As famílias de cinco crianças (com idades entre os nove e nove anos) e duas monitoras (com 18 e 19 anos) que morreram nas cheias de dia 4 de julho em Camp Mystic estão a processar o campo e a direção, alegando que perderam tempo enquanto a tempestade se aproximava e que ordenaram às campistas que ficassem dentro das cabines à medida que as cheias dominavam o local.

No processo, que foi apresentado no Tribunal Estadual do Texas na segunda-feira, os familiares afirmam que os diretores do campo esperaram até que fosse “demasiado tarde” para começar o processo de evacuação, vitimando 27 pessoas, avança o Washington Post. E dizem que o campo e a sua direção — a família Eastland — escolheram deliberadamente não fazer planos de evacuação, apesar de o local ser conhecido pelas cheias.

Já a equipa legal de Camp Mystic, através de um dos seus membros, Jeff Ray, nega várias acusações feitas no processo.  “Queremos demonstrar e provar que este aumento repentino das águas da enchente excedeu em muito qualquer cheia anterior na área em várias magnitudes, que foi inesperada e que nenhum sistema de aviso existia no local”, explica ainda Ray.

Os queixosos estão a pedir “uma indemnização monetária superior a 1 milhão de dólares” (mais de 862 mil euros), pode ler-se no processo, acrescenta o jornal norte-americano.

O rio Guadalupe subiu a níveis inéditos no dia 4 de julho, tendo a água chegado às cabines onde algumas das jovens mais novas de Camp Mystic dormiam. No processo, as famílias acusam a direção de ter ordenado às crianças que ficassem nas suas cabanas, apesar de os jardineiros terem já removido equipamento, e outras campistas já terem sido retiradas para outro terreno mais elevado.

Acusam ainda o campo de dar mais importância ao lucro do que à segurança, pois alojaram as crianças mais novas numa área pouco segura para “evitar o custo de mudar as cabanas”, e ainda por cima, dizem, depois não as tiraram das casas imediatamente.

Richard “Dick” Eastland, o diretor do acampamento, que morreu nas cheias ao tentar salvar as campistas, só as começou a retirar uma hora depois de ter recebido o aviso do Serviço Nacional de Meteorologia que alertava para cheias possivelmente “fatais”.  O momento em que o aviso chegou “era a altura para começar a salvar vidas”, continuam as famílias, descrevendo o esforço de Eastland como uma tentativa de salvamento “sem esperança”, vindo de um “desastre criado por ele mesmo”.

A “tragédia foi totalmente evitável”, avançaram as famílias, que dizem esperar que a ação legal possa impedir a repetição de uma situação destas.

“Acreditamos que a verdade e a justiça são essenciais para encontrarmos a paz — não só para a nossa família, mas para todas as que foram afetadas”, afirmou o pai de uma das vítimas, Molly DeWitt, de nove anos, Ryan DeWitt. “Confiamos que através deste processo a luz possa vir ao de cima, e a nossa esperança é que a justiça possa abrir caminho para a prevenção e uma reforma de segurança muito necessária”, adicionou.

No processo, as famílias lembram que existem cheias em Camp Mystic desde a sua fundação, há quase um século. E que já houve pelo menos duas cheias desde que os Eastlands estão na direção, e uma outra num acampamento próximo em 1987, que também vitimou dez crianças.

De acordo com o Washington Post, em 2013, o Camp Mystic conseguiu com sucesso que a Agência Federal de Gestão de Emergências não incluísse mais de dez dos seus edifícios num mapa de Área Especial de Risco de Inundações. Isto implicava que o campo já não precisava de contratar um seguro de inundações para aquelas estruturas. Em 2019 e 2020, pediu à agência que removesse 15 outros edifícios dessa zona.

Os familiares destas vítimas acusaram ainda os Eastlands de não terem em consideração a segurança das jovens e de minimizar custos, visto que antes das cheias trágicas, o acampamento não desenhou um plano de segurança apropriado para responder a inundações. E no momento crítico, disseram aos seus monitores para ficarem nas cabanas até que lhes fosse dito o contrário.

“Eles simplesmente ignoraram a ameaça de segurança óbvia até que esta tragédia fosse inevitável”, escrevem as famílias no processo. “Por causa disso, 27 jovens raparigas perderam as suas vidas”.

Os pais de Ellen Getten, da mesma idade de Molly, também processaram o acampamento e os Eastlands por negligência no Tribunal do Condado de Travis.

Camp Mystic já anunciou que estará aberto em 2026, ação condenada por estas famílias bem como por CiCi e Will Steward, pais de Cile, de 8 anos, que ainda está desaparecida. Acusam, mais uma vez, o campo de dar prioridade ao “lucro acima de tudo o resto”, pois os Eastlands nem sequer falaram com as famílias das vítimas sobre esta decisão.

“O campo está pronto para seguir em frente, mas estas crianças e as suas famílias merecem antes transparência e justiça”, pode ler-se no processo apresentado no Texas, citado pelo Washington Post.

Se Camp Mystic tivesse tomado as precauções necessárias, as cinco raparigas teriam começado agora o terceiro ano, frisam as famílias. E as monitoras teriam agora começado as suas licenciaturas na Universidade do Texas. Ao invés disso, “já nenhuma está cá”, lamentam.