“Apaixonado por business intelligence, inteligência artificial e analítica. Determinado a resolver os maiores desafios através dos dados.” É desta forma que se apresenta o engenheiro eletrotécnico Manuel Dias, que foi nomeado pelo Governo como diretor dos sistemas e tecnologias de informação da administração pública, uma função mais conhecida como CTO do Estado.

O cargo resulta da iniciativa de reforma da Administração Pública e a sua criação foi anunciada no fim de julho por Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado. A Agência para a Modernização Administrativa (AMA) vai dar lugar à Agência para a Reforma Tecnológica do Estado (ARTE). Caberá, assim, a Manuel Dias liderar os esforços desta agência, uma função que se assemelha às funções de diretor tecnológico do Estado.

No briefing do Conselho de Ministros desta sexta-feira, António Leitão Amaro descreveu Manuel Dias como “uma pessoa com grande conhecimento, experiência nestas matérias da inteligência artificial, sistemas de informação e tecnologias de informação, com percurso académico em empresas de grande capacidade, também com experiência muito grande de interação com a administração pública, combinando com isso capacidade de liderança, conhecimento técnico do mais elevado que acontece no país e conhecimento do funcionamento da administração pública e dos seus desafios”.

“Acreditamos muito no potencial impacto desta nova função de diretor dos sistemas e tecnologias de informação da administração pública”, reforçou o ministro da Presidência.

Uma reforma do Estado que começou na Educação e que promete mexer “onde nunca se mexeu”

Manuel Dias, que anunciou há uma semana a saída da Microsoft Portugal, tem mais de duas décadas de experiência no setor da tecnologia. Durante os últimos cinco anos foi o diretor nacional de tecnologia da subsidiária portuguesa, sendo responsável pela “definição da estratégia tecnológica e de inovação da tecnológica em Portugal”. Esse papel deixou-o em contacto com várias áreas de atividade, incluindo a administração pública.

O novo “CTO do Estado” é licenciado em engenharia eletrotécnica e computadores pelo Instituto Superior Técnico. Tem um mestrado em Sistemas de Informação pelo ISEG, tendo desenvolvido uma tese centrada nas áreas das Ciências da Complexidade e Teoria do Caos. Este ano, terminou um programa de IA generativa aplicada, destinado à área da transformação digital e tecnologias de informação.

Manuel Dias começou a carreira no setor tecnológico em 1996, como engenheiro de software na portuguesa Efacec. Trabalhou cerca de nove anos na empresa, passando em 2002 a gerir a equipa de desenvolvimento de software de sistemas em tempo real.

Em fevereiro de 2006, ingressou no (agora) unicórnio português OutSystems. Trabalhou durante cinco anos na empresa, onde assumiu cargos como gestor de produto sénior, gestor de soluções empresariais e líder de gestão de produto.

Em 2011, chegou à Microsoft Portugal, começando por assumir funções de especialista em dados e IA. Durante quatro anos, foi responsável pelo trabalho de apoiar os líderes empresariais a tirar partido de soluções de analítica e big data para decisões de negócio. Em 2015, assumiu mais responsabilidades nesse campo, passando a ser líder da área de dados e inteligência artificial. Em 2018, um novo desafio: ser diretor de vendas para a área empresarial, novamente mantendo o contacto com empresas. Em 2020, quando o setor tecnológico assumiu ainda mais relevo devido à pandemia, foi escolhido para ser diretor nacional de tecnologia da Microsoft Portugal.

No perfil do LinkedIn, Manuel Dias detalha como funções a “modelação da visão tecnológica da Microsoft para Portugal, trabalhando de perto com líderes da indústria, a comunidade educativa e de investigação, agências governamentais e comunidades técnicas para desenvolver estratégias de transformação digital (…)”.

Ao mesmo tempo em que foi escalando posições na estrutura da Microsoft portuguesa, Manuel Dias dedicou-se também ao ensino. Em 2015, começou por ser professor convidado na Nova IMS, lecionando na área de business intelligence. Em março de 2020, passou a centrar-se na área da investigação de dados e inteligência artificial (IA), no Urban Analytics Lab. Em setembro do mesmo ano, foi professor convidado para a área da analítica e visualização de dados. E há cerca de dois anos, passou a lecionar, enquanto professor convidado, a disciplina de IA generativa no mestrado de Business Intelligence.

Desde 2023, é professor convidado do Instituto Superior Técnico, nas áreas de especialização em IA e liderança de tecnologias de informação.

Manuel Dias tem ainda trabalho desenvolvido nas áreas de comunidades e associações do setor da tecnologia. Durante cerca de um ano, foi vice-presidente da APBI, a Associação Portuguesa de Business Intelligence, integrou também a Tech4Integrity, uma iniciativa para “integrar uma cultura de transparência e integridade” através da tecnologia. Também é fundador da comunidade tecnológica Power BI Portugal, criada em janeiro de 2019. É ainda co-fundador e vice-presidente da DSPA, a organização sem fins lucrativos de ciências de dados em Portugal.

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O “fim do capítulo” de 15 anos na Microsoft Portugal

Há cerca de uma semana, Manuel Dias anunciou no LinkedIn a saída da Microsoft Portugal, deixando um agradecimento “pela viagem extraordinária” após 15 anos,

“Viro a página numa jornada que definiu não só a minha carreira mas também a pessoa em que me tornei”, escreveu na rede social profissional. “Ser diretor nacional de tecnologia para Portugal não foi só sobre tecnologia — também foi sobre as pessoas, propósito e impacto”, declarou. “Juntos acelerámos a transformação digital, a adoção de IA avançada e ajudámos Portugal a posicionar-se mais perto das suas ambições para a Década Digital 2030.” Destacou ainda que teve contacto com áreas como a “administração pública à saúde, educação e s”.

Esta é a segunda vez que alguém com o cargo de diretor nacional de tecnologia da Microsoft Portugal transita para funções ligadas ao Estado. Em 2019, André de Aragão Azevedo, então diretor nacional de tecnologia da empresa, saiu do setor privado para ser secretário de Estado para a Transição Digital. Esteve dois anos e seis meses nessas funções, para depois regressar à Microsoft Portugal. Hoje em dia, é membro da Europe Startup Nations Alliance (ESNA). Já este ano, o Governo escolheu outro nome do setor privado para a função de secretário de Estado da Digitalização: Bernardo Correia, até então o líder da Google Portugal.

Salvador Malheiro, diretor da Google Portugal e o estreante na saúde. As novidades nas secretarias de Estado

Manuel Dias vai ter funções bem diferentes das de secretário de Estado com a pasta da digitalização. A sua principal tarefa passará por garantir que os departamentos do Estado comunicam entre si, permitindo a interoperabilidade entre serviços. Ou seja, garantir que os cidadãos só precisam de indicar os seus dados uma vez.

Enquanto líder de estratégia da Microsoft, Manuel Dias já teve contacto com diversas áreas da administração pública. Por exemplo, marcou presença na cerimónia de lançamento da Lia, a assistente virtual para pesquisa inteligente no Diário da República — um projeto em que a Microsoft disponibilizou a plataforma de computação em nuvem Azure.

A Microsoft é uma presença frequente em vários projetos da administração pública. Também é uma adjudicatária frequente de vários contratos com o Estado português: uma pesquisa no portal Base apresenta diversos resultados, desde autarquias que adquirem software da empresa até entidades como a Infraestruturas de Portugal (IP) até à Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

Só a MSFT, Software para Microcomputadores, Lda, apresenta uma lista com 262 resultados de contratos. O mais recente disponível no Base é um contrato por concurso público para a renovação de software Microsoft com a IP, por um valor de 319.249,96 euros, em julho de 2024. Antes disso, teve outro contrato com a IP, no valor de 60 mil euros, para contratação de apoio unificado avançado, em maio de 2023, por exemplo.

IA: uma “visão otimista” em relação ao trabalho e um fã de agentes

Entre discursos em conferências, entrevistas e artigos de opinião, é possível perceber alguns dos pontos de atenção do futuro líder da ARTE. Uma delas é a inteligência artificial, que também mexe nas prioridades do Estado — por exemplo, através do modelo de linguagem de grande escala (LLM) Amália.

O Amália é uma das medidas da futura Agenda Nacional para a Inteligência Artificial, que estava prevista para o primeiro trimestre de 2025, mas que ficou por anunciar devido à queda do Governo. Numa entrevista dada em março deste ano ao jornal Eco, Manuel Dias foi questionado sobre a Agenda Nacional de IA. Na altura, o executivo afirmou que era “muito relevante apostar nesta área” devido a “todo o contexto geopolítico”. Na altura, declarou que a agenda deveria “avançar o quanto antes”.

Na visão de Manuel Dias, então com um cargo na Microsoft Portugal, seria importante o desenvolvimento de “competências ao nível da utilização individual de inteligência artificial, mas também dentro das empresas e no setor público”. O gestor defendeu ainda trabalho na adoção da IA, que tem de ser pensada e estudada com casos de uso. “Acho que é muito importante haver mecanismos de partilha de experiências que vão sendo feitas e nós temos vários exemplos de sucesso em Portugal, no setor público e no setor privado”, declarou.

Numa altura em que se debate a presença da IA no mundo do trabalho, Manuel Dias afirmou ao Eco ter uma “visão bastante otimista”. “Nós sabemos que em todas as revoluções tecnológicas houve sempre alguma destruição de empregos, mas houve sempre uma criação superior de novos empregos. E, aqui, claramente, a tecnologia é tão transversal e tão geral que nós vamos efetivamente criar novas profissões que hoje, se calhar algumas delas ainda não as conseguimos prever”, afirmou. Uma visão que ecoa as declarações que fez, em maio de 2023, numa entrevista ao jornal Público.

“Não nos vejo [humanos] a sermos substituídos pela inteligência artificial, mas talvez sejamos substituídos por alguém que sabe tirar partido destas ferramentas de inteligência artificial. E eu acho que esse é o ponto-chave. Em todas as revoluções industriais, algumas profissões deixaram de existir e outras foram criadas.”

Já num artigo de opinião publicado no Observador, no ano passado, focou-se nas estratégias para a competitividade para 2030, sublinhando a necessidade de “investir numa força de trabalho mais qualificada, dotada de novas competências digitais”. Dedicou uma parte do texto à digitalização dos serviços públicos, que agora terá de reformar. “Há naturalmente espaço para melhorias”, escreveu. “A evolução tecnológica é constante, e portanto a nossa capacidade de atualização também o deve ser.”

“Nessa medida, será vital ao Estado ir além das recentes medidas de desburocratização, simplificação e homogeneização dos serviços ao cidadão e definir e implementar uma estratégia de atualização contínua dos serviços digitais, com especial foco na procura automação inteligentes dos serviços – da saúde às finanças – colocando a experiência do cidadão sempre no centro da equação, independentemente das suas competências digitais”, declarou.