“Fim da fome em Gaza. Estamos fechados em solidariedade.” A mensagem, escrita com as cores da bandeira da Palestina, estampava as montras das lojas Lush na última quinta-feira, 18 de setembro, dia em que a marca de cosméticos decidiu encerrar as suas lojas como manifesto de solidariedade. Mas nos shoppings lisboetas Colombo e Amoreiras as mensagens foram tapadas.
Contactada pelo Observador, a marca britânica fala em “montras censuradas”. “A Lush fechou em solidariedade com Gaza em 12 países, envolvendo o encerramento de 219 lojas durante 24 horas. Destas, apenas nove lojas tiveram as suas montras censuradas”, adianta o gabinete de imprensa numa resposta por e-mail.
Nas imagens, que rapidamente se espalharam nas redes sociais, é possível observar como as montras das lojas em Lisboa foram tapadas através do exterior.
A LUSH das Amoreiras e Colombo juntaram-se ao protesto de boicote an Israel mas os centros comerciais taparam os cartazes… que vergonha. pic.twitter.com/GL4ABgWolx
— s2.0 (@xcxrgio) September 19, 2025
“Esta decisão pode ter sido contraproducente para os centros comerciais, porque o que era uma ação de um dia da Lush, com as lojas a reabrirem após 24 horas, tornou-se, em vez disso, uma controvérsia, com o público a ver a censura, a contactar jornalistas e com fotos a serem publicadas nas redes sociais”, dizem ainda.
A ação de apoio a Gaza incluiu não apenas o encerramento de lojas, mas de todas as operações da marca. “Achámos que tornava a mensagem mais forte”, esclarecem. “No entanto, isso significou que quaisquer centros comerciais que estivessem descontentes com a nossa mensagem nas montras não puderam entrar na loja para discutir o assunto com a gerência local, nem puderam falar com ninguém da gerência central da Lush, uma vez que encerrámos toda a nossa operação durante esse dia como parte da ação. Sem poder discutir as suas preocupações connosco, parece que a gerência do centro comercial escolheu a sua própria solução, que foi cobrir a mensagem nas nossas montras”.
Colombo “mantém uma posição de total neutralidade face a conflitos geopolíticos e causas ideológicas”
O Observador contactou o Grupo Mundicenter, responsável pelo Amoreiras, que refuta dizendo que “não houve qualquer ato de censura” mas que o “fecho de loja e a colocação de cartazes por parte da marca infringiu o regulamento de funcionamento do centro e o contrato em vigor, que não permitem este tipo de práticas”. “Este comportamento compromete o bom funcionamento e pode pôr em causa a segurança do espaço, motivo pelo qual foram tomadas as medidas necessárias em conformidade com as regras aplicáveis a todas as marcas”, rematam num comunicado por e-mail.
Já o Grupo Sonae Sierra, que detém o Colombo, fez saber que “face à utilização recente das montras de uma loja do centro para a divulgação de mensagens relacionadas com um conflito de natureza geopolítica, o Centro Colombo tomou medidas preventivas com o único objetivo de garantir a segurança, o bem-estar e a tranquilidade dos seus visitantes, lojistas e colaboradores”.
“Respeitamos a identidade e os valores das marcas que operam no nosso centro. No entanto, existem regras comuns a todos os lojistas quanto à utilização dos espaços, nomeadamente no que diz respeito à comunicação externa nas vitrinas”, dizem em comunicado.
Apesar de notarem que “a liberdade de expressão é um direito fundamental”, “o seu exercício em espaços comerciais partilhados está sujeito a critérios de equilíbrio e responsabilidade”. Nessa medida, o “Centro mantém uma posição de total neutralidade face a conflitos geopolíticos e causas ideológicas”, neutralidade essa que “é um princípio essencial para assegurar a segurança, a convivência pacífica e o respeito pela diversidade de quem nos visita diariamente.”
Por outro lado, há muito que o posicionamento da marca Lush na guerra no Médio Oriente não é neutro. “Sabemos que muitos dos nossos clientes compartilham a mesma preocupação com a situação atual em Gaza. O nosso sabonete de angariação de fundos Watermelon Slice [“Fatia de Melancia”, nome que faz referência ao símbolo usado frequentemente por apoiantes da Palestina] é o produto de angariação de fundos de maior sucesso na história da Lush”, sublinham. De acordo com o site da Lush, 75% do valor do arrecadado com a venda do sabonete é destinado a serviços médicos, incluindo instituições de solidariedade que se estão a mobilizar para prestar serviços de próteses a adultos e crianças feridas em Gaza, na Palestina.
Notícia atualizada às 13h36 para incluir as declarações dos responsáveis pelos centros comerciais portugueses