Cartografia do Desejo, novo livro de fotografia de Alfredo Cunha, com textos de Ariana Aragão e prefácio de Valter Hugo Mãe, editado esta semana, realça a forma natural como as pessoas se expõem, revelando-se à lente do fotógrafo.

Valter Hugo Mãe defende “que toda a gente deveria fazer a terapêutica coisa de se despir diante de um fotógrafo”, na abertura da obra.

“Todas as pessoas merecem esse tipo de encontro ao menos uma vez na vida. Porque há a necessidade de experimentarmos as nuances do corpo, suas coreografias que são tão plásticas quanto espirituais”, argumenta o autor de A Desumanização.

Hugo Mãe, a abrir o prefácio lembra a artista plástica Isabel Lhano (1953-2023), segundo a qual os fotógrafos eram todos sensuais, “e dava como exemplo Alfredo Cunha para debater essa bizarria de passarem a vida inteira atrás da câmara, quando têm corpinho ajeitado para se meterem à frente”.

O escritor não partilha do pressuposto de que “os fotógrafos são todos escolhidos a dedo pela beleza”, mas considera que “há algo no feito de sermos fotografados que nos sublinha carências e relembra desejos”.

O livro reúne mais de 100 fotografias de autoria de Alfredo Cunha, de corpos, masculinos e femininos, todas a preto e branco, divididas por capítulos inaugurados por textos de Ariana Aragão: Do Desejo, Claridade, Miopia, Plástico Fetiche.

Valter Hugo Mãe define esta obra como “uma viagem através do desejo; um exercício hedonista e provocatório dos autores, a acicatar quem o aprecia”; um “mergulhar” na “intimidade e no dialeto visual” de Alfredo Cunha que, em sua opinião, “nunca se tinha exposto tão completamente”.

Cartografia do Desejo, segundo Hugo Mãe, é assim como “uma viagem interior, numa narrativa de exaltação”.

“Que esta obra reacenda em quem a mesma chama que moveu a sua criação”, remata Valter Hugo Mãe.

Ariana Aragão é o pseudónimo de Sandra Maria Teixeira, nascida em 1977, no Porto, mestre em Design e Produção Gráfica, pela Universidade de Barcelona, que desenvolve atividade como investigadora, agregada à Universidade do Algarve, e curadora de arte na área da fotografia.

Dirige o Studio Raro-Sinergias Criativas e Culturais, que fundou. Preside à Rota das Conservas — Associação para a Preservação da Memória e do Património Cultural do Mar, que fundou em 2018.

Alfredo Cunha nasceu em 1953, em Celorico da Beira, e iniciou a sua carreia profissional em 1970, na área da fotografia publicitária e comercial.

Como fotojornalista, começou no Noticias da Amadora, tendo, posteriormente, trabalhado em jornais e revistas como O Século, Século Ilustrado, Vida Mundial, Público, assim como na agência portuguesa de notícias ANOP e na sua sucessora, agência Lusa.

Atualmente desenvolve projetos editoriais, segundo a editora Guerra & Paz.

Cunha foi fotógrafo oficial da Presidência da República, nos mandatos de António Ramalho Eanes, de 1976 a 1986, e de Mário Soares, de 1986 a 1996.

Entre 1989 e 1997 foi editor fotográfico do diário Público, passou pelo grupo Edipresse, onde foi fotógrafo e editor.

Em 2002, com a jornalista Ana Sousa Dias, colaborou no programa televisivo “Por outro lado” (RTP2).

Entre 2003 e 2009, foi fotógrafo e editor no Jornal de Notícias. De 2010 a 2012, foi diretor fotográfico da Agência Global de Notícias.

Como fotojornalista, destaca-se o seu trabalho sobre o 25 de Abril, o processo de descolonização , o Período Revolucionário em Curso (PREC), o derrube do Presidente romeno Nicolae Ceausescu, em 1989, a guerra no Iraque, em 2003.

Alfredo Cunha tem uma vasta bibliografia, marcada por obras como Raízes da Nossa Força (1972), Vidas Alheias (1975), Naquele Tempo (1995), O melhor Café (1996), Porto de Mar (1998), Cuidado com as Crianças (2003), Fátima, Enquanto Houver Portugueses (2017), A Benção dos Animais (2021), a que se juntam Mar de Fé e Alfredo Cunha —  Photographo, ambos publicados este ano.

Cunha recebeu a Medalha de Mérito Cultural e a comenda da Ordem do Infante D. Henrique.

[Apesar da euforia em torno de Freitas, Soares recupera. O debate com Zenha será decisivo. Quando acabar, nunca mais serão amigos. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]