Primeiro, o Haiti, depois a República Dominicana e a Jamaica, onde chegou pelas 12h00 locais (17h00 em Portugal Continental), seguiu para as Bahamas e Cuba, e está a caminho das Bermudas. É este o percurso do furacão Melissa, que, com ventos de mais de 295 quilómetros por hora, desceu esta quinta-feira para um furacão de categoria 2, depois de ter ameaçado ser a tempestade mais forte de 2025, segundo dados do Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC, na sigla inglesa).
Esta quinta-feira, o NHS alertou para a chegada rápida de Melissa às Bermudas. “Condições nas Bermudas vão deteriorar rapidamente esta noite”, avança o centro na rede social X, onde tem estado a notificar o progresso do furacão.
Hurricane #Melissa Advisory 38: Melissa Accelerating Northeastward. Conditions in Bermuda Will Rapidly Deteriorate This Evening. https://t.co/tW4KeGdBFb
— National Hurricane Center (@NHC_Atlantic) October 30, 2025
O furacão fez, pelo menos, 32 mortos nas Caraíbas, com 23 vítimas no Haiti, quatro na Jamaica, quatro no Panamá e uma na República Dominicana, deixando um rasto de destruição que também atingiu Cuba. A situação levou mesmo o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a anunciar que Washington fornecerá ajuda humanitária “imediata” ao “povo de Cuba afetado” pela passagem do furacão Melissa.
In the wake of Hurricane Melissa’s devastation of eastern Cuba, the Trump Administration stands with the brave Cuban people who continue to struggle to meet basic needs.
The United States is prepared to provide immediate humanitarian assistance directly and via local partners…
— Secretary Marco Rubio (@SecRubio) October 30, 2025
Na quarta-feira, ao divulgar informações sobre o envio de equipas de socorro, o chefe da diplomacia norte-americano deixou Cuba de fora, ao garantir que os Estados Unidos estavam “em estreito contacto com os Governos da Jamaica, do Haiti, da República Dominicana e das Bahamas”, os outros países atingidos pelo ciclone. Esta quinta-feira, na nova mensagem, o responsável norte-americano incluiu o povo de Cuba, mas não adiantou pormenores sobre como será coordenada essa ajuda com o Governo de Havana.
“O Presidente, Donald Trump, autorizou uma resposta imediata dos Estados Unidos e ordenou ao Departamento de Estado que mobilize ajuda para as comunidades afetadas”, indicou o departamento num comunicado.
O furacão Melissa atingiu Cuba esta quarta-feira, com o Presidente, Miguel Díaz-Canel, a admitir que o país sofreu “danos consideráveis”, que obrigou à deslocação de mais de 700 mil pessoas, depois de ter devastado a Jamaica. “A noite foi muito difícil”, escreveu o chefe de Estado na rede social X, apelando aos cubanos para que “permaneçam em casa” devido aos ventos extremamente fortes e à instabilidade meteorológica.
Ao início do dia de quarta-feira, Díaz-Canel já tinha confirmado que foram colocadas várias brigadas para ajudar nos esforços de recuperação. “Já existem brigadas especializadas em eletricidade, recursos hídricos, comunicações e construção que trabalharão em conjunto com as forças em cada território nos esforços de recuperação”, afirmou, citado no The Guardian. “Sabemos que este ciclone causará muitos danos. Teremos toda a capacidade para recuperar a produção de alimentos, a reconstrução de casas destruídas ou danificadas, a recuperação da economia e também a recuperação e vitalidade dos principais processos produtivos e sociais do país.”
O Programa Alimentar Mundial estimou, esta quinta-feira, que cerca de 700.000 pessoas em Cuba, mais de 7% da população, necessitem da sua assistência. Os cálculos preliminares da agência especializada das Nações Unidas indicam que metade desse número precisará de apoio material durante três meses e o restante durante seis meses.
Uma parcela inicial da ajuda — 617 toneladas de arroz, cereais e petróleo — já está no terreno graças ao Plano de Ação Antecipatória da ONU para Emergências em Cuba, que inclui a passagem de furacões nos seus cenários de contingência e se preparou para a chegada do Melissa. As reservas que o PAM já tinha armazenado em vários locais de Cuba serão agora transferidas para as quatro províncias mais afetadas (Granma, Santiago de Cuba, Guantánamo e Holguín), especificamente para os 20 municípios que se estima tenham sofrido mais danos.
Mas, para conseguir cumprir as suas projeções para os próximos seis meses, a agência indicou que precisa de até 30 milhões de dólares (25,8 milhões de euros), 25 milhões de dólares (21,5 milhões de euros) dos quais se destinam ao fornecimento de alimentos essenciais.
Rasto de destruição em vários países
Na Jamaica, três pessoas morreram durante os preparativos para a chegada da tempestade — duas após árvores lhes terem caído em cima e uma terceira por eletrocussão —, confirmou o ministro da Saúde e Bem-Estar, Christopher Tufton, na noite de segunda-feira. Outras 13 pessoas ficaram feridas, a maioria em quedas de escadas e telhados enquanto tentavam reforçar as casas. “Não apostem contra a Melissa porque vão perder”, apelou o ministro jamaicano Desmond Mckenzie.
A tempestade, que chegou ao noroeste jamaicano no final do dia de terça-feira, chegou a ser classificada como categoria 5 pelo NHC, mas com a aproximação da ilha da Jamaica, acabou por perder alguma potência. Não obstante, a agência mantém os avisos: “Esta continua a ser uma situação extremamente perigosa”, escrevem nas suas plataformas oficiais.
Poucas horas após a tempestade ter infiltrado território jamaicano, o ministro Desmond McKenzie adiantava que mais de 530 mil pessoas estavam sem eletricidade. Recorde-se que a Jamaica tem uma população de 2,8 milhões. Ao mesmo tempo, a região de St. Elizabeth, no sudoeste do país, viu o seu único hospital público com “danos significativos” numa das suas secções. “As instalações administrativas sofreram danos significativos, e o abastecimento elétrico em algumas zonas foi afetado”, revelou o hospital num comunicado citado pela agência Reuters.
No Panamá, o mau tempo trazido pela cauda do furacão fez, pelo menos, quatro mortos, três deles menores de idade, e mais de 1.100 pessoas foram afetadas pelas fortes chuvas em várias províncias. No Haiti, três pessoas morreram e mais de 15 hectares de plantações de milho foram destruídos, o que pode agravar a fome que o país vive. Apesar de não ter sido atingido diretamente, o país é até agora o país com o maior número de mortes causadas por Melissa, incluindo 20 devido ao transbordo de um rio. Na República Dominicana, morreu uma pessoa, 50 mil pessoas ficaram sem energia e mais de 3 mil ficaram desalojadas. “Não é motivo para brincar”, alertou o ministro do ambiente dominicano.
O Melissa é o décimo terceiro furacão da época do Atlântico. Porém, o facto de ser uma tempestade lenta torna-o particularmente destrutivo. “Quando mais devagar uma tempestade se desloca, mais tempo tem para despejar muita chuva num único local”, simplificou Stephen Mullens, professor da Universidade da Florida ao New York Times. Além da chuva, os ventos prolongados num mesmo local também afetam mais facilmente estruturas debilitadas.
I’m almost at a loss for words at how chilling these images are. Melissa has just hit a new peak intensity of 145 MPH and 941 mbar, and satellite presentations in the Atlantic don’t often get more insane than this. The Hurricane has achieved near-perfect symmetry to Jamaica’s… pic.twitter.com/s6zfhngBbQ
— Backpirch Weather (@BackpirchCrew) October 26, 2025
Mais de 700.000 crianças precisam “urgentemente de alimentos”, diz UNICEF
A UNICEF alertou, entretanto, que mais de 700.000 crianças e adolescentes precisam “urgentemente de alimentos e água potável” nas Caraíbas, após as inundações provocadas pelo furacão. “Em consequência das inundações implacáveis” nas Caraíbas, centenas de milhares de crianças viram as suas vidas subitamente viradas de cabeça para baixo (…) precisam urgentemente de alimentos, água potável e saneamento básico, acesso a serviços de saúde e nutrição e um caminho de regresso à educação”, alertou o diretor regional da UNICEF para a América Latina e o Caribe, Roberto Benes.
Num comunicado, a UNICEF referiu que a tempestade deixou famílias desalojadas e causou graves danos nas infraestruturas, plantações e serviços de saúde e educação. A UNICEF também indicou que a distribuição de mantimentos essenciais para crianças já começou. A organização reconheceu ainda que muitas das comunidades mais afetadas são “extremamente difíceis de alcançar” devido aos danos nas infraestruturas e às inundações contínuas.
Para a Jamaica, a UNICEF enviou “um milhão de dólares (cerca de 864 milhões de euros) para apoiar a resposta imediata de emergência”. Em Cuba, as crianças receberão quase 2.000 kits, que incluem materiais escolares e atividades lúdicas. Destes kits, 1.300 são para a higiene dos menores, sendo que também vão ser distribuídas 1.900 telhas, 5.000 metros de lonas (que servem para abrigo e reparos) e duas estações portáteis de tratamento de água.
No Haiti, estão a ser distribuídos 2.900 kits de higiene e de primeiros socorros para satisfazer as necessidades de 20.000 pessoas. Na República Dominicana, a organização está a distribuir 750 kits de higiene, garantindo condições de saneamento adequadas às crianças das comunidades mais afetadas.
“Para sustentar a resposta, a UNICEF está a solicitar 46,5 milhões de dólares (cerca de 40 milhões de euros) para fornecer intervenções iniciais que salvam vidas de mais de 380 mil crianças e das suas famílias”, concluí o comunicado.
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