Fernanda Câncio, Célia Tavares e Maria Lígia Correia. Um nome liga estas três mulheres e esse nome é o de José Sócrates, com as três testemunhas a comparecerem no Juízo Central Criminal de Lisboa na próxima semana para prestarem declarações no julgamento do processo Operação Marquês.

Em causa estão as relações próximas que tiveram com o antigo primeiro-ministro e a forma como terão beneficiado do dinheiro despendido em viagens e noutras despesas.

Esses gastos eram assumidos supostamente por José Sócrates, mas afinal seriam — segundo a acusação do Ministério Público — suportados por Carlos Santos Silva, com uma proveniência alegadamente ilícita do dinheiro que era disponibilizado ou gasto com estas três mulheres. Nenhuma das três foi acusada pelo MP, sendo que Fernanda Câncio nunca foi considerada suspeita por não ter consciência da alegada origem ilícita dos fundos em causa e por nem sequer saber que as despesas eram pagas por Santos Silva.

O que liga Fernanda Câncio à Operação Marquês?

Célia Tavares e o pedido a Sócrates para pagar o seguro do carro

A primeira a passar pelo julgamento será Célia Tavares, cuja inquirição está marcada para terça-feira (dia 21), às 14h00. Teve uma relação próxima com o ex-primeiro-ministro num período em que tinha regressado aos estudos para fazer o curso de Direito, tendo sido apanhada nas interceções telefónicas do processo por mais do que uma vez a pedir dinheiro a José Sócrates.

No dia 25 de maio de 2014, na noite das eleições para o Parlamento Europeu e cerca de seis meses antes da detenção de Sócrates no aeroporto de Lisboa, enviou uma mensagem ao antigo primeiro-ministro. “Zé, estás bonito. Estou a ver-te na RTP. Olha já preciso de ajuda este mês, tive mais gastos. Obrigado meu querido. Bjs”, escreveu.

Mas havia mais exemplos. “Olá querido, recebeste a minha mensagem? Tenho o seguro do carro que venceu ontem e não tenho possibilidades para o pagar sem a tua ajuda. Desculpa”, escreveu novamente Célia Tavares, agora numa mensagem enviada no dia 5 de novembro de 2014.

De acordo com a investigação, o dinheiro chegaria a Célia Tavares através de João Perna, o antigo motorista de Sócrates e igualmente a responder em julgamento.

Os alertas de Lígia Correia e a compra de mais de 300 livros de Sócrates

Nessa mesma terça-feira será igualmente ouvida pelo coletivo presidido por Susana Seca, a partir das 15h30, a testemunha Maria Lígia Correia, uma amiga próxima de longa data e que o jornal Nascer do Sol identifica como atual companheira do antigo governante. Antiga funcionária do PS, Maria Lígia Correia chegou a trabalhar como secretária de António Guterres e tornou-se próxima de José Sócrates, entrando para o seu círculo mais íntimo.

Com efeito, Lígia Correia foi uma das pessoas mobilizadas para a operação de compra massiva de exemplares do livro A Confiança no Mundo — Sobre a Tortura em Democracia, lançado por José Sócrates em outubro de 2013.

Conforme declarou numa das anteriores sessões a inspetora tributária Rosário Ribeiro, que investigou a mobilização de verbas em torno de Sócrates para a aquisição dos livros, o ex-primeiro-ministro queria ser um sucesso de vendas e suplantar José Rodrigues dos Santos nos ‘tops’. E só Lígia Correia assegurou a compra de mais de 300 exemplares.

Terá sido também Lígia Correia a apresentar José Sócrates a Célia Tavares e a alertá-lo ao longo do tempo para os gastos em que se envolvia com as suas companhias, algo sobre o qual o Ministério Público deverá procurar obter esclarecimentos na sua inquirição.

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As viagens, as casas e o desconhecimento de Fernanda Câncio

Por último, Fernanda Câncio será ouvida como testemunha na quarta-feira (dia 22) a partir das 15h30. A jornalista do DN e antiga namorada do ex-primeiro-ministro nunca foi considerada suspeita pela investigação, apesar de ter sido ouvida durante a investigação e de dois assistentes, ambos então jornalistas do CM, terem pedido em 2016 a sua constituição como arguida pela alegada prática dos crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Na lógica desse requerimento, a jornalista não só saberia que o dinheiro movimentado pelo ex-primeiro-ministro teria uma proveniência ilícita, como alegadamente teria beneficiado indiretamente desses fundos e participado na ocultação da origem das quantias de dinheiro que estavam depositadas em nome de Carlos Santos Silva mas que, segundo o procurador Rosário Teixeira, pertenciam a José Sócrates.

Fernanda Câncio: “Detenção de José Sócrates foi enorme choque para mim”

Contudo, Rosário Teixeira não mudou de ideias e manteve inalterado o estatuto processual de Fernanda Câncio, que a própria jornalista do DN veio revelar publicamente, quando publicou um artigo na revista Visão, em maio de 2016, a detalhar a sua ligação a José Sócrates e ao caso Operação Marquês.

“Já foi tomada posição nos autos sobre o estatuto aplicável à requerente, que foi ouvida como testemunha, não existindo, por ora e mesmo face ao recolhido após a inquirição, [razão ou motivo] para que tal estatuto como testemunha seja alterado”, escreveu Câncio, citando o despacho do MP. Ou seja, para o procurador Rosário Teixeira, a jornalista não era suspeita.

Na sessão de quarta-feira, a testemunha não deverá deixar de ser questionada, por exemplo, sobre as viagens de luxo feitas com José Sócrates, os filhos deste e Carlos Santos Silva e Inês do Rosário no verão de 2008 a Menorca (Espanha) e nesse fim de ano para Veneza e Cortina d’Ampezzo (Itália). As duas viagens implicaram custos na ordem dos 85 mil euros e foram pagas pelo empresário amigo do ex-governante, sem que Fernanda Câncio estivesse a par da situação. Haveria ainda outra, com destino a Formentera, em 2014, onde a reserva da casa de férias terá custado 18 mil euros.

“Nunca tive conhecimento nem motivos para suspeitar da existência da relação pecuniária entre Carlos Santos Silva e José Sócrates que os dois assumiram na sequência da detenção. Refiro-me aos empréstimos de Carlos Santos Silva e José Sócrates e ao facto, também assumido pelos dois, de que foi Carlos Santos Silva que pagou as férias que passou com José Sócrates e para as quais, por mais de uma vez, José Sócrates me convidou. Nunca vi motivo – e já lá irei – para suspeitar de que quem me convidava não assumia a sua e a minha parte da despesa”, declarou.

“Se fizesse ideia da relação pecuniária entre Santos Silva e Sócrates teria feito perguntas por considerar a situação, no mínimo, eticamente reprovável“, reforçou a jornalista, acrescentando: “Quando alguém próximo faz um convite para passar férias não é costume perguntar se é a pessoa que nos convida que paga ou se é outra, como quando nos convidam para jantar ou almoçar não perguntamos de onde vem o dinheiro”.

Ângelo Lucas/Global Imagens

Perante o dilema de calar-se ou falar sobre o polémico caso judicial e a relação pessoal que se tornou mediática, Fernanda Câncio decidiu então quebrar o silêncio e assumiu nesse mesmo artigo que o ex-primeiro-ministro levava uma vida com “desafogo”. A propósito disso, recordou as informações públicas sobre a suposta riqueza da família de Sócrates, mas garantiu que nunca dependeu desse dinheiro para viver ou que tivesse pedido dinheiro ao antigo governante.

“Nunca solicitei ou recebi de José Sócrates – nem de Carlos Santos Silva, evidentemente – quaisquer quantias em dinheiro fosse a que título fosse: empréstimo, pagamento de quaisquer serviços por mim prestados ou oferta”, vincou.

As escutas do processo captaram também conversas entre Fernanda Câncio e José Sócrates, em fevereiro de 2014, sobre a possibilidade de compra de um apartamento na zona do Largo do Caldas, por cerca de 2,2 milhões de euros. Todavia, a jornalista garantiu que nunca quis comprar o apartamento com José Sócrates. “Liguei a perguntar, por curiosidade, quando o edifício foi renovado e os andares ficaram à venda; mas, ao contrário do que se quer fazer, nunca sequer o visitei”, escreveu, sublinhando que a curiosidade se devia ao facto de o novo prédio ter sido construído em frente àquele onde morava.

Fernanda Câncio realçou igualmente que apenas teve conhecimento de que a casa de Paris era, afinal, propriedade de Carlos Santos Silva através da revista Sábado, ao notar que pensava que esse apartamento tinha sido arrendado por José Sócrates a cidadãos franceses: “Até então, estava convicta de que tal apartamento, que nunca vi e que pensava ser o segundo no qual José Sócrates teria vivido naquela cidade, tinha sido arrendado a proprietários franceses. Manifestei aliás a minha surpresa a José Sócrates, num telefonema que está decerto nas escutas”.

O desconhecimento de Fernanda Câncio terá ficado sublinhado numa escuta do processo registada entre José Sócrates e João Perna. No dia 11 de julho de 2014, o motorista recebeu uma alegada remessa de 5.000 euros de Carlos Santos Silva e que teria o ex-primeiro-ministro como alegado destinatário — que estava em Formentera (Espanha) com Câncio. Sem conseguir falar com o seu patrão, Perna terá ligado à jornalista, solicitando-lhe que desse o recado a Sócrates de que já tinha “os documentos”. Estas palavras, segundo o MP, corresponderiam a um código pré-combinado entre Sócrates e Carlos Santos Silva para a entrega ou receção de dinheiro em numerário.

Sócrates irritou-se com João Perna e ter-lhe-á dito que aquele tipo de assuntos só deveriam ser falados entre os dois — e não com Fernanda Câncio. O ex-primeiro-ministro acabou por dar indicação de que os “documentos” deveriam ser entregues a Lígia (Correia), uma amiga muito próxima de Sócrates e ex-secretária em gabinetes governamentais.

As três mulheres ligadas à vida pessoal do ex-primeiro-ministro serão questionadas na próxima semana pelo tribunal, pelo Ministério Público e pelas defesas dos arguidos.