Depois de já ter falado sobre a atividade nas empresas de Carlos Santos Silva, os levantamentos de cheques, o dinheiro vivo guardado em cofres ou a compra de livros de José Sócrates, o advogado e arguido Gonçalo Trindade Ferreira viu as suas declarações em tribunal serem suspensas de forma inesperada. A 26.ª sessão do julgamento do processo Operação Marquês acabou interrompida mais cedo devido à invocação do sigilo profissional de advogado mas antes ficou marcada pelos três cofres revelados por Trindade Ferreira — que até guardavam dentes de bebé.

A questão nem foi suscitada pelo arguido, que já falava em tribunal há cerca de duas horas, ou pela sua defesa, mas sim pelo coletivo presidido pela juíza Susana Seca e posteriormente aproveitada pela defesa do ex-primeiro-ministro José Sócrates. Em causa estariam declarações sobre atos praticados como advogado ao serviço do empresário Carlos Santos Silva, nomeadamente o seu papel na compra das casas que tinham sido da mãe de Sócrates e da casa de Paris, matérias sobre as quais recaem os três crimes de branqueamento imputados a Gonçalo Trindade Ferreira, em alegado conluio com o empresário e o ex-governante.

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O arguido mostrou-se disponível para falar em tribunal e lembrou até que já foi interrogado por diversas vezes durante o processo e que prestou sempre esclarecimentos no interesse da sua defesa pessoal face às suspeitas de que é alvo.

Contudo, perante o eventual cenário de ser posteriormente levantada por qualquer uma das partes uma nulidade processual, o coletivo determinou mesmo a suspensão da sessão para que seja pedido à Ordem dos Advogados o levantamento do sigilo profissional de Gonçalo Trindade Ferreira. A defesa do arguido, a cargo da advogada Ana Marques, indicou que deveria fazer seguir ainda esta quinta-feira o pedido para a Ordem dos Advogados.

No entanto, não é certo que chegue uma resposta a tempo da próxima sessão, agendada para a próxima terça-feira no Juízo Central Criminal de Lisboa.

Santos Silva entregou 200 mil euros a Gonçalo Trindade Ferreira para guardar num cofre

Um dos aspetos abordados nesta quinta-feira nos esclarecimentos ao tribunal foi a existência de cofres: nada menos do que três — um no escritório das empresas de Carlos Santos Silva, em Telheiras, um cofre pessoal que o advogado e arguido tinha na sua casa e, por último, outro que Gonçalo Trindade Ferreira tinha no Millennium BCP. E foi aqui que revelou ter guardado 200 mil euros a pedido de Santos Silva e que foi ele próprio a dar conhecimento disso ao Ministério Público.

“No cofre no BCP guardei 200 mil euros do engenheiro Carlos Santos Silva, que entretanto devolvi”, referiu. Trindade Ferreira revelou a justificação do empresário para aquele pedido: “Aquele montante tinha sido única e exclusivamente para eu guardar, no caso de haver alguma necessidade. Estava a iniciar-se uma guerra na Venezuela, tínhamos lá mais de 100 trabalhadores… Isto foi em 2012 ou 2013 e esse montante seria para o caso de haver alguma necessidade urgente com uma das empresas”.

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A revelação — ao MP e ao então juiz de instrução Carlos Alexandre — do dinheiro naquele cofre acabou, segundo o seu depoimento, por lhe causar constrangimentos na sua vida pessoal. “Se eu não tivesse dito ao MP, ainda hoje não estaríamos a falar do cofre que estava no meu nome e no do meu pai no BCP”, observou, sem deixar de notar que não viu “qualquer tipo de maldade” ou de intenção ilícita por parte de Carlos Santos Silva. Para o advogado, era uma mera questão prática, pois o empresário amigo do ex-primeiro-ministro, “muitas vezes, não estava no país”.

O advogado e arguido afirmou ainda que Carlos Alexandre e o procurador Rosário Teixeira lhe pediram para ir ao banco, com o dinheiro a ser retirado do cofre e depositado na sua conta pessoal. “Perguntei por que razão é que não ficava numa conta à ordem do tribunal e disseram-me que era assim… Era a conta do meu crédito à habitação e fiquei com a conta bloqueada” alertou.

Quanto aos restantes cofres, Gonçalo Trindade Ferreira enfatizou que aquele que estava no escritório da empresa era utilizado por ele e por mais algumas pessoas próximas de Santos Silva, como o diretor financeiro Rui Mão de Ferro, a gestora Gina Cruz ou a companheira do empresário, Inês do Rosário, para guardar documentos mais importantes sobre os projetos. Já o cofre que tinha em casa, revelou em tribunal, continha coisas pessoais que lhe tinham sido dadas pelo pai e pelo avô, como os seus dentes de bebé.

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Trindade Ferreira também confirma que levantou dinheiro vivo a pedido de Santos Silva — e entregou 10 mil euros ao motorista de Sócrates

Tal como na sessão da véspera, os levantamentos de cheques de Carlos Santos Silva foram alvo de escrutínio do tribunal, com Gonçalo Trindade Ferreira a admitir em julgamento ter levantado ao balcão do banco inúmeros cheques assinados por Carlos Santos Silva. De seguida, declarou ter entregue o dinheiro ‘vivo’ ao empresário ou a elementos próximos que o amigo do antigo primeiro-ministro tinha indicado, entre os quais Inês do Rosário ou Rui Mão de Ferro.

“Sei que estavam assinados pelo engenheiro Carlos Santos Silva e eram levantados ao balcão. Era ele que me pedia. Nunca me disse para que eram, nunca houve esse tipo de conversa. Efetivamente, foram feitos levantamentos ao balcão por mim em numerário e entregues ao destinatário”, reforçou.

Além dos já citados Inês do Rosário e Rui Mão de Ferro, o advogado adiantou também ter chegado a entregar uma vez dinheiro ao ex-motorista de Sócrates, o também arguido João Perna. No caso, foram 10 mil euros (o valor mais habitual nos levantamentos bancários efetuados).

O advogado assinalou também que a maioria dos levantamentos se destinou a “entregar pessoalmente” o dinheiro e não para colocar à guarda de um cofre. Por outro lado, disse que “nunca” recebeu cheques a título de compensação e que não se lembrava de ter recebido pedidos de Carlos Santos Silva para proceder “com urgência” a levantamentos bancários.

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Sobre o contacto com outros arguidos do processo, designadamente o ex-primeiro-ministro José Sócrates, Gonçalo Trindade Ferreira disse só ter estado uma vez com o antigo governante: um almoço em Paris em que esteve também presente Carlos Santos Silva, em novembro de 2014, na véspera de ambos regressarem a Portugal, sendo então detidos à chegada ao aeroporto de Lisboa.

“Só me lembro de uma vez o eng. Carlos Santos Silva dizer que íamos almoçar com um amigo dele… não sei se se referia mesmo como amigo ou apenas a um conhecido. O amigo? Era José Sócrates. Não posso dizer que fiquei surpreendido por isso, pelo percurso de Carlos Santos Silva”, contou.

Questionado pela juíza Susana Seca sobre a forma como olhava para a sua intervenção no processo, Gonçalo Trindade Ferreira descreveu-se como um mero peão, sem conhecimento sobre as razões de determinados pedidos descritos na acusação do Ministério Público ou as associações entre factos, arguidos e alegados crimes.

“Eu desconheço a proveniência do dinheiro. Limitei-me a fazer as escrituras das casas”, disse. E sobre os levantamentos, o advogado reiterou que o fez a pedido de Carlos Santos Silva e que entregou sempre o que lhe era pedido, sem receber justificações ou explicações: “O engenheiro Carlos Santos Silva era uma pessoa muito reservada, não só em termos profissionais, como pessoais. Nunca houve nenhuma confissão ou confidência da parte dele”.

A admissão da compra de centenas de livros de Sócrates

Quando o livro Confiança no Mundo — Sobre a Tortura em Democracia foi lançado em outubro de 2013, Gonçalo Trindade Ferreira foi um dos elementos mobilizados para a compra massiva de exemplares. Sem crimes imputados sobre esta matéria, o arguido admitiu em tribunal as compras efetuadas e que as mesmas foram feitas na sequência de pedidos de Carlos Santos Silva.

O advogado revelou inclusivamente ter procurado junto de pessoas que lhe eram próximas o empréstimo de cartões de cliente de livrarias — como a Fnac ou a Bertrand — para poder usufruir de descontos e, assim, comprar mais exemplares com o dinheiro (em numerário) que lhe era disponibilizado para o efeito pelo empresário amigo do ex-primeiro-ministro.

“Cheguei a pedir cartões de desconto para comprar mais. Fi-lo por minha espontânea vontade”, disse, avançando com a sua interpretação do pedido de Carlos Santos Silva para comprar “centenas de livros” de Sócrates. “O meu raciocínio foi que Carlos Santos Silva tem uma simpatia por uma determinada cor política e, quando me foi pedida esta compra de livros, seria para oferecer a militantes e amigos. Tinha ideia de que eram muitos, mas não tinha a perceção da quantidade”, acrescentou.

“Profissionalmente, fiquei arredado de tudo o que queria”

A abrir as suas declarações em tribunal, Gonçalo Trindade Ferreira lamentou o seu envolvimento na Operação Marquês, a forma como as diligências iniciais ocorreram e, ainda, o impacto na vida pessoal e profissional devido a este processo judicial desde que foi detido no aeroporto de Lisboa em 20 de novembro de 2014.

Ex-administrador do grupo Lena e amigo de Sócrates também foi detido

“Já lá vão praticamente 11 anos desde que fui detido. Arrasta-se há 11 anos e infelizmente para mim… eu tinha 37 anos, ainda me consideraria um miúdo nestas andanças da advocacia. Fui detido no dia 20 de novembro no aeroporto de Lisboa, foi um aparato enorme na altura. Vinha de uma viagem de Paris com o eng. Carlos Santos Silva e, perante 9 ou 10 OPC [órgãos de polícia criminal] disseram ‘acompanhe-me’, tiraram-me o telemóvel, fiquei algumas horas numa sala do aeroporto e depois levaram-me para os escritórios da Proengel”, começou por recordar.

Ao chegar lá, o gabinete estava “todo revirado”, sem que lhe tivessem dado uma explicação, embora, por ser advogado, a diligência tivesse decorrido na presença de um representante da Ordem dos Advogados — um requisito legal para este tipo de procedimentos nas buscas. “Nunca me disseram nada”, referiu, continuando: “Só às 03h da manhã é que me deram mandado de detenção”.

Com a ligação às empresas de Carlos Santos Silva a terminar naquele momento, uma vez que uma das medidas de coação que viria a ser aplicada era a proibição de contactos com os outros arguidos, Gonçalo Trindade Ferreira, hoje com 49 anos, salientou ainda que veio a passar por um divórcio e que este processo se refletiu negativamente na evolução da sua carreira: “Profissionalmente, fiquei arredado de tudo o que queria”.

O advogado, que atualmente está ligado aos serviços da Câmara Municipal de Lisboa, contou que chegou às empresas de Carlos Santos Silva por volta de 2010 pela ligação que o seu primo Armando Trindade tinha com o empresário na sociedade EFS, na qual os dois eram sócios. “A minha família é toda da Covilhã e do Fundão”, relatou.

De seguida, descreveu o percurso que o levou a trabalhar com diversas empresas ligadas a Carlos Santos Silva e até a deter participações em algumas sociedades: “Foram participações que o eng. Carlos Santos Silva entregou para motivar as pessoas, para sentirem algum peso na tomada de decisões. Era um garante de que estaríamos também a trabalhar para nós e houve algumas sociedades que fui eu que as constituí. Carlos Santos Silva sempre foi um homem a querer fazer mais, com visão, nunca estava quieto”.

(Notícia atualizada pela última vez às 17h05 com o resto das declarações de Gonçalo Trindade Ferreira)