (2.8%) em 2021, Tino de Rans vai avançar para uma terceira candidatura presidencial, segundo confirmou o próprio ao Observador. O calceteiro de 54 anos desistiu recentemente da sua candidatura à Câmara do Porto, tendo manifestado o seu apoio ao candidato do PS Manuel Pizarro, e já começou o processo de recolher de assinaturas. “Eu sou muito forte no terreno, vou precisar de 7.500, mas tenho que ter 10.000 ou 11.000″, disse.

Em entrevista ao Observador, o antigo presidente da Junta de Freguesia de Rans, em Penafiel, é muito crítico da cobertura que a comunicação social tem feito das suas candidaturas presidenciais. “Nunca me puseram nas sondagens. Puseram, este tempo todo, pessoas nas sondagens que não vão ser candidatos. O António Vitorino, o Santos Silva, o Guterres, o Passos Coelho. Desta vez, tenho quase a certeza que eles vão cair na real e vão ter que pôr o Vitorino Silva”, afirma o fundador do partido RIR. “Sou um político amado, mas muito gamado pelo sistema.” De qualquer maneira, o candidato mostra confiante que terá “muito mais votos” nas eleições presidenciais de 2026. “Tenho a certeza que posso ficar ali a fazer tudo por tudo ir à segunda volta”, diz.

A principal medida apresentada por agora pelo candidato presidencial é a adoção de uma nova postura do chefe de Estado português com os seus homólogos, considerando importante “deixar de lamber as botas a muitos líderes mundiais só para aparecer”. As críticas são dirigidas a Marcelo Rebelo de Sousa, que Vitorino Silva acusa de plágio em relação a algumas das suas iniciativas de campanha. Tino diz ter sido o primeiro a propor abrir as portas do Palácio de Belém, algo que o atual Presidente fez com iniciativas como a Feira do Livro nos jardins dos seus aposentos oficiais. O candidato diz também que foi também “o primeiro político a olhar com olhos de ver um sem-abrigo”, lembrando a vez, numa campanha presidencial, em que dormiu com um — no dia mais frio do ano com as temperaturas a descer aos cinco graus negativos.

De momento, o candidato presidencial não quer avançar com mais ideias-chave da sua candidatura. Quanto aos seus adversários na corrida a Belém, Tino de Rans, que foi militante socialista e se define como “um homem de esquerda às direitas”, apenas comenta a candidatura de António José Seguro. “O Tó Zé Seguro teve 10 anos desaparecido, eu nunca desapareci do povo português”, diz. Avança ainda que esta terceira campanha presidencial “vai ser muito diferente” das anterior. O mote da sua candidatura é “Portugal não está a ver o filme” e nela Vitorino Silva vai tentar uma estratégia eleitoral que diz ser “talvez única no mundo”. Passa por publicar uma série de oito episódios nas redes sociais, em que o candidato explica o seu programa, não ficando dependente dos meios de comunicação tradicionais para difundir a sua mensagem.

Aristides Teixeira. O protagonista do buzinão na 25 de Abril que se sente envergonhado pela esquerda

Aristides Teixeira apresenta a sua candidatura à Presidência da República "motivado e inspirado" pelo exemplo de Barak Obama, Lisboa, 20 de novembro de 2008.  JOSE SENA GOULAO/LUSA

JOSE SENA GOULAO/LUSA

O nome de Aristides Teixeira está intimamente ligado à luta pelo fim das portagens na Ponte 25 de Abril. O candidato presidencial de 65 anos foi um dos principais rostos do buzinão de 1994 contra o aumento da tarifa nas portagens, acontecimento que marcou os últimos anos de Aníbal Cavaco Silva como primeiro-ministro. O presidente da Associação dos Utentes da Ponte 25 de Abril, que é membro da direção de produção da RTP (onde também foi apresentador televisivo), procura, à terceira tentativa, conseguir as 7.500 assinaturas para oficializar a candidatura a Belém.

Aristides Teixeira diz ao Observador que se distingue dos outros candidatos porque se tem “batido por causas e não por políticas partidárias“. O candidato rejeita que a sua associação às lutas que protagonizou na ponte 25 de Abril façam com que a sua candidatura não tenha uma abrangência nacional. “O problema de cada cidadão é um problema nacional, mas devo dizer que pessoas de outras zonas do país, elas manifestam indignação pela existência das portagens na ponte Vasco da Gama e na ponte 25 de Abril”.

Depois de ter participado em combates políticos que “eram apoiados por toda a esquerda”, o candidato diz que recentemente tem visto “posturas de partidos de esquerda que me envergonham e posturas de partidos de direita das quais fico surpreendido, mas pela positiva”.  Um das bandeiras da sua candidatura prende-se com a revisão do direito à greve, nomeadamente pelos funcionários dos transportes públicos. “Os sindicatos, as comissões de trabalhadores têm afetado de uma forma excessiva e invasiva o direito das pessoas a irem trabalhar e, portanto, o direito à greve termina quando começa o direito a ir trabalhar, a ir estudar do nosso concidadão”, defende.

Nesse aspeto, uma medida que quer ver aplicada é a instituição automática de serviços mínimos de 40% em dias de greve nos transportes públicos, propondo igualmente que nestes dias a presença no local de trabalho seja obrigatória. Uma última bandeira da sua campanha é a imigração, sendo a favor de interditar a entrada de mais imigrantes em Portugal. Aristides defende que os imigrantes que estão no país para trabalhar são “bem-vindos”, mas critica a imigração que contribuiu para “criar mais um quadro de miséria”.

Sobre Marcelo Rebelo de Sousa, o candidato diz que o atual Presidente “marcou uma grande diferença em reação à atitude para com os eleitores”, por ser “afável” com portugueses, e destaca o “papel muito importante que teve perante tragédias que assolaram o país”. Por outro lado, critica-o pela sua ligação ao PSD e por recentemente “fazer elogios a Luís Montenegro sem qualquer pudor”. Aristides Teixeira critica ainda Marcelo por ter sido omisso em relação ao aumento dos preços, nomeadamente dos combustíveis, sob os quais considera que o Governo mantém um “imposto ganancioso“.

Aristides Teixeira considera-se em pé de igualdade com todos os outros candidatos presidenciais, sendo que ainda nenhum entregou as assinaturas necessárias. Assumindo que o processo da sua recolha é complexo, conta que recentemente teve um “pequeno rombo“, porque sete dos seus colaboradores mais próximos deixaram de contribuir para a sua candidatura para apoiar António José Seguro, que sentiam ter mais hipóteses de chegar à segunda volta. O candidato espera que seja possível que o seu nome apareça no boletim de voto, mas reconhece que “vivemos numa partidocracia”, em que é difícil aos independentes terem sucesso eleitoral.

José Cardoso. O liberal social que procura preencher um vazio

O presidente do Partido Liberal Social (PLS), José Cardoso, posa para a fotografia durante uma entrevista à Agência Lusa, em Lisboa, 02 de maio de 2025. (ACOMPANHA TEXTO DE 05 DE MAIO DE 2025). ANTÓNIO COTRIM/LUSA

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Em menos de quatro meses de existência, o Partido Liberal Social (PLS) está envolvido na sua segunda candidatura eleitoral. Depois de ter sido registado como partido pelo Tribunal Constitucional no dia 11 de março, o PLS apresentou candidaturas para os círculos eleitorais de Lisboa, Porto, Setúbal, Europa e Fora da Europa, nas legislativas de maio. Agora, o partido já está no terreno para garantir que o seu líder, José Cardoso, volta a ter resposta afirmativa do TC, desta vez para se poder tornar candidato à Presidência da República.

Ao Observador, Cardoso diz que já reuniu “cerca de 4.000 assinaturas” e mostrou confiança na capacidade de atingir as 7.500 necessárias para poder constar no boletim de voto da primeira ronda das eleições. O candidato afirma que decidiu lançar-se na corrida a Belém porque, além de considerar que conhece bem o país, tem “experiência académica, profissional e política” e o “sentido de responsabilidade necessário para dignificar o cargo”.

A candidatura será certamente também uma forma de atrair atenção para a nova força política que lidera. Depois de ter deixado a Iniciativa Liberal por não considerar que o partido não aplica internamente as políticas que defende. Nas últimas legislativas, o novo partido do antigo conselheiro nacional e candidato à liderança da IL teve um bom primeiro passo no distrito do Porto, com mais de 3.500 votos — ainda que longe de influenciar as contas eleitorais. Mas na verdade, no total do país, o partido teve 7.322 votos, menos do que o número de assinaturas que seriam necessárias para ver a candidatura presidencial aprovada pelo TC.

Por agora, José Cardoso é a única cara minimamente conhecida do PLS. Depois de ter liderado a lista de Setúbal às legislativas, o presidente do partido será candidato presidencial, por considerar que há “um vazio cívico que precisa de ser preenchido”. O candidato, que tem experiência profissional sobretudo no digital e na área da comunicação, define-se como um “liberal social” e um “pragmático”. Cardoso afirma ser contra “autoritarismos, populismos e estatismos”. No entanto, não remete o PLS ao mesmo espaço político da IL: “Não cabe unicamente numa gaveta entre esquerda e direita”. O candidato defende que o Presidente deve ser “um moderador atento” e não “um espectador”. Se fosse eleito para o cargo, “procuraria catalisar compromissos entre partidos — como na reforma da justiça — que são urgentes e fundamentais”.

Na opinião de José Cardoso, a Presidência de Marcelo Rebelo de Sousa devia ter sido “menos mediática, mais discreta e exigente”, de modo a que se tornasse “menos dependente da popularidade e mais centrada na busca de compromissos”. Reconhecendo as qualidades do atual Presidente, o líder do PLS diz que Marcaelo “não pode ser apenas afável”, criticando-o diretamente por se perder na “gestão mediática dos assuntos, em detrimento da gestão das suas consequências”.

Angela Maryah. A life coach que vem de fora da matrix e quer liderar o Quinto Império

Se vários candidatos têm afirmado que são estranhos ao sistema político, Angela Maryah é, entre eles, aquela parece ir mais longe com a ideia. A life coach de 53 anos (que tinha à hora de saída deste artigo apenas 269 seguidores no Instagram) afirma que está “fora da matrix” da política partidária e vem com uma proposta focada na união dos portugueses: “A própria palavra de partido já diz que a coisa está partida”. A candidata natural de França e residente em Vila Nova de Gaia, que é licenciada em Gestão de Empresas, lançou-se na corrida para Belém porque considera que tem duas características que um Presidente deve ter: coragem e uma “personalidade matriarcal ou patriarcal”.

A autointitulada “Presidente pioneira” conta que foi uma das primeiras pessoas na Europa a especializar-se em “energia humana no trabalho e nas organizações” e assinala que foi também “a primeira coach a ser paga pelo Estado português, através de fundos europeus”. Sendo especialista em energia humana, Angela Maryah diz ser dotada de um “olhar cirúrgico e muito mais abrangente” do que um político normal.

A candidata não utiliza as referências comuns — esquerda, direita, centro — para situar o seu pensamento político. Propõe como alternativa um conceito fundado por si: a “política ‘filigrânica'”. A life coach utiliza a filigrana como metáfora do projeto que propõe para o país, porque esta técnica “funde, faz pontes e cria uma arte que aparentemente parece frágil, mas é altamente resistente, além de ter a sua beleza”. Nesse sentido, “a política ‘filigrânica’ é aquela precisamente que consegue unificar todo um tecido, por mais diferente que seja”, explica.

A decisão de se candidatar à Presidência partiu do “estado de urgência” que acredita que se vive em Portugal: “As pessoas estão a ficar demasiado desconectadas, estão demasiado focadas nos problemas em vez de estarem focadas na força da vida e nas soluções, na unificação e na defesa da nossa nação”. E Angela Maryah advoga que a defesa do país não pode passar só pelos militares. Como complemento propõe o ensino de técnicas de autodefesa a todos os alunos da escola pública, advogando que esta seria, por exemplo, “uma das maneiras é a violência doméstica descer drasticamente”.

A candidata presidencial diz ser uma das milhares de pessoas que já não vê televisão no dia a dia, porque sente que “a energia transmitida através da política é horrível”. Ainda assim, não deixa de querer ocupar o lugar de mais alta magistrada da nação. Em relação ao atual Presidente da República, reconhece “coisas boas e coisas menos boas”, mas rejeita comparar-se a Marcelo por assumir que tem “uma forma completamente diferente de estar”. Angela Maryah é uma das candidatas que é a favor de mais poderes políticos para quem ocupar o Chefe de Estado. Uma das medidas que defende é a possibilidade do Presidente poder decretar a realização de referendos populares sem necessidade de aprovação parlamentar.

Para sustentar o seu projeto político Angela Maryah tem uma proposta “inovadora”: um sistema digital em que “o eleitor passivo passa a ser um agente ativo”. Com esta ferramenta de governação popular qualquer cidadão poderia propôr medidas para a administração pública e participar em discussões e votações sobre outras propostas, sugere. A candidata natural de Gaia acreditada que esse pode ser o elemento fundador de um novo sistema político do qual seria a líder: o Quinto Império. Esta versão do projeto para o século XXI “não tem nada a ver com terrenos”, mas com a possibilidade do país se refundar com “o melhor de todos os portugueses”, explica. Ainda que esta seja em grande parte uma proposta espiritual, Angela Maryah assume que para a aplicar o funcionamento do nosso sistema político teria de ser revisto, porque atualmente “não vai buscar a melhor versão”, sem concretizar detalhadamente a ideia.

Por agora, a life coach admite que ainda tem poucas assinaturas, sendo que apenas decidiu entrar na corrida presidencial há pouco mais de duas semanas. Angela Maryah está confiante que verá os portugueses poderão votar no seu nome para ser a primeira Presidente mulher em Portugal, mesmo que seja numa eleição futura. “Vim para ficar, ou seja, não estou preocupada se é em 2026, em 2031, ou mais para a frente.”

Pedro Tinoco de Faria. O militar que não quer ser o Presidente de todos

Mesmo sem se conhecer ainda a decisão do Major-general Isidro de Morais Pereira, Henrique Gouveia e Melo sabe que não é o único militar na corrida a Belém. O tenente-coronel Pedro Tinoco de Faria lançou a sua candidatura presidencial que tem como lemas: “Não ser o Presidente de todos”. O militar aposentado de 63 anos está confiante na recolha das assinaturas necessárias e diz que passará nos próximos tempos em por todas as capitais de distrito do país para recolher apoios.

Pedro Tinoco de Faria  formou-se na Academia Militar e esteve 25 anos no Exército com passagem pelo Regimento dos Comandos, antes de fundar e liderar projetos na área da inteligência emocional. Como militar esteve destacado em vários cenários de conflito na Bósnia, no Kosovo, em Timor Leste e no Afeganistão, em representação da NATO e da ONU. A defesa dos guardas prisionais, agentes da polícia e outros membros das forças de segurança é uma bandeira central da sua campanha presidencial. Tinoco de Faria denuncia as “narrativas políticas” que fazem destes profissionais “demónios” e afirma que as forças armadas foram “completamente desmanteladas e destruídas”, desde o 25 de Abril.

Ao Observador, Tinoco de Faria conta que está a preparar um manifesto onde está a reunir as principais ideias das sua candidatura, entre as quais a abertura de um processo de revisão constitucional que teria como objetivo fazer uma transição do sistema político português para um regime presidencialista. Esta revisão da Constituição — documento que acredita que se tornou um “texto dogmático” — para aumentar os poderes presidenciais procura dar ao regime maior estabilidade governativa. O candidato assinala que em mais de meio século de democracia apenas seis Governos chegaram ao fim dos quatro anos previsto, acrescentando que nos regimes Presidencialistas o número é mais elevado. O militar aposentado propõe uma revisão da lei eleitoral, para criar círculos eleitorais uninominais e que o Presidente tenha a possibilidade de decretar a realização de referendos.

Por agora, também já disse que se for eleito prescinde do salário de Presidente da República, que doará para a Liga dos Combatentes, tendo como objetivo financiar o repatriamento de soldados da guerra do Ultramar, que diz que ainda estão nas antigas colónias portuguesas. Pedro Tinoco de Faria afirma igualmente que é contra a imunidade parlamentar dos deputados da Assembleia da República e contra a imunidade presidencial, assinalando que essa condição deu uma proteção que impediu o escrutínio de Marcelo Rebelo de Sousa aquando do caso das gémeas.

Sobre o ainda Presidente, o militar revela que votou em Marcelo Rebelo de Sousa em 2016, mas afirma que o Presidente “não soube desaparecer” e  “estragou tudo” no segundo mandato presidencial, perdendo “a noção do que é a sensatez”. Contribuíram para esta posição os comentários sobre as reparações histórias às ex-colónias portuguesas e a condecoração do Presidente a Amílcar Cabral, líder do movimento de independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, com a medalha da Ordem da Liberdade. O pai de Pedro era capitão paraquedista e morreu em combate na Guiné, durante a guerra do Ultramar. De acordo com o candidato presidencial, Cabral terá celebrado a morte do seu pai numa rádio guineense. Lembrando essa história, chama “traidor” a Marcelo e pergunta a razão para este não ter condecorado a sua mãe, que é viúva de guerra.

Pedro Tinoco de Faria manifesta o seu desagrado com a “anulação da História de Portugal” que considera ter apagado os períodos de “esplendor” do passado português e criado “uma demonização dos portugueses como criminosos nos seus períodos de descoberta e de expansão marítima”. Outras dos temas que dominam a narrativa do militar aposentado são a imigração que considera estar “descontrolada” e a dificuldade em dar condições aos jovens portugueses no território nacional. Pedro Tinoco de Faria critica também aquilo que considera ser um sistema que promove a “vitimização” dos criminosos e o “desprezo” pelas vítimas”. “O Presidente da República tem de ser a voz destas pessoas. Doa a quem doer. Fira a quem ferir”, disse num vídeo de apresentação da candidatura.

Pedro Tinoco de Faria critica a classe política portuguesa por ter feito pouco além de “espetáculo mediático” e acusa os anteriores Presidentes da República de não conseguirem “dissociar da vassalagem ao seu grupo político”. O militar também escreveu, em publicações nas suas redes sociais, que “a Revolução de Abril não trouxe liberdade, porque não trouxe educação” e que a “Constituição da República é um texto blindado para manter o povo calmo e ignorante, convencido de que sabe”. Nesse sentido, uma das suas propostas eleitorais é que a reintrodução do serviço militar obrigatório, mesmo que de curta duração para que todos os portugueses saibam “o que é o dever de defender a pátria”.

O militar é a favor da continuação da NATO, mas contra a criação de um Exército Europeu — uma das questões que assume como referendável. Contra a “vassalagem do federalismo europeu” e reclamando mais soberania para o país, o candidato diz que “deixámos de ter uma voz no mundo” e que, neste momento, “Portugal não é nada”. Pedro Tinoco de Faria também lembra a ideia do Quinto Império para dizer que “depois de termos de ter perdido o nosso império, resta-nos a ética”, defendendo que Portugal se pode refundar, numa altura em que considera que vivemos uma “crise ética e moral muito grande”.

O candidato revela que nas duas últimas eleições legislativas votou no Chega por entender que o partido “representa uma voz dissonante”. No entanto, diz que não pertence ao partido e que tem apoiantes de esquerda, de direita e até monárquicos, sem que se identificar com qualquer nenhuma dessas posições. “As ideologias não trazem pão para casa”, afirma. Pedro Tinoco de Faria assume que aceitaria um apoio partidário do Chega com “muita gratidão”, mas sabendo que “não há almoços grátis”, sublinha desde já que que “não tem nada para dar”.

O militar aposentado, que tem apostado numa campanha digital, explica por que é que não quer representar todos os portugueses. “Não me assiste essa hipocrisia partidária ou ideológica, não irei proteger criminosos de sangue ou delito comum, nem o nepotismo e clientelismo partidário, nem políticos que fazem da política um modo de vida e não de servir, nem corruptos, nem violadores, nem imigrantes que cometam crimes em Portugal ou venham tentar impor as suas religiões ou costumes…não, destes, não serei Presidente, nem indultos ou clemencias serão concedidas”, afirmou nas redes sociais.

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