A polémica reacende-se todos os anos duas vezes. Este outono a voz discordante veio de Espanha. “Mudar a hora duas vezes por ano não tem sentido”, disse o presidente do Governo espanhol esta segunda-feira. Pedro Sánchez revelou que o país vai propor à União Europeia acabar com a alternância de horário de verão e inverno. O debate é antigo, motivou vários inquéritos e uma votação favorável no Parlamento Europeu, mas a alteração nunca se concretizou. É necessário que no Conselho se verifique uma maioria qualificada de Estados-membros para a medida ser aplicada. E esse consenso ainda não chegou.
Para já Portugal ainda não tem posição assumida. O ministro dos Negócios Estrangeiros disse esta segunda-feira que compreende a “urgência” espanhola. “Pelo menos em grande parte do seu território ter uma hora legal diferente da portuguesa e da inglesa é especialmente mais gravoso” para Espanha disse Paulo Rangel à RTP. “O assunto ainda não foi discutido em conselho de ministros, aguardo essa tomada de posição, pois num tema com tanto impacto económico e para a saúde não vai ser definida pelo o ministro dos Negócios Estrangeiros”, disse Rangel que também é ministro do Estado, logo a segunda figura do Governo.
Num vídeo publicado na rede social X, o chefe do Executivo espanhol argumentou que a maioria dos cidadãos é contra a mudança de hora, que a ciência afirma que já não representa uma economia de energia e que perturba os ritmos biológicos. Pedro Sánchez lembrou também como há seis anos o Parlamento Europeu votou a favor da proposta para pôr fim ao horário de verão e de inverno. “Assim, hoje, o Governo de Espanha vai defender no Conselho Europeu que façamos valer esse voto maioritário e deixemos por fim de mudar a hora em 2026”, anunciou.
Cambiar la hora dos veces al año ya no tiene sentido.
Apenas ayuda a ahorrar energía y tiene un impacto negativo en la salud y en la vida de la gente.
Por eso, hoy el Gobierno de España propondrá a la UE acabar con el cambio de hora estacional en el Consejo de Energía y… pic.twitter.com/LA9UM0HVfG
— Pedro Sánchez (@sanchezcastejon) October 20, 2025
“O sistema energético está a mudar muito e é importante reabrir o debate para encontrar uma solução que funcione o melhor possível”, sublinhou o secretário de Estado de Energia, citado pelo El País. “Temos consciência da diversidade europeia, mas entendemos que é importante voltar a abordar uma questão importante para os cidadãos”, acrescentou Joan Groizard.
Uma prática da Primeira Guerra Mundial votada no Parlamento Europeu em 2019
Sánchez recorre a uma decisão de há vários anos do Parlamento Europeu. Tudo começou em fevereiro de 2018, quando o órgão aprovou uma resolução em que pedia à Comissão para fazer uma análise aprofundada da legislação europeia relativa à mudança horária e, se necessário, apresentar uma proposta para fazer uma alteração. Citou à época um estudo de outubro de 2017, que defendia que a mudança horária está associada a alterações no bioritmo dos seres humanos, apesar de beneficiar a indústria dos transportes, promover atividades de lazer e reduzir o consumo de energia.
No mesmo ano, durante cerca de um mês, esteve disponível uma sondagem online que apurou que mais de 80% dos 4,6 milhões de inquiridos gostariam que as mudanças de hora fossem abolidas . Mais de metade dos participantes considerou que a prática era “muito negativa”. Na altura foi noticiada como a consulta pública mais participada de sempre: o site com o questionário chegou mesmo a ficar indisponível durante duas horas devido ao número de acessos.
O presidente da Comissão Europeia assegurou então que a vontade dos europeus ia ser respeitada. “As pessoas querem, nós faremos”, garantiu Jean-Claude Juncker à televisão pública alemã ZDF — a maioria dos votantes chegou precisamente do país germânico. Mas nem todos os países da UE reagiram favoravelmente.
“O que foi expresso até ao momento é o entendimento de que em Portugal devemos manter este regime bi-horário, com hora de verão e hora de inverno. Não vejo razão para que se contrarie a ciência e se faça algo de forma discricionária”, disse António Costa, antigo primeiro-ministro em entrevista à TVI, citando um relatório do Observatório Astronómico de Lisboa que defendia que o regime era preferível a outras alternativas. “Se a ciência entende que o regime horário mais adequado é este, quem sou eu para dizer o contrário?”, questionou.
Na sequência do inquérito, as autoridades europeias começaram a preparar uma proposta para apresentar no Parlamento Europeu. Assim, em março de 2019, os eurodeputados votaram sobre a abolição da mudança de hora, com 410 votos a favor, 192 contra e 51 abstenções. A Comissão Europeia tinha pedido que fosse concretizada já em 2019, mas o Parlamento optou por 2021 como meta.
A ideia era que os países tivessem a opção de escolher entre fixar o horário de verão (de março a setembro) ou o de inverno (de setembro a março) para o ano inteiro. No entanto, esse passo nunca chegou a ser tomado. Apesar da votação de 2019 era necessário que os Estados-membros chegassem a uma posição comum em sede do Conselho da UE. Nunca aconteceu.
“Ainda não foi tomada uma decisão final sobre esta questão, nem estabelecido qualquer prazo para esse efeito. Assim, mantém-se o atual sistema de adiantamento ou atraso dos relógios de uma hora, que prolonga o horário diurno no verão”, lê-se na página do Conselho Europeu. A poucos dias da mudança para o horário de inverno — próxima madrugada de domingo —, o Governo espanhol argumenta que é preciso voltar a debater-se o tema porque “os Estados-membros devem escutar os cidadãos, atender às evidências científicas e demonstrar que são capazes de atualizar as suas políticas ao ritmo dos tempos”.
A mudança horária foi implementada em 1916 para poupar recursos durante a Primeira Guerra Mundial, acabando por ser abandonada em alguns países com o fim do conflito. A Segunda Guerra Mundial trouxe a prática de volta, mas voltou a cair em várias zonas do globo. Viria a regressar em muitos países nos anos 70.
O nome oficial é Daylight Saving Time. A União Europeia legislou sobre o tema pela primeira vez em 1980, adotando uma diretiva para coordenar as práticas nacionais e assegurar o bom funcionamento do mercado único. A medida entrou em vigor em 2001 e prevê que todos os anos os relógios sejam, respetivamente, adiantados e atrasados uma hora no último domingo de março e no último domingo de outubro, marcando o início e o fim da hora de verão.
[Apesar da euforia em torno de Freitas, Soares recupera. O debate com Zenha será decisivo. Quando acabar, nunca mais serão amigos. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]
Acabar ou não com a mudança de hora?
“Se a ciência entende que o regime horário mais adequado é este, quem sou eu para dizer o contrário?”. Esta foi a questão colocada pelo ex-primeiro-ministro António Costa no ano em que o presidente da Comissão Europeia garantiu que a vontade manifestada pelos europeus na sondagem online ia ser respeitada. Referia-se a um relatório do Observatório Astronómico de Lisboa, mas a verdade é que o tema tem sido amplamente discutido na comunidade científica.
O documento de 44 páginas a que Costa aludia, de 2018, defendia que o atual regime horário é “melhor quando comparado com as possíveis alternativas”. Por um lado, reconhecia que o valor de poupança energética verificada “é relativamente pequeno”, por outro lado, que “dos 7 meses completos do período com Hora de Verão há uma apreciação global positiva, ou muito positiva, limitando-se o debate público aos momentos da transição de e para a HdV”. O Observatório Astronómico de Lisboa considerava, no entanto, que o atual sistema “poderia ser ainda melhor” se a transição em outubro (saída da Hora de Verão) “regredisse para finais de setembro”.
Quando se fala na transição de hora uma das questões mais citadas é o biorritmo humano. No relatório lembrava-se que têm sido objeto de muitos estudos científicos que mostram que estas perturbações “são muito limitadas no tempo”, traduzindo-se em “poucos dias na vasta maioria das pessoas, mas podendo estender-se até aos 10 dias em algumas pessoas”.
Especialistas que têm vindo a ser ouvidos pelo Observador dividem-se. Carlos Fernandes da Silva, por exemplo, notou que os poucos efeitos sentidos por algumas pessoas não se comparam às consequências de andar em contraciclo com a luz solar — o que aconteceria se um dos horários fosse adotado para o ano inteiro. “Sempre que os nossos relógios internos não estão de acordo com os ciclos exteriores do meio ambiente, isso vai gerar uma dessincronização interna”, apontou a propósito da proposta aprovada na UE. Já Elisa Keating, professora de cronobiologia na Universidade de Medicina do Porto e investigadora do CINTESIS, lembrou a capacidade de adaptação do corpo humano. “Se não houver mudança de hora, temos possibilidade de nos irmos adaptando, porque o aumento e a diminuição dos dias é gradual. O organismo tem mais tempo de se adaptar assim do que se, de repente, se fizer essa mudança”.
Ano após ano são publicados novos estudos sobre o assunto. Um dos mais recentes foi divulgado em setembro de 2025 pela Universidade de Stanford que refere que manter os relógios no horário padrão o ano todo, em vez de apenas no outono e inverno reduziria a prevalência de obesidade e derrames. Os investigadores compararam três cenários: o horário de inverno, o horário de verão e o sistema de troca. Concluíram que manter o horário de inverno iria criar um alinhamento mais natural entre as agendas sociais e o ciclo do sol.
As conclusões iam ao encontro de um comunicado publicado em 2020 pela Academia Americana de Medicina do Sono, que pediu a abolição do horário de verão. Segundo o New York Times, afirmava que a alteração, ao interromper o relógio biológico natural, poderia aumentar o risco de derrames e eventos cardiovasculares, além de provocar mais acidentes de trânsito.
Há investigadores, porém, que não consideram os dados sobre riscos à saúde conclusivos. Em declarações à revista Science, José María Martín-Olalla, da Universidade de Sevilha, apontou que pode ser difícil separar os efeitos do horário de verão dos efeitos das próprias estações do ano. Também Derk-Jan Dijk, neurocientista da Universidade de Surrey, indicou que as consequências negativas associadas ao horário de verão “podem ser um tanto exageradas”.
Cerca de um terço dos países do mundo usam o Daylight Saving Time
A mudança de horário duas vezes por ano não é uma prática exclusiva da União Europeia. É também implementada, por exemplo, em algumas zonas dos Estados Unidos, mas não é a mais comum em todo o mundo. “A Europa e os Estados Unidos são mais a exceção do que a regra”, lê-se numa análise de 2023 do Pew Research Center.
Segundo este centro de sondagens, apenas cerca de um terço dos países do mundo usam o Daylight Saving Time, a grande maioria na Europa. Na América a mudança de horário é uma prática nos Estados Unidos, no Canadá, também em alguns países da América Latina e das Caraíbas. No continente africano só é implementado no Egito — uma medida que terminou em 2014, mas foi trazida de volta em 2023.
O Pew Research Center acrescenta que metade dos países do mundo chegaram a usar a mudança de horário, ainda que atualmente apenas cerca de um terço a mantenha. “Só na última década, Azerbaijão, Irão, Jordânia, Namíbia, Rússia, Samoa, Síria, Turquia e Uruguai acabaram com as suas mudanças sazonais de horário“, refere.
O centro nota ainda que em 2022 o congresso mexicano também votou pela abolição do horário de verão na maior parte do país, apesar de as grandes cidades mexicanas próximas à fronteira com os EUA e alguns outros locais estarem isentos. O Presidente norte-americano já se mostrou favorável ao fim da mudança de horário, que descreveu como “inconveniente”, mas admitiu entretanto que pode ser difícil recolher apoio.