A um ano de completar 100 anos de existência, o Camp Mystic é descrito no seu site com um pequeno paraíso “entre ciprestes, carvalhos e nogueiras na região montanhosa do centro-oeste do Texas”, com cabanas e muitas diversões aquáticas — um local pronto a receber centenas de raparigas nas margens do “belo rio Guadalupe”.
O cenário parece de sonho, principalmente para pais norte-americanos que queiram incutir valores cristãos e tradicionais a meninas desde tenra idade, mas também com estatuto económico que permita pagar a inscrição mensal, que anda na casa dos milhares de euros. A localização é privilegiada, com natureza em abundância e o rio mesmo ali ao lado.
Foi este curso de água que subiu oito metros em 45 minutos na sexta-feira passada e apanhou tudo e todos de surpresa, incluindo as dezenas de crianças e adultos que estavam no complexo deste campo de férias cristão, especialmente lotado nessa data graças ao fim de semana prolongado do feriado do 4 de julho nos EUA.
Entre os que estavam no campo contam-se, até ao momento, 27 mortos. E ainda há adultos e crianças desaparecidos, com a maioria das cabanas onde pernoitavam a serem neste momento entulho espalhado pelas redondezas do rio que transbordou para zonas residenciais do condado de Kerr, no estado norte-americano do Texas.
▲ Elemento da equipa de resgate mostra t-shirt e bolsa com a inscrição de Camp Mystic encontrada nos destroços, roupa encontrada, vigília pelos mortos e desaparecidos, brinquedos à porta de uma cabana
The Washington Post via Getty Im
Inscrição completa superior a 3.700 euros
Foi com pedidos de “orações contínuas, respeito e privacidade para cada uma das famílias afetadas” que o Camp Mystic anunciou no seu site que está de luto pela “perda de 27 campistas e monitores”. O apelo às preces não é de estranhar, afinal de contas, é com base nos valores cristãos que as atividades dos tempos livre deste centro não denominacional, decorrem desde o ano da sua fundação, em 1926.
“Os nossos corações estão destroçados ao lado das nossas famílias que estão a suportar esta tragédia inimaginável. Estamos constantemente a orar por elas. Temos estado em contacto com as autoridades locais e estatais, que estão a utilizar incansavelmente recursos para procurar as nossas raparigas desaparecidas”, lê-se numa nota publicada pela organização do campo de férias na manhã desta segunda-feira.
▲ Interior de uma cabana atingida pelas águas e destruição no campo
AFP via Getty Images
O campo é exclusivo para crianças do sexo feminino, após completarem o 2º ano da escolaridade primária (a partir dos 7 e até aos 17 anos), e cada inscrição requer um depósito de 400 dólares (cerca de 340 euros), de acordo com a informação disponibilizada no site. Segundo a Sky News, o valor atual de uma inscrição completa, que dá acesso ao campo por um período de 30 dias, é desconhecido, mas em 2011 rondava os 4.300 dólares (cerca de 3.700 euros).
Este valor, que atualmente se estima seja ainda mais alto, sinaliza desde logo a quem se destina este campo de férias. Durante décadas, passaram pelos portões verdes do Camp Mystic filhas de senadores, governadores, grandes empresários do petróleo e demais membros da elite norte-americana, que enviava as filhas durante uma temporada, geralmente no verão, para conviver com crianças do mesmo estatuto social.
A despesa das famílias era vista como um “investimento importante na educação” das raparigas norte-americanas, não só residentes no Texas, mas que chegavam de outros pontos do país para ali passar uma temporada, escreveu a escritora Mimi Swartz, da Texas Monthly, num perfil do campo de férias, em 2011.
▲ Imagem de uma atividade de natação sincronizada do site do Camp Mystic
Site oficial do Camp Mystic
“O acampamento sempre serviu como um campo de treino quase perfeito para mulheres arquetípicas do Texas“, sublinhou a autora.
Natação sincronizada, pesca e caça
Entre os ilustres que têm relação com o campo, conta-se a primeira-dama Laura Bush, que foi monitora do acampamento infantil quando ainda frequentava a faculdade. Também o antigo Presidente norte-americano Lyndon B. Johnson enviou as suas filhas e netas para o Camp Mystic durante várias temporadas, relata a Sky News.
Entre as atividades disponibilizadas, além dos momentos de oração e devocionais obrigatórios, contam-se a pesca, a caça e ainda a equitação. Os desportos e diversões aquáticas, como a natação sincronizada, são também um must have do local, com corridas de canoa frequentes no Guadalupe.
Foi este rio, ex-libris do campo, que acabou por se tornar no maior pesadelo e drama dos pais. A força das águas do rio, onde antes grande parte das campistas se divertiam, arrastou tragicamente cabanas inteiras provocando quase três dezenas de vítimas mortais e dez crianças continuam desaparecidas. Ao todo, são já mais de 90 as mortes causadas por estas cheias.
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Como a disposição do campo de férias ditou a tragédia
No feriado de 4 de julho, sexta-feira, havia cerca de 750 campistas dentro do complexo do Camp Mystic em Kerr, no Texas. De acordo com o New York Times, que teve acesso à disposição dos edifícios do campo, o facto de as vítimas da enxurrada serem maioritariamente crianças mais novas deve-se ao facto de estarem, por volta das quatro da manhã, momento em que o curso de água subiu repentinamente, a dormir nas cabanas mais próximas do rio Guadalupe.
Segundo o jornal norte-americano, estas raparigas, tanto as que foram dadas como mortas como aquelas que ainda estão desaparecidas, estavam na zona de cabanas num patamar mais abaixo de grande parte do restante complexo, a apenas cerca de 150 metros da margem do rio.
▲ A vermelho está assinalado o local de cabanas de onde terão desaparecido a maioria das vítimas da enxurrada no Camp Mystic. A amarelo está assinalada a "Senior Hill"
As campistas seniores e a maioria das monitoras, bem como outros responsáveis do campo ficavam tradicionalmente nas nove cabanas mais afastadas do rio, numa pequena colina, uma secção chamada “Senior Hill”.
Assim, pensa-se que não houve tempo para que os responsáveis adultos chegassema a tempo de retirar as crianças, quando no espaço de poucos minutos se deu a maior cheia registada desde os anos 80.
Ainda de acordo com o New York Times, vários edifícios do campo de férias são originais da década de 1920, não se conhecendo para já qual seria o seu estado de conservação ou qual o plano de emergência do complexo no caso de uma inundação destas ocorrer, já que a zona não era alheia a este tipo de fenómenos — a região é aliás conhecido por ficar inundada com frequência.
O diretor do Camp Mystic que morreu a tentar salvar as crianças
O Camp Mystic foi comprado, em 1939, por Agnes Doran Stacy, uma socialite de Dallas, e que permaneceu enquanto propriedade desta família até aos dias de hoje.
“Os proprietários e diretores executivos do Camp Mystic são Dick e Tweety Eastland, que estão no Mystic desde 1974. Eles, com os seus onze netos, são a terceira geração a gerir o Mystic, que está na família desde 1939”, informa-se no site do campo de férias.
Desde a década de 30, só em 2011 é que os irmãos Eastland, netos de Agnes, estiveram em risco de perder a propriedade que mantinham na família há décadas a fio. Envolveram-se numa longa e complicada batalha judicial que só chegou ao fim com um acordo confidencial em 2012, com o campo a manter-se na família.
Um dos netos era Richard Dick Eastland, que até esta sexta-feira assumia, além do papel de coproprietário, o lugar de diretor executivo do Camp Mystic ao lado da mulher. Mrreu nesse dia enquanto tentava salvar as crianças que estavam a ser levadas pela enxurrada repentina na zona mais baixa do campo.
A notícia foi confirmada pelo seu neto a vários órgãos de comunicação locais e também através do Instagram do próprio. George Eastland garantiu que o avô morreu a tentar salvar as raparigas assim que se apercebeu do que se passava.
“Se não morresse de causas naturais, esta era a única outra forma de acontecer, a salvar as raparigas que ele tanto amava e cuidava. Era esse o homem que o meu avô era. Marido, pai, avô e mentor de milhares de jovens mulheres, ele já não anda nesta terra, mas o seu impacto nunca deixará as vidas que tocou”, escreveu o neto na rede social, onde partilhou diversas fotos de Dick Eastland a acompanhar as atividades do Camp Mystic, sempre rodeado de crianças, da família e de muitas canas de pescas.
Ao Washington Post, Cami Wright, uma antiga monitora do campo de férias disse que não foi com surpresa que recebeu a notícia de que o septuagenário tinha sido encontrado ao lado de três raparigas que tentou salvar das cheias. Eastland ainda foi resgatado por um helicóptero, mas acabou por morrer a caminho de um hospital em Houston.
“Ele era como um pai para milhares de meninas”, disse Wright ao jornal.
Texto corrigido às 13h29 com a informação de que o Camp Mystic era cristão não denominacional, acolhendo raparigas católicas e protestantes, e não católico como estava inicialmente escrito