Mais carne, mais ovos, menos peixe e menos legumes. E um consumo de calorias muito acima do recomendado. É este o retrato da alimentação dos portugueses entre 2020 e 2024, segundo os dados da Balança Alimentar Portuguesa (BAP) publicada esta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
O que a BAP mede é o “consumo alimentar do ponto de vista da oferta dos alimentos”, e não o que foi efetivamente consumido pelos portugueses, ainda que os indicadores sirvam para estimar esse consumo. “O balanço dos produtos alimentares indica, para cada produto primário e para um número reduzido de produtos processados, as quantidades potencialmente disponíveis para consumo humano, ou seja, apresentam uma medida de consumo aparente do ponto de vista da oferta de alimentos e não o consumo efetivo dos produtos alimentares”, explica o INE.
Neste contexto, entre 2020 e 2024, o INE conclui que “foi registada uma disponibilidade média diária de 4 079 kcal [quilocalorias] por habitante, praticamente idêntica à observada no período de 2015-2019, que foi de 4 077 kcal”. Só em 2024 as estimativas apontam para um aporte calórico médio de 4 167 kcal por habitante por dia, “quando as recomendações são para uma média diária de 2 000 kcal” por habitante, ressalva o INE. Ou seja, estima-se que o consumo calórico dos portugueses seja mais do dobro do recomendado.
Esta atualização dos números tem a particularidade de apanhar o período da pandemia. E 2020, o primeiro ano da Covid-19, foi mesmo um ano diferente no que toca à disponibilidade dos alimentos. Segundo o INE, nesse ano a disponibilidade foi de 3 894 kcal por habitante, naquele que foi “o resultado mais baixo dos últimos dez anos”. Uma diferença que pode ser explicada pelas restrições impostas à produção e distribuição de alimentos nesse ano.
No período em análise, ressalva o INE, “assistiu-se também ao fim das restrições impostas à população em geral e ao retomar gradual das atividades económicas e sociais, o que teve como consequência a retoma da atividade da cadeia de abastecimento alimentar e variações positivas das disponibilidades alimentares para consumo em quase todos os grupos de produtos alimentares e de bebidas em 2021”. As únicas exceções foram as disponibilidades de ovos e de leite e produtos lácteos.
Já em 2022 e 2023, os aumentos das disponibilidades “não foram tão expressivos e não se estenderam a todos os grupos de produtos (apenas os grupos dos cereais e das carnes registaram aumentos consecutivos nestes dois anos face a 2021)”, indica o INE. Há ainda a destacar “o decréscimo das disponibilidades para consumo de leite e produtos lácteos” nos cinco anos em análise, que “está relacionado com alteração de padrões de consumo”.
Assim, nos cinco anos em análise, e em comparação com os cinco anos anteriores (2015-2019), aumentaram as disponibilidades de carne (2,9%), com os animais de capoeira a representar a maior fatia de carne disponível.
Em média, calcula o INE, “67,9% da carne disponível para consumo, entre 2020 e 2024, teve origem na produção nacional”, e os anos de 2023 e 2024 “foram os que apresentaram maiores disponibilidades de carne para consumo, o que se justifica pelos máximos que as importações de carne atingiram nestes dois anos (respetivamente 430 mil e 447 mil toneladas), apesar da produção nacional em 2024 ter também atingido o melhor resultado da série temporal (873 mil toneladas)”. Já em 2020, primeiro ano da pandemia, apesar das disponibilidades para consumo terem decrescido devido à Covid-19, “a importância da produção nacional acentuou-se (70,2%), promovida pelo menor volume de importações (12,3% inferior à média registada em 2020-2024)”.
A BAP revela ainda que o “subsetor da carne de leitão foi particularmente afetado pelo encerramento da restauração durante o confinamento no ano 2020, resultando numa quantidade disponível de carne de suíno para consumo em 2020 que foi a menor desde 1997”.
Cada português tem disponível meio ovo por dia
Subiu também o consumo aparente de ovos, em 11,9%, “com uma taxa média de crescimento anual no quinquénio em análise de cerca de 3%”. Em média, calcula o INE, “cada residente no território nacional teve disponível para consumo, no período em análise, cerca de meio ovo por dia e por pessoa (183 ovos/ano), considerando um ovo médio com casca”. Esta evolução foi “determinada pelo aumento de 5,7% da produção nacional, mas também pelo aumento das importações (+75,3%) e redução das exportações (-10,1%)”.
Em trajetória ascendente está também a fruta, com as quantidades diárias disponíveis a aumentarem 13,9%, o que se traduz num crescimento médio anual de 1,8%. “A maçã em 2020-2024 continuou a ser o fruto com maiores quantidades disponíveis para consumo, em média 23,8% da quantidade total de frutos frescos disponíveis”, totalizando 25,9 kg por habitante por ano.
Em segundo lugar surge a laranja, com 21,1% da quantidade total de frutos disponíveis (22,7 kg por habitante por ano). O INE refere que “no quinquénio em análise todos os frutos apresentaram um aumento do consumo aparente, exceto a laranja (-4,6%) e a uva de mesa (0,0%)”.
O INE olha também para os frutos de casca rija, cujas disponibilidades diárias per capita aumentaram 26%. Isto “deveu-se principalmente ao crescimento da produção nacional, que registou um acréscimo de 60,4%, sendo o produto nacional responsável, em média, por 62,8% dos recursos disponíveis nesse período”.
Destaca-se aqui a amêndoa como o fruto que mais contribuiu para o aumento. “A sua produção quase triplicou entre 2020 e 2024, com uma taxa média de variação anual de 30,2%. Este crescimento reflete a expansão, das áreas de amendoal, que mais do que duplicaram na última década, com a instalação de amendoais intensivos e modernos no Alentejo e Beira Interior. Em sentido contrário, a produção de castanha diminuiu 35,6% no mesmo período, devido essencialmente aos efeitos dos períodos de seca e a problemas fitossanitários”.
O consumo aparente de leguminosas secas aumentou cerca de 2%, com destaque para o feijão seco, que representou, em média, 65,6% das disponibilidades totais destes produtos em 2020-2024. Segue-se o grão-de-bico seco com 34,4%.
Diminuiu, no mesmo período, a disponibilidade de peixe para consumo (-2,1%), mas aumentou consideravelmente (20,6%) o consumo aparente de crustáceos e moluscos, que já é o segundo produto deste grupo alimentar, à frente do bacalhau e outros peixes salgados secos. A disponibilidade de peixe foi afetada pela pandemia, “que levou à paragem das embarcações em terra, e à redução da procura provocada pelo encerramento dos estabelecimentos da restauração”. Também houve consequências ao nível das exportações, que baixaram 12,5% em 2020 face à média 2020-2024. “De assinalar que Portugal apresentou, em média, no quinquénio 2020-2024 um grau de autoaprovisionamento em pescado de 35,8%, o que evidencia uma forte dependência das importações para assegurar o consumo interno”, ressalva o INE.
Também baixaram as disponibilidades diárias per capita de leite e produtos lácteos (-3,6%), com o leite para consumo público, o principal produto deste grupo, a diminuir a sua disponibilidade em 10,6%. Segundo o INE, “Portugal é praticamente autossuficiente para o total de leite e produtos lácteos, com a produção nacional a assegurar, em média, 91,5% do consumo nacional em 2020-2024”. No entanto, “em certos produtos lácteos o grau de autoaprovisionamento é significativamente inferior, nomeadamente nos iogurtes (54,4%) e no queijo (63,3%)”.
Consumidores têm disponíveis 60,6 litros de cerveja por ano
Em queda estão também os cereais (-1,2%), sendo para isto relevante o facto de Portugal só ter coberto 23,0% das suas necessidades de consumo de cereais em 2020-2024, uma quebra face aos 24,7% de 2015-2019, sendo muito dependente de importações.
Contabilizou-se ainda uma quebra nas disponibilidades de raízes e tubérculos (5,5%), “devido essencialmente ao decréscimo da oferta de batata para consumo (-6,2%)”. Já o consumo aparente de hortícolas diminuiu 4,4%.
O consumo aparente de óleos e gorduras reduziu-se em 7,1%. Apesar deste decréscimo, houve uma evolução positiva do azeite, cuja disponibilidade aumentou 34,1%. O período em análise “inclui as campanhas oleícolas mais produtivas de sempre (2021 e 2024), em resultado do aumento da importância dos olivais intensivos de regadio em Portugal, implantados sobretudo no Alentejo”.
Nesta categoria é de assinalar “uma regressão nas disponibilidades de manteiga (-3,3%) e de outras gorduras de origem animal (-12,4%)”.
A BAP olha também para o açúcar, onde as disponibilidades diárias de açúcares adicionados caíram 4,4%. Na categoria do café, cacau e chocolate para consumo houve um aumento de 16,5%.
No campo das bebidas, o INE estima que cada residente em território nacional teve disponível para consumo 653,6 mililitros por dia de bebidas não alcoólicas, mais 6,6% face ao período anterior. A água engarrafada é a bebida não alcoólica disponível em maior quantidade, com 65,5% do total, sendo seguida pelos refrigerantes (28,9%) e pelos sumos (5,6%).
Nas bebidas alcoólicas, as quantidades diárias disponíveis per capita aumentaram 10,0% face a 2015-2019. “Cada residente em território nacional teve disponível para consumo 52,1” litros por ano de vinho e 60,6 litros de cerveja.
Até 2022, houve um aumento das disponibilidades per capita do total de bebidas alcoólicas de +21% face a 2020, “para o que contribuíram todas as bebidas alcoólicas, mas em particular a cerveja (+24,3%, com o vinho a crescer 11,6%). Estes aumentos “refletem a recuperação face ao período pandémico e a retoma de atividades como a restauração e o turismo”. Já entre 2022 e 2024 as disponibilidades de bebidas alcoólicas diminuíram 6,3%.